Uma servidora efetiva da Prefeitura de Goiânia, com mais de uma década de atuação no Executivo municipal, é alvo da Operação Ritual do Desvio, deflagrada pela Polícia Civil de Goiás na manhã desta terça-feira (5). A investigação aponta que ela teria desviado aproximadamente R$ 425 mil dos cofres públicos por meio de lançamentos fraudulentos no sistema financeiro da administração.
Segundo a apuração, a funcionária, que atuava na Gerência de Execução Financeira, ligada ao Tesouro Municipal, autorizava pagamentos irregulares em nome de pessoas físicas e jurídicas. Entre os destinatários estão uma prestadora de serviços espirituais, uma associação esportiva, uma farmácia registrada em nome de sua cunhada e até faturas do próprio cartão de crédito pessoal.
Helenice Evangelista é servidora efetiva e assumiu a chefia da Divisão do Tesouro da Secretaria da Fazenda em fevereiro de 2013, na gestão do ex-prefeito Paulo Garcia (PT). Depois, foi para a gerência onde se manteve nas administrações de Iris Rezende (MDB), Rogério Cruz (SD) e os primeiros meses da gestão de Sandro Mabel (UB).
14 transações irregulares
De acordo com a Controladoria-Geral do Município (CGM), as primeiras inconsistências foram identificadas em auditoria interna. Em 2025, foram detectadas ao menos 14 transações irregulares, que deram início ao processo de responsabilização. A Polícia Civil deu sequência às investigações, com cumprimento de mandados em Goiânia, Aparecida de Goiânia, Bela Vista de Goiás e Maceió.
A Justiça determinou a suspensão imediata da servidora de suas funções, o bloqueio de valores em contas dos investigados e outras medidas cautelares. O prefeito Sandro Mabel declarou à jornalista Fabiana Pulcineli que o prejuízo total estimado pode chegar a R$ 11 milhões.
A servidora investigada mantém relações próximas com vereadores da Câmara Municipal de Goiânia e é reconhecida como liderança entre os servidores administrativos. Nas últimas eleições, ela fez campanha para o presidente da Câmara, Romário Policarpo (PRD), e também faz parte da administração do Sindigoiânia.
Funcionária Padrão
Em 2022, durante a gestão do ex-prefeito Rogério Cruz (SD), ela foi agraciada com o Prêmio Funcionário Padrão e participou de agendas institucionais e políticas. Manteve interlocução com vereadores da Câmara Municipal e com a direção do Sindicato dos Servidores Municipais (Sindigoiânia), além de ter atuado como presidente da Associação dos Servidores Administrativos da Prefeitura.
Em nota, o ex-prefeito Rogério Cruz afirmou que não tinha conhecimento dos fatos investigados e que qualquer apuração deve ser conduzida pelas autoridades competentes. Disse estar à disposição para fornecer informações sobre os atos de sua administração.
Sobre o cargo ocupado pela investigada, Rogério Cruz declarou que as funções desempenhadas estavam de acordo com as atribuições regimentais dos cargos e eram supervisionadas pelas chefias imediatas e secretarias correspondentes. Segundo ele, como liderança da categoria de servidores efetivos, a funcionária participou de diversas agendas institucionais.
Rogério também comentou a participação da servidora na premiação do Funcionário Padrão, recebida durante sua gestão. Segundo a nota, a escolha foi feita com base nos critérios técnicos definidos pela Lei Municipal nº 8.403/2006, por meio de avaliação interna, comissão julgadora e homologação pelo chefe do Executivo, sendo a entrega do certificado um ato institucional previsto em lei.
Já a Prefeitura de Goiânia, em nota assinada pela Secretaria Municipal da Fazenda (Sefaz) informou que, ao identificar as irregularidades, afastou a servidora e encaminhou os indícios à CGM. A Controladoria e a Procuradoria-Geral do Município, por sua vez, repassaram o material à Polícia Civil, que deu andamento à investigação.
A administração afirmou manter compromisso com a transparência e com o interesse público, e segue colaborando com as autoridades responsáveis pelo caso.
Conselho contábil acompanha investigação
O Conselho Regional de Contabilidade de Goiás (CRCGO) informou que tomou conhecimento da operação pela imprensa e que está acompanhando o caso. A entidade confirmou que a servidora investigada consta como suplente da Câmara de Fiscalização, Ética e Disciplina, mas esclareceu que ela não exercia função contábil no município.
Conforme o CRC, sua atuação na Prefeitura de Goiânia era restrita à área financeira, sem vínculo técnico com a contabilidade pública.
A Polícia Civil segue investigando o caso para identificar outros possíveis envolvidos e rastrear o destino dos valores desviados.















