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Medida inclusiva pode deixar milhares de estudantes com deficiência sem acesso

Instituições representativas, como a Federação Nacional das APAEs, emitiram notas técnicas repudiando o decreto


Dhayane Marques Por Dhayane Marques em 02/11/2025 - 08:18

Crianças atendidas em unidade da APAE: impacto da medida extrapola a esfera educacional (Foto: Reprodução))

O Decreto nº 12.686/2025, que institui a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva, estabelece a meta de universalizar a matrícula de estudantes com deficiência em classes comuns do ensino regular. A norma, publicada na última semana, determina que todas as novas matrículas sejam feitas nesse ambiente, posicionando as escolas especializadas, como as APAEs, em um papel complementar de apoio. O decreto impacta um universo de 14,4 milhões de pessoas com deficiência identificadas no Censo de 2022, além de 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com autismo.

Especialistas apontam que o texto legal pode resultar no esvaziamento progressivo de instituições especializadas. Essas entidades, que atuam há décadas, oferecem atendimento pedagógico integrado a terapias. A rede regular de ensino, em muitas localidades, não dispõe da mesma estrutura multiprofissional para oferecer suporte contínuo a estudantes com deficiências intelectuais, múltiplas ou transtorno do espectro autista (TEA) de nível 3. A preocupação é agravada pelos dados do Censo que revelam que 63,1% das pessoas com deficiência com 25 anos ou mais não completaram o ensino fundamental, indicando históricas barreiras educacionais.

Para o pesquisador Lucelmo Lacerda, doutor em educação, o decreto contradiz a legislação vigente. Ele afirma que a medida ignora evidências científicas e pode prejudicar o desenvolvimento de crianças que necessitam de apoio intensivo. A Constituição Federal e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional preconizam o atendimento “preferencialmente” na rede regular, mas não de forma exclusiva.

Um dos pontos centrais da crítica reside na supressão do direito de escolha das famílias. A imposição de um formato único de escolarização, sem considerar as necessidades individuais do estudante, é citada como um retrocesso. Famílias de pessoas com maior comprometimento funcional manifestam preocupação com a desassistência, especialmente para os 2,4 milhões de autistas agora oficialmente contabilizados.

A capacitação de profissionais da educação regular é outro aspecto sob análise. O decreto estabelece um programa de 80 horas para professores, sem exigência de formação específica em educação especial. Especialistas questionam a suficiência dessa carga horária para preparar docentes para a complexidade do atendimento, considerando o amplo espectro de deficiências e a disparidade educacional histórica desse público.

A reação política ao decreto mobiliza o Congresso Nacional. O senador Flávio Arns apresentou o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 845/2025, que busca sustar os efeitos da norma. A argumentação sustenta que a medida impõe a inclusão obrigatória sem garantir a estrutura necessária para o Atendimento Educacional Especializado (AEE) contínuo.

Instituições representativas, como a Federação Nacional das APAEs (FENAPAES), emitiram notas técnicas repudiando o decreto. O movimento apaeano argumenta que a coexistência entre a rede regular e a especializada é fundamental para um sistema educacional verdadeiramente inclusivo. A entidade defende o modelo de pluralidade de ofertas para atender a um público tão diverso.

O impacto da medida extrapola a esfera educacional e conecta-se ao mercado de trabalho. Dados do Ministério do Trabalho mostram que, em 2023, 142.618 pessoas com deficiência foram contratadas no mercado formal. No entanto, a inserção laboral ainda é um desafio, com 545.940 mil PcDs e reabilitados empregados formalmente em 2024 – um número que, embora tenha crescido devido à fiscalização da Lei de Cotas, ainda representa uma fração dos mais de 14 milhões de pessoas com deficiência no país. A qualificação oferecida por instituições especializadas é considerada um fator crucial para ampliar esta inserção.

Dhayane Marques

Dhayane Marques é jornalista formada pela PUC-GO. Atualmente é Diretora de Programas da TV Pai Eterno e repórter no jornal Tribuna do Planalto e Tribuna de Anápolis, nas editorias de cidades, educação, economia, agro, diversão e arte.

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