Uma semana depois do segundo turno da eleição, o PL tem duas disputas para administrar. No país, precisa definir como fará oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva depois da derrota de Flávio Bolsonaro e da saída do senador para os Estados Unidos. Em Goiás, precisa decidir quem conduzirá o partido e qual será sua relação com o governador reeleito Daniel Vilela (MDB). As duas questões atravessam o confronto entre o deputado federal e senador eleito Gustavo Gayer e o senador Wilder Morais, presidente estadual da legenda.
A eleição alterou o peso dos dois nessa queda de braço. Gayer conquistou uma cadeira no Senado e chega respaldado pelas urnas. Wilder perdeu a disputa pelo governo, mas conserva a presidência e mais quatro anos de mandato. Um tem força eleitoral renovada para reivindicar espaço. O outro mantém o controle formal da estrutura que o adversário interno pretende reorganizar.
Wilder sustentou a candidatura própria ao Palácio das Esmeraldas. Gayer defendeu uma composição com o grupo governista. O encerramento da campanha devolveu ao partido uma pergunta que a eleição não resolveu: qual relação estabelecer com Daniel?
A trégua tampouco resistiu ao resultado nacional. Na segunda-feira (26), Gayer cobrou que Wilder defendesse pessoalmente a anulação do segundo turno. “Bota sua cara nessa briga”, escreveu, além de chamá-lo de “bunda mole”. Wilder havia compartilhado uma manifestação de Flávio contra o resultado. Gayer exigiu mais, sem apresentar provas de irregularidade na eleição.
Ao cobrar do colega uma reação nos seus termos, Gayer também procura estabelecer quem dá o tom político do PL goiano. A presidência continua com Wilder. A autoridade sobre o partido está em disputa.
Há uma combinação que ajuda a compreender esse movimento: Gayer radicaliza o discurso nacional e defende entendimento com Daniel. Oposição a Lula e aproximação com o governo de Goiás cabem na mesma estratégia.
A mudança de comando encontra respaldo entre os eleitos. Em entrevista a esta edição da Tribuna (leia nas páginas 4 e 5), o deputado federal eleito Fábio Sousa defendeu a renovação, mesmo se Gayer não quiser assumir. “Querendo ou não, ele é o líder do partido, pode não ser o presidente, mas é o líder do partido”, afirmou.
Sobre Daniel, Fábio também tomou posição: “Eu vou ajudar, eu quero ser situação”. Ressalvou que a decisão sobre integrar a base cabe sobretudo aos deputados estaduais. Sua manifestação não torna o PL governista, mas mostra que a disposição para negociar ultrapassa Gayer.
Para Daniel, abre-se a possibilidade de ampliar sua sustentação parlamentar. Para Wilder, surge a dificuldade de preservar uma orientação que pode não ser acompanhada pelos eleitos. Gayer ainda precisa converter apoio em comando. O entendimento exigirá mais do que outra fotografia de reconciliação: será necessário definir qual espaço o PL pretende ocupar no governo que tentou derrotar.
A fila de Daniel
A montagem do governo de 2027 será o primeiro teste de Daniel Vilela depois da reeleição. O governador terá de acomodar os partidos que o acompanharam sem transformar cada apoio em direito adquirido a uma secretaria. A composição da equipe mostrará quanto espaço haverá para mudanças e quanto será destinado à continuidade.
Bruno apresenta nomes
O presidente estadual do União Brasil, Bruno Peixoto, abriu a possibilidade de indicar suplentes para o Executivo. Citou a experiência do ex-deputado Delegado Waldir, mas ressalvou que a decisão pertence a Daniel. A manifestação coloca uma demanda na mesa: aliados que ficaram sem mandato também querem participar do próximo governo.
Escolha com assinatura
A indicação de José Frederico Lyra Netto para substituir Fátima Gavioli na Educação oferece uma pista sobre a formação da equipe de Daniel. O governador escolheu um integrante da própria administração, hoje na Ciência e Tecnologia. A transição permitirá observar quais políticas serão preservadas e onde o futuro secretário pretende imprimir sua orientação.
Outra cadeira aberta
A transferência de José Frederico também abre uma discussão na Ciência, Tecnologia e Inovação. A escolha de seu sucessor será mais um indicador do espaço reservado a indicações partidárias e à continuidade administrativa. A mudança na Educação, portanto, tem efeito sobre duas áreas do primeiro escalão.
Passagem pelo Executivo
Bruno Peixoto entrega o governo a Leandro Crispim na terça-feira (3), conforme o calendário anunciado. O presidente do Tribunal de Justiça permanece até o retorno de Daniel, previsto para sábado (7). Para Bruno, eleito deputado federal, a interinidade acrescenta exposição estadual antes da mudança para Brasília. O período é curto; o ganho político dependerá do uso dessa agenda.
Relação depois do palanque
Daniel reconheceu o resultado presidencial e cobrou uma relação sem retaliações aos estados. Depois de apoiar Flávio Bolsonaro, precisará construir interlocução com o presidente Lula. A questão prática será como preservar as divergências políticas e, simultaneamente, negociar investimentos e demandas de Goiás. Esse diálogo terá mais consequência para a gestão do que a continuidade do discurso eleitoral.
Fusão com efeito local
O presidente eleito da Câmara de Goiânia, Thialu Guiotti, confirmou as negociações para unir Avante e Solidariedade, mantendo a federação com o PRD. A composição ainda depende de conclusão nacional. Em Goiás, porém, abre uma disputa concreta: como dividir o comando e os espaços entre dirigentes que hoje administram estruturas separadas.
Comando da bancada
O deputado federal reeleito José Nelto voltou a mencionar sua derrota na disputa pela coordenação da bancada goiana. “Perdi no tapetão”, afirmou, embora tenha classificado o episódio como passado. Com os novos parlamentares, a composição terá de ser renegociada. A coordenação interessa porque organiza demandas coletivas e a interlocução de Goiás em Brasília.
Hugo passa de fase
A abertura de crédito de R$ 292 milhões para a nova sede do Hugo passou pela segunda votação na Alego na última quinta-feira (29). A cobrança política agora muda de endereço: aquisição, adaptação do imóvel e cronograma de funcionamento. A autorização orçamentária permite avançar, mas ainda não responde quando a nova estrutura começará a atender.
Alívio provisório
A suspensão dos efeitos da decisão sobre a taxa do lixo deu fôlego à Prefeitura de Goiânia. Permanecem, por enquanto, as regras anteriores, com descontos e isenções. O mérito da disputa continua aberto. Sandro Mabel ganhou tempo para defender seu modelo, mas ainda terá de enfrentar o julgamento dos recursos e a cobrança por transparência nos custos.
Aava mantém a cobrança
A vereadora Aava Santiago contesta a interpretação de que sua ação pretendia acabar com os subsídios da taxa do lixo. Defende os benefícios, mas cobra regulamentação por lei e demonstração dos gastos. O confronto com Mabel deve continuar em torno desses dois pontos. A suspensão judicial não eliminou a divergência política sobre quem paga e como se calcula a conta.
Refis na mesa
A Câmara aprovou o Refis e encaminhou o projeto à sanção de Mabel. A proposta ampliou para R$ 2,5 milhões o teto das dívidas elegíveis. Para a prefeitura, o teste será transformar renegociação em receita efetiva. O tamanho do estoque de créditos não pode ser confundido com dinheiro disponível para financiar a administração.
Reforma na saída
O presidente da Câmara, Hugo Motta, quer votar ainda neste ano a mudança para o sistema distrital misto. O entendimento do Centrão, porém, não basta: a articulação precisa ampliar apoios para alcançar os 308 votos. A bancada goiana terá de se posicionar sobre uma alteração nas regras pelas quais seus integrantes acabaram de disputar a eleição.
Maioria a negociar
A reeleição de Lula antecipou as negociações sobre o comando do Congresso. O presidente aposta na interlocução com Hugo Motta e Davi Alcolumbre para construir governabilidade na próxima legislatura. Para os parlamentares goianos, a escolha das Mesas será uma primeira demonstração de alinhamento: o voto nesses cargos nem sempre reproduz a divisão entre governo e oposição.














