Na última semana, um gesto simbólico e politicamente relevante chamou atenção em Brasília: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu no Palácio do Planalto o bispo Samuel Ferreira, líder da Assembleia de Deus de Madureira. O encontro foi marcado por homenagens da igreja ao presidente e bênçãos do bispo — sinais evidentes de uma reaproximação entre Lula e uma das principais lideranças evangélicas do país.
Samuel Ferreira comanda uma das maiores igrejas pentecostais do Brasil, com milhões de fiéis espalhados em todo o território nacional. A Assembleia de Deus de Madureira, com sua presença capilar e sua influência nas periferias urbanas e nos rincões do país, é um polo de formação moral, espiritual e, também, de opinião política. A postura do bispo Ferreira no encontro com Lula foi digna de destaque: conciliadora, institucional e, acima de tudo, cristã — abrindo espaço para o diálogo em um cenário que há anos tem sido dominado pela polarização e pelo discurso de ódio.
Esse gesto contrasta fortemente com a atuação de outra liderança religiosa, o pastor Silas Malafaia. Há tempos, Malafaia parece ter abandonado a essência do evangelho de Cristo para se dedicar a uma cruzada pessoal e política a serviço do bolsonarismo. Sua retórica beligerante e autoritária tem contribuído para a confusão entre fé e fanatismo, entre religião e projeto de poder. Malafaia precisa urgentemente de uma autorreflexão: perdeu-se no caminho e, se ainda tem compromisso com o evangelho, deveria buscar se reconectar com os ensinamentos do Cristo que pregava o amor ao próximo, a humildade e a paz.
É inegável o papel estratégico do segmento evangélico na vida social, cultural e política do Brasil. As grandes igrejas mobilizam multidões, operam redes próprias de comunicação de massa, e têm presença consolidada no Congresso Nacional. Mas é importante lembrar também das milhares de pequenas igrejas locais, espalhadas por bairros e comunidades, que realizam ações sociais fundamentais — apoio a dependentes químicos, amparo a famílias em situação de vulnerabilidade, acolhimento espiritual e psicológico. Essa base silenciosa e trabalhadora representa o coração do evangelismo no Brasil.
Como toda organização humana, as igrejas — de todas as religiões — têm entre seus quadros bons e maus líderes, verdadeiros pregadores e meros mercadores da fé. É necessário distinguir os que usam a fé para fortalecer vidas dos que a usam para enriquecer e manipular. Ainda assim, não se pode permitir que alguns maus exemplos apaguem o valor e a contribuição de milhares de homens e mulheres de fé que atuam, todos os dias, para transformar realidades.
Nos últimos anos, a extrema direita investiu pesado em capturar o imaginário religioso, confundindo símbolos sagrados com slogans políticos. Malafaia tornou-se um dos principais rostos dessa instrumentalização perversa, que misturou púlpitos com palanques e promoveu uma narrativa de cruzada contra a democracia. Porém, é importante ressaltar: a maioria dos evangélicos não se identifica com esse radicalismo. A aproximação de lideranças como Samuel Ferreira com Lula sinaliza que há espaço para a reconstrução de pontes — e que essa maioria silenciosa começa a se movimentar por um caminho mais equilibrado.
Por outro lado, setores da esquerda também erraram. No afã de reagir aos ataques de líderes como Malafaia, muitos militantes e influenciadores de esquerda passaram a demonizar o segmento evangélico como um todo — generalização que é injusta, perigosa e contraproducente. É preciso que a esquerda reconheça a importância das igrejas evangélicas, seu papel comunitário e espiritual. A fé evangélica está enraizada na cultura popular brasileira e deve ser respeitada como tal.
Cristo não pregou o ódio ou a divisão. Ele falou de amor, compaixão, justiça e perdão. A esquerda e os evangélicos precisam voltar a se olhar como irmãos em Cristo — não como inimigos ideológicos. A ideia de que evangélicos e esquerda são opostos irreconciliáveis é uma construção artificial, alimentada por estratégias eleitorais e interesses de poder. Na realidade, muitos evangélicos se identificam profundamente com pautas progressistas: justiça social, cuidado com os pobres, defesa dos vulneráveis — valores também centrais na mensagem cristã.
Se olharmos com honestidade para os ensinamentos de Jesus, veremos que há muito mais sintonia entre o evangelho e a agenda social da esquerda do que com o liberalismo econômico ou o autoritarismo de extrema direita. É hora de abandonar os estereótipos e construir um novo diálogo.
Que a visita do bispo Samuel Ferreira a Lula seja apenas o primeiro passo de um caminho de reconciliação — onde fé e política não sejam usadas como armas, mas como pontes de transformação social. O Brasil precisa disso. E Cristo aprovaria.














