O eleitor goianiense, ao escolher Sandro Mabel como prefeito, não foi enganado por uma figura desconhecida. Pelo contrário: sabia exatamente quem estava elegendo. Mabel tem trajetória pública longa, marcada por experiências tanto no setor político quanto empresarial. O que o eleitor buscava era um perfil técnico com musculatura política — um “gerentão” que pudesse devolver à Prefeitura de Goiânia o comando que se perdeu nos últimos quatro anos.
Durante o governo do ex-prefeito Rogério Cruz, houve um evidente desarranjo institucional. A relação entre o Executivo e a Câmara Municipal foi marcada por fragilidade e, muitas vezes, subserviência. Alguns vereadores ultrapassaram limites funcionais, ocupando espaços estratégicos da administração pública sem a devida legitimidade técnica, interferindo diretamente no orçamento municipal e esvaziando o papel do prefeito. A ausência de centralidade no comando da cidade custou caro: Rogério Cruz saiu das urnas em 2024 com votação pífia e sem qualquer chance real de reeleição. Foi uma lição clara do eleitor: entregar a cidade a vereadores sem um projeto consolidado é o caminho mais curto para o fracasso.
Mabel, ao assumir a Prefeitura, herdou esse desequilíbrio. E, neste ponto, acertou ao tentar restabelecer a autoridade do Executivo e limitar as interferências políticas indevidas. Essa é, de fato, a receita certa para curar uma doença institucional grave. No entanto, o problema está na dosagem do remédio. Ao agir com truculência e personalizar os embates políticos, o prefeito compromete o diálogo, enfraquece sua base e prejudica o andamento da gestão.
A consequência tem sido imediata: projetos de interesse do Executivo empacaram na Câmara, comissões de inquérito surgiram, e os discursos contrários ao prefeito se multiplicaram no plenário. A crise recente com o vereador Lucas Vergílio ilustra bem essa tensão. Ao chamá-lo de “malandrinho”, Mabel abandonou a liturgia do cargo e optou por um ataque pessoal. Vergílio, por sua vez, respondeu no mesmo tom, num ciclo improdutivo de ofensas que em nada contribui para a cidade. A situação chegou a tal ponto que a Câmara Municipal aprovou uma moção de repúdio contra o prefeito — gesto simbólico, mas politicamente significativo, que evidencia o desgaste na relação entre os poderes.
É lamentável ver esse tipo de desgaste entre figuras públicas que têm muito a oferecer. Conheço Lucas Vergílio desde os tempos da militância jovem. É um vereador inteligente, preparado e com potencial real para contribuir com a cidade. É justamente por isso que, mais do que nunca, Goiânia precisa de lideranças pacificadoras — pessoas que saibam mediar conflitos, construir pontes e recolocar o debate nos trilhos certos.
O cidadão comum não tem interesse em guerras de vaidades. O que se espera do prefeito e dos vereadores é responsabilidade institucional. Mabel tem legitimidade para governar segundo seu plano e convicções, assim como a Câmara tem a prerrogativa de fiscalizar e legislar. Mas essas funções precisam se dar dentro de um ambiente de respeito mútuo, e não de ataques pessoais.
Nossa democracia local, como a nacional, corre riscos quando os embates políticos deixam de ser ideológicos ou programáticos e passam a ser movidos por mágoas, disputas de ego ou alianças oportunistas. Goiânia exige mais. Exige foco em temas como mobilidade urbana, saúde pública, educação básica, urbanismo e desenvolvimento sustentável. Exige, acima de tudo, maturidade política.
Mabel tem ainda tempo e capital político para corrigir a rota. E a Câmara tem quadros qualificados que podem contribuir com o processo de reconstrução institucional. Mas isso só será possível se todos os lados entenderem que a política não pode continuar sendo feita com ofensas e ressentimentos. É preciso voltar a debater ideias, projetos e planejamento. O futuro de Goiânia depende disso.
Paço não detalha compromissos de Sandro Mabel em agenda oficial














