No artigo “Honestos, para nosso desconforto”, o professor e pesquisador Cristian de Paula reflete, a partir de Nelson Rodrigues, sobre a figura do “canalha honesto” e o impacto do falso moralismo na política brasileira. Com uma análise que mistura literatura, história e atualidade, o autor provoca o leitor a pensar sobre o desconforto que surge quando a sinceridade dos bastidores políticos é exposta de forma tão direta, sem o verniz da hipocrisia.
Artigo
Nelson Rodrigues costumava dizer em suas crônicas e entrevistas que um dia sentiríamos
falta da figura do “canalha honesto”, o que virou uma de suas expressões mais conhecidas. O
cronista, ao perceber a emergência de um falso moralismo que associa determinadas posições
ideológicas à uma espécie de virtude imediata, utilizava essa expressão para se contrapor aos
indivíduos que têm a pose, a aparência e o discurso de gente do bem. Gente correta, decente,
que defende a natureza, que ama os bichinhos, que luta contra o machismo e tudo o mais, mas
que na verdade é hipócrita, não acredita em nada daquilo que defende socialmente, e age,
quando ninguém está vendo, de forma contrária. O canalha honesto é o canalha assumido:
não esconde suas falhas, é transparente nos seus vícios, perversidades e desvios.
Pois bem. Com o perdão da digressão, essa semana alguns atores dessa grande peça que
chamamos política mostraram, de forma pública, o quanto negociações e favores caminham
de mãos dadas com promessas e pressões veladas. Amigos, aliados e parentes aparecem nos
bastidores, formando uma rede de interesses que sabemos que existe, mas que eles precisam
fingir que não.… deu pra entender.
Que este problema do lixo, que se arrasta há anos, é um inferno para os cidadãos goianienses,
não é nenhuma novidade. E, sim, algumas soluções foram implementadas, mas ainda estamos
longe do ideal. Vemos isso ao abrir a porta de nossas casas para encarar o mundo todos os
dias. O debate que gostaria de propor, no entanto, é outro. O que desponta como mais curioso
desta história é que, ao fazer essa espécie de denúncia, esses atores explicitam, desvendam,
pra todo mundo ver, essas negociações que não deveriam ocorrer. Ou que precisam parecer
não ocorrer. O que quero dizer é que, ok, todo mundo já sabia disso. A política opera mesmo
desse jeito, em qualquer lugar. Mas precisa jogar isso na nossa cara?
Enquanto esse jogo acontece, ressentimentos e reações se desenrolam e a honestidade ao
tornar tudo tão escancarado causa desconforto. Isto porque o debate público fica mais
desconcertante quando o teatro é tão explícito, e ao mesmo tempo fica impossível não
reconhecer certa sinceridade. A inconveniência perde o charme, e se torna um elefante na
sala.
Nelson Rodrigues, a gente não estava esperando tanta honestidade (risos). A gente gosta
mesmo é de acusar certos comportamentos, enquanto os outros, de qualquer lugar, defendem
seus interesses. Isso é coisa pra ser feita nos bastidores, no off, oras… assim, de forma tão
escancarada, surge até um constrangimento para criticar.
E você? Matou a saudade da politicagem honesta?
Cristian de Paula é professor de História, mestre e doutorando em História do Brasil pela UFG.














