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Goiás abre 10 mil vagas em colégios militares

MEC e ONU pedem fim do modelo e apontam riscos à modalidade, enquanto estudos destacam melhorias em desempenho e disciplina


Dhayane Marques Por Dhayane Marques em 05/10/2025 - 09:50

Goiás abre 10 mil vagas em colégios militares
São 82 colégios militares que atendem mais de 500 mil alunos em Goiás. (Foto: Governo de Goiás)

De 7 a 31 de outubro estarão abertas as inscrições para estudantes que desejarem ingressar em um dos 82 colégios militares de Goiás. O edital divulgado prevê quase 10 mil vagas para o próximo ano letivo, além de um cadastro de reserva com 790 nomes. A procura costuma ser alta e o processo de seleção será realizado de forma digital, com sorteios transmitidos ao vivo. Desde 2024, os alunos matriculados recebem ainda uma bolsa uniforme no valor de R$ 970.

Com mais de 500 mil alunos matriculados em 82 unidades espalhadas por 61 municípios, os colégios militares de Goiás se consolidam como uma alternativa significativa à rede pública tradicional, atraindo atenção de famílias, gestores e especialistas. O governo estadual utiliza esses dados para reforçar a narrativa de eficiência e qualidade do modelo, mostrando que, além de disciplinar, a estrutura tem capacidade de atender a grande escala e influenciar positivamente indicadores educacionais em todo o estado.

O acesso aos CEPMGs é feito por sorteio público, regulamentado por edital do comandante-geral da PMGO. Inscrições acontecem entre setembro e outubro, e o sorteio é transmitido ao vivo no canal do Comando de Ensino no YouTube. As matrículas seguem cronograma presencial, com apresentação de documentação e histórico escolar. Esse processo reforça o caráter seletivo das unidades, ainda que seja tecnicamente “aberto”, refletindo a tensão entre acesso universal e manutenção de padrão elevado de disciplina e desempenho.

A expansão confirma Goiás como o estado com maior rede de escolas cívico-militares do país, modelo que ganhou corpo durante o governo Jair Bolsonaro, foi encerrado pelo governo Lula em 2023 e segue como tema de disputa política, judicial e pedagógica. O movimento de militarização escolar divide especialistas: enquanto alguns apontam ganhos em disciplina e desempenho, outros denunciam autoritarismo, exclusão de estudantes e desvio de foco das políticas públicas prioritárias.

Projetos e inovação

Os CEPMGs não se limitam à disciplina militar. Em 2023, Goiás lançou o Projeto de Robótica Educacional nos colégios, com investimento de R$ 10 milhões, capacitação docente e kits tecnológicos para alunos do Ensino Fundamental II. A meta é expandir para todas as séries até 2026, consolidando a ideia de que a escola militar pode, ao mesmo tempo, formar cidadãos e promover habilidades técnicas.

O que dizem os estudos

Uma pesquisa publicada em 2021 pelo pós-doutor Jevuks Matheus de Araújo, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), avaliou cerca de 66 mil alunos de 60 escolas goianas entre 2007 e 2020. Os resultados apontam queda de 10% na reprovação, avanços de 15 pontos em matemática e de 11,6 em português, além de maior segurança no ambiente escolar. Para o pesquisador, há “evidências robustas” de que a militarização em Goiás teve impacto positivo no desempenho.

Outros estados, como Paraná e Roraima, também divulgam índices favoráveis, relacionando o modelo à redução da violência. Entretanto, especialistas em educação lembram que essas escolas recebem recursos extras e selecionam parte de seu público, o que pode distorcer os resultados. “Não é a militarização em si, mas o conjunto de condições que fazem diferença”, afirma Miriam Fábia, professora da Universidade Federal de Goiás (UFG) e integrante da Rede Nacional de Pesquisa sobre Militarização da Educação.

O contraponto do MEC e do Todos Pela Educação

No plano federal, a avaliação é menos entusiasmada. Em 2023, o Ministério da Educação revogou o Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares (Pecim) e argumentou que o modelo não encontra respaldo na Constituição nem na Lei de Diretrizes e Bases da Educação. O MEC defende que a escola pública deve se manter como espaço plural e democrático, “livre de intervenções que não estejam alinhadas com os valores republicanos e educacionais consagrados pela Constituição”.

O Todos Pela Educação também critica a iniciativa. Para a entidade, o modelo cívico-militar “foi pedagógica e juridicamente equivocado”, desviando recursos de prioridades urgentes como a melhoria do Novo Ensino Médio, a ampliação do tempo integral e o combate à evasão escolar. “A educação pública precisa enfrentar desigualdades históricas, não importar um regime disciplinar que exclui parte dos estudantes”, declarou a organização em nota.

Disputa política e judicial

Em São Paulo, a tentativa do governador Tarcísio de Freitas de criar 100 novas unidades enfrenta batalhas judiciais e resistência de entidades estudantis e sindicais. O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal, onde ações de inconstitucionalidade questionam a presença de policiais militares na gestão escolar. A Organização das Nações Unidas (ONU) também recomendou, em 2024, a proibição da militarização de escolas públicas brasileiras, argumentando que a prática fere direitos da criança e do adolescente.

Já em Goiás, o modelo não apenas foi consolidado como ganhou novas vagas. O estado, governado por Ronaldo Caiado (União Brasil), considera as escolas cívico-militares um cartão de visitas de sua política educacional.

Entre disciplina e exclusão

As percepções sobre os efeitos do sistema seguem divididas. Defensores argumentam que a presença militar traz disciplina, segurança e melhores resultados acadêmicos. Críticos alertam para a violação de direitos e a imposição de um modelo autoritário. Segundo a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), “essas escolas retiram dos alunos liberdade de expressão e enfraquecem o pensamento crítico”.

Pesquisadores também destacam riscos de exclusão de jovens periféricos, negros, LGBTQ+ e neurodivergentes, menos tolerados às regras rígidas de conduta. Há ainda questionamentos sobre desigualdade salarial: em alguns estados, militares da reserva recebem mais que professores para atuar em funções escolares, apesar de não terem formação pedagógica.

Debate em aberto

O avanço do modelo militarizado em Goiás e em outros estados mostra que, apesar da decisão federal de encerrar o programa, o debate sobre o papel das Forças Armadas e das polícias militares na educação básica está longe do fim. Para uns, trata-se de uma solução eficiente contra a violência e o fracasso escolar. Para outros, é um retrocesso que ameaça a essência democrática da escola pública.

Dhayane Marques

Dhayane Marques é jornalista formada pela PUC-GO. Atualmente é Diretora de Programas da TV Pai Eterno e repórter no jornal Tribuna do Planalto e Tribuna de Anápolis, nas editorias de cidades, educação, economia, agro, diversão e arte.

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