A disputa pela Prefeitura de Goiânia em 2028 já começa a ganhar contornos após as eleições de 2026. O cenário desenhado é de uma corrida fragmentada, com três campos políticos em evidência: o do prefeito Sandro Mabel (União Brasil), que deve buscar a reeleição; um candidato do PL; e uma candidatura de esquerda, ainda sem definição de liderança. A avaliação da próxima eleição, porém, deverá passar menos pela polarização ideológica e mais pelo desempenho da administração municipal.
Na análise da especialista em política Maria Eduarda Siqueira Silva, a vitória expressiva de Daniel Vilela (MDB) no primeiro turno fortalece o grupo governista e beneficia Mabel, que apoiou o governador eleito. O resultado também abre espaço para novas negociações entre as forças que integram a base estadual. A eleição de Gustavo Gayer (PL) para o Senado, por sua vez, amplia o peso político do deputado federal, mas não representa necessariamente o fortalecimento de todo o partido.
A disputa interna no PL é um dos fatores que podem influenciar a configuração da eleição municipal. Embora Gayer e o senador Wilder Morais (PL) pertençam à mesma legenda, estão em grupos políticos distintos. A derrota de Wilder para o governo estadual, especialmente pelo tamanho do resultado, enfraquece sua posição e amplia as incertezas sobre o rumo do partido em Goiás.
Outro nome que sai fragilizado é o do ex-governador Marconi Perillo (PSDB). Apontado no início da pré-campanha como principal adversário de Daniel Vilela, ele terminou a eleição para o governo em quarto lugar, atrás até mesmo do candidato do PT, Luís César Bueno. O desempenho pode dificultar a construção de alianças do PSDB para 2028, embora uma aproximação com partidos de esquerda não esteja totalmente descartada.
Gestão municipal
Apesar do peso das articulações partidárias, a avaliação da gestão de Sandro Mabel tende a ser determinante para a eleição. A especialista avalia que problemas cotidianos, como saúde, mobilidade urbana e limpeza pública, incluindo a Taxa do Lixo, devem ser os principais temas no debate eleitoral. Questões ideológicas podem aparecer para os goianienses, mas tendem a ficar em segundo plano para parte do eleitorado.
Mabel parte de uma posição favorável por já ocupar a Prefeitura e ter a possibilidade de disputar a reeleição. Essa vantagem, no entanto, dependerá da percepção dos moradores sobre os resultados da administração. Segundo a análise, pesquisas recentes indicam melhora na avaliação do prefeito, que chegou a figurar entre os gestores de capitais com pior desempenho. Se a tendência continuar, ele poderá chegar a 2028 em situação mais confortável.
Polarização
A expectativa é de que a disputa não fique restrita a dois candidatos. A presença de nomes competitivos do PL e da esquerda pode levar a uma eleição com três candidaturas relevantes. No campo governista, o presidente estadual do União Brasil, Bruno Peixoto, e Romário Policarpo (Cidadania) já demonstraram interesse em concorrer à Prefeitura, mas a avaliação é de que ambos devem priorizar o apoio à tentativa de reeleição de Mabel. A sucessão municipal de 2032 aparece como horizonte mais provável para os dois.
Bruno Peixoto foi eleito deputado federal com mais de 207 mil votos, o que representa 5,76% da votação válida. Bruno, que também é presidente da Assembleia Legislativa de Goiás (Alego), teria condições de usar o próximo mandato para ampliar sua rede de alianças e preparar uma candidatura futura. Ainda assim, deverá participar das negociações políticas de 2028 e pode influenciar indiretamente a disputa.
Partido Liberal (PL)
A tendência é que o PL tenha candidato próprio em Goiânia, considerando o desempenho recente e a força da legenda no estado e na capital. A decisão, porém, também dependerá da avaliação de Mabel e da disputa interna sobre a aproximação com o grupo de Daniel Vilela (MDB). Se o partido decidir integrar a base governista, cresce a possibilidade de apoiar o prefeito. Caso permaneça na oposição, a candidatura própria ganha força.
Fred Rodrigues (PL) aparece entre os nomes possíveis. A eleição para deputado federal pôde ampliar sua capacidade de articulação em relação a 2024, quando disputou a Prefeitura sem mandato. Major Victor Hugo e Ana Paula Rezende, ambos também do PL, também são citados como alternativas dentro do partido. O desafio de Fred Rodrigues será ampliar o alcance eleitoral para além da base bolsonarista.
A influência da extrema-direita nacional, representada pelo senador Flávio Bolsonaro, deve pesar principalmente sobre a rejeição a candidaturas de esquerda, mas não garante, por si só, o sucesso dos nomes conservadores. A eleição estadual oferece um exemplo das diferenças entre alinhamento ideológico e resultado eleitoral: apesar da proximidade entre Daniel Vilela e o campo bolsonarista, Wilder Morais teve desempenho inferior ao esperado. Para a especialista, o caiadismo pode ter influência mais direta na formação das alianças locais.
Esquerda disputa liderança e estratégia
No campo progressista, a escolha da candidatura deve envolver uma disputa entre a vereadora Aava Santiago (PSB) e a deputada federal reeleita Adriana Accorsi (PT). Aava não conquistou uma vaga na Câmara dos Deputados, apesar de ter conseguido mais de 120 mil votos e ser a sétima mais votada, mas mantém espaço para crescer politicamente. Seu perfil jovem, a presença nas redes sociais e a proximidade com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) são apontados como trunfos.
Adriana, por sua vez, já disputou a Prefeitura em 2016, 2020 e 2024 e conta com experiência eleitoral e estrutura partidária. As derrotas em eleições municipais anteriores, no entanto, podem pesar na escolha de uma nova candidatura. A decisão dependerá da capacidade de cada uma de construir alianças e de convencer os partidos de que há condições de formar uma chapa competitiva.
A articulação entre PT, PSB, PDT, PCdoB e PSDB também enfrenta obstáculos. A tentativa de aproximação entre a esquerda e Marconi Perillo durante a disputa estadual não avançou por receio do tucano em relação à rejeição ao campo progressista. O resultado eleitoral pode pressionar o PSDB a rever sua estratégia, mas a tendência inicial é que o partido busque alternativas de centro-direita.
Mesmo com a possibilidade de alianças, a rejeição ao PT em Goiânia deve ser um dos principais desafios de Adriana e de outras candidaturas de esquerda. A especialista ressalta, contudo, que liderar pesquisas antes da campanha não assegura vitória: o desempenho dos candidatos pode mudar ao longo do período eleitoral.
Com dois anos até a disputa municipal, o quadro ainda está sujeito a mudanças. A definição das alianças, a avaliação da gestão de Mabel e a capacidade de cada grupo de transformar força partidária em apoio eleitoral devem determinar se Goiânia terá uma disputa concentrada em três candidaturas ou um cenário ainda mais fragmentado.
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