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A chacina do Rio e o colapso moral do Estado brasileiro

O que deveria ser uma ação de inteligência e contenção ao crime organizado transformou-se em um massacre institucional


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 30/10/2025 - 09:45

Operação Contenção no Rio de Janeiro - Foto: Tomaz Silva /Agência Brasil
Ação policial transformou-se em um massacre institucional (foto: Agência Brasil)

A operação policial que deixou 121 mortos no Estado do Rio de Janeiro entra para a história recente do país como uma das maiores tragédias humanitárias promovidas pelo próprio Estado. O que deveria ser uma ação de inteligência e contenção ao crime organizado transformou-se em um massacre institucional, expondo, mais uma vez, a falência moral, técnica e política do modelo de segurança pública brasileiro.

O governador Cláudio Castro, em declarações públicas, exaltou o resultado da operação como um suposto “golpe certeiro” contra o crime. No entanto, a realidade nas ruas foi diametralmente oposta à narrativa oficial. O que se viu foi o colapso de uma metrópole, com comércios fechados, transporte paralisado, serviços interrompidos e uma população em pânico. A cidade do Rio de Janeiro viveu um dia de medo e luto, não de vitória.

Mais uma vez, os corpos estendidos nas vielas e ruas das favelas eram, em sua esmagadora maioria, de jovens, pobres e pretos. Um padrão que se repete há décadas em cada “megaoperação” do Estado. E o mais cruel: nada muda. Porque o crime organizado não foi desarticulado. Ele apenas muda de rosto. Os jovens assassinados ontem serão rapidamente substituídos por outros jovens — tão vulneráveis quanto, tão esquecidos quanto — enquanto os verdadeiros chefes do crime, os que movimentam o dinheiro sujo nos gabinetes políticos e nas engrenagens do mercado financeiro, seguem intocados, protegidos por blindagens institucionais e conivências silenciosas.

A história das chacinas no Brasil revela uma constante: matar nunca resolveu a crise de segurança pública. Pelo contrário, aprofunda a desconfiança da população, perpetua o ciclo da violência e alimenta a guerra urbana que já consome o país há décadas. O Estado brasileiro insiste em reagir com força bruta onde deveria agir com inteligência, tecnologia e presença social.

O episódio ganhou contornos ainda mais graves quando governadores de direita de outros estados, em um gesto de populismo beligerante, anunciaram o envio de suas polícias militares para “apoiar” as ações no Rio. Polícias que não conhecem o território, a cultura, nem as dinâmicas locais, apenas reforçando o caldo de sangue e vingança que toma conta das favelas. É o espetáculo da barbárie travestido de política de segurança.

As imagens dos corpos espalhados pelo chão, as mães desesperadas e os relatos de execuções sumárias correram o mundo. O que se viu no Rio de Janeiro não é uma “operação de sucesso”, mas uma tragédia humanitária, que deve figurar nos anais das violações de direitos humanos e na memória coletiva como um marco da falência do Estado brasileiro.

Nas comunidades e favelas, o crime prosperou e se estruturou não por acaso, mas pela ausência histórica do Estado. Onde nunca houve escola, saúde, lazer, emprego e dignidade, o tráfico e as milícias ocuparam o vazio com suas próprias “leis” e formas de poder. O que o Estado faz agora é retornar, não com cuidado, mas com fuzis — reforçando o sentimento de abandono e revolta.

O risco é que esse episódio gere ondas de ódio e revanche que incendiem ainda mais a guerra urbana brasileira. De um lado, policiais que perdem colegas e juram vingança; do outro, comunidades inteiras que veem o Estado como inimigo. Um país que normaliza a morte como ferramenta política está fadado à autodestruição.

O que se impõe, urgentemente, é a construção de um pacto nacional pela paz e pela segurança pública. É preciso reunir governos, instituições, universidades, forças de segurança, sociedade civil e entidades de direitos humanos para formular uma estratégia de Estado, e não de governo, capaz de combinar inteligência, tecnologia e inclusão social.

As comunidades precisam ser ocupadas por políticas públicas, não por balas. A paz não será construída com execuções, mas com educação, oportunidades e respeito. A verdadeira vitória contra o crime não se dará nas ruas ensanguentadas, e sim na reconstrução da confiança entre o povo e as instituições.

Até lá, seguiremos contabilizando corpos — e o Estado seguirá morrendo, junto com cada um deles.

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Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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