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A travessia incoerente: Por que a aliança com o Bolsonarismo ameaça a biografia de Ciro Gomes

Ciro acabou isolado, sem sustentação orgânica e com sua imagem profundamente arranhada


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 04/12/2025 - 12:38

Ciro Gomes
De repente, Ciro apareceu abraçado por setores do bolsonarismo no Ceará (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

A trajetória de Ciro Gomes sempre foi marcada por competência, coragem e, sobretudo, coerência. Prefeito de Fortaleza, governador do Ceará, ministro da Fazenda e da Integração Nacional, Ciro construiu uma carreira que o colocou entre os quadros mais preparados da política brasileira. Sua eloquência, sua firmeza de caráter e sua capacidade de gestão o tornaram uma voz respeitada — até por adversários históricos.

Como ministro da Fazenda, em pleno processo de consolidação do Plano Real, teve participação decisiva na estabilização econômica do país. Anos depois, no Ministério da Integração Nacional, reforçou sua imagem de gestor eficiente e conhecedor profundo dos problemas estruturais do Brasil. Ciro era, para muitos, a síntese do político técnico: alguém capaz de unir visão estratégica, preparo e sensibilidade social.

Ao longo das últimas décadas, posicionou-se de forma firme sobre os principais acontecimentos nacionais. Foi uma das vozes mais enfáticas contra o impeachment de Dilma Rousseff e contra a prisão de Lula — ambos processos que o tempo e a Justiça já expuseram como erros graves, com fortes componentes de manipulação jurídica e cálculo político equivocado. Era evidente que, naquele momento, Ciro lia a conjuntura com precisão.

Nas eleições de 2018, porém, sua relação com o PT se deteriorou. O partido, ainda traumatizado pela queda de Dilma e preso à lógica de preservar sua hegemonia, optou por manter Lula como candidato até o fim — mesmo com a impossibilidade jurídica evidente. Ciro foi preterido, ainda que pesquisas apontassem maior viabilidade eleitoral contra Jair Bolsonaro. A mágoa dele era compreensível.

O erro veio depois: Ciro se ausentou do segundo turno. Justamente quando sua presença poderia representar um contraponto importante à ascensão da extrema direita. Sua omissão deixou marcas.

Nos anos que se seguiram, Ciro foi um dos críticos mais incansáveis do bolsonarismo. Denunciou abusos, expôs contradições, falou com clareza e agressividade política que ressoava nas ruas. Foi, de fato, uma das vozes mais contundentes contra a escalada autoritária que se construía. Nesse período, parecia que Ciro reencontrava sua melhor versão: a do político convicto, combativo e conectado ao povo.

Com Lula novamente no cenário, Ciro tentou mais uma candidatura. Em um ambiente polarizado, com o campo democrático unido em torno do ex-presidente, o pedetista acabou diminuído eleitoralmente. Repetiu a postura de 2018 ao não se posicionar no segundo turno, e dessa vez seu isolamento se aprofundou.

O PDT apoiou Lula. Camilo Santana, ex-governador do Ceará, apoiou Lula. Seu irmão, Cid Gomes, apoiou Lula. Ciro rompeu com todos. Ficou sozinho.

Retornar ao PSDB parecia um movimento natural de reacomodação política — algo coerente diante de seu novo lugar no tabuleiro. Parecia um gesto de moderação, de reconstrução. Mas essa impressão durou pouco.

De repente, Ciro apareceu abraçado por setores do bolsonarismo no Ceará. Uma aliança articulada pelo deputado e influenciador André Fernandes, sustentada por quadros que representam a ala mais radical do bolsonarismo — justamente aquela que Ciro denunciou por anos.

Foi um choque. Uma incoerência gritante. Um deslocamento político difícil de explicar e quase impossível de justificar.

O desconforto ficou ainda maior quando Michele Bolsonaro, em ato público no Ceará, desautorizou a aliança. O recado foi claro: nem o próprio bolsonarismo via sentido naquela composição improvisada. A cena foi constrangedora, expôs fragilidades e deixou Ciro politicamente desamparado.

O balanço desse movimento é devastador. Ciro:

rompeu com seus antigos aliados;

não conquistou de fato o apoio bolsonarista;

alienou parte expressiva de seu eleitorado histórico;

e ainda se colocou em posição de desconfiança nacional.

Se a intenção era enfrentar seu antigo grupo político no Ceará, o resultado foi o oposto: Ciro acabou isolado, sem sustentação orgânica e com sua imagem profundamente arranhada.

O mais triste nisso tudo é que Ciro não é um personagem menor da política. É um homem de ideias, de projetos, de conhecimento profundo sobre o país. É alguém que sempre contribuiu para qualificar o debate público — principalmente quando se mantinha fiel à sua própria história.

A aliança com o bolsonarismo não é apenas um erro eleitoral: é um erro moral, biográfico e histórico. É um gesto que contradiz suas lutas, seu discurso e sua própria identidade política.

Ainda assim, não é tarde para corrigir o rumo.

Ciro tem história, inteligência e coragem suficientes para reconhecer equívocos e reconstruir-se. Pode retomar seu caminho com dignidade — mas apenas se romper de vez com essa aventura incoerente que ameaça destruir aquilo que ele levou décadas para construir.

Ciro Gomes é, acima de tudo, um homem bom.

E justamente por isso, merece reencontrar a coerência que sempre foi sua marca.

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Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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