A vereadora Kátia Maria (PT) analisa decisões recentes da Prefeitura, como o possível fechamento de até 15 unidades de educação infantil e EJA, o modelo de terceirização adotado pelo município e as controvérsias sobre créditos adicionais e remanejamento orçamentário. Na entrevista, ela critica a falta de transparência da gestão, detalha ações judiciais, comenta o pedido de empréstimo de R$ 132 milhões ao BNDES e aponta riscos para a capacidade de fiscalização do Legislativo. Kátia também discute o projeto político do PT para 2026, o protagonismo de Edward Madureira, as articulações com partidos aliados e o papel que José Eliton pode desempenhar. A vereadora ainda avalia os resultados da COP 30, defende prioridade ao Cerrado nas políticas climáticas e apresenta soluções para os desafios ambientais de Goiânia, destacando o impacto das chuvas, da seca e do manejo inadequado dos recursos naturais. A seguir, a entrevista completa.
Andréia Bahia e Lucas de Godoi
TRIBUNA DO PLANALTO
A senhora e outros vereadores têm questionado o fechamento de unidades de educação. A senhora mencionou que o número pode chegar a 15, do ensino infantil até as unidades EJA. A senhora ingressou com uma ação judicial para impedir o fechamento de pelo menos seis CMEIS. Como que a senhora avalia o que tem sido chamado de terceirização da educação em Goiânia?
KATIA MARIA
Nós temos uma calamidade de gestão, não é calamidade financeira. Eu estou falando isso desde a transição. O prefeito que foi eleito dizendo que era um excelente gestor, a única política que tem feito é a terceirização do lixo, da saúde e chegou à educação; e é muito prejudicial. Nós na semana passada entramos com uma ação civil pública para a Secretaria de Educação explicar em juízo a real situação, porque eles sequer respondem os vereadores de ofício. Hoje o que temos é um completo desalento das mães e das trabalhadoras da educação, porque as mães não sabem se vão ter o CMEI para os seus filhos no ano que vem e as trabalhadoras não sabem se terão suas vagas para trabalhar no ano que vem, e a prefeitura com um desencontro de informação muito grande. Na mesma hora que falam que vão fechar, voltam atrás. A Educação Infantil é um direito da criança, está garantido na Constituição como base de um pilar da formação. Goiânia precisa avançar muito. As mães estão insatisfeitas e nós as levamos para fazer uma reunião com o presidente do TCM e o procurador do Ministério Público de Contas e pedimos para que eles possam ser ágeis, porque eles estão fazendo isso tudo no final do ano, exatamente para não dar tempo das mães responsáveis e os próprios trabalhadores se articularem. Há unidades como a da Vila Rica, o CMEI Emerson, que eles queriam fechar e não tinha para onde levar as pessoas. É um reordenamento que desmonta a Educação Infantil e tenho sido muito atuante para garantir que essas crianças permaneçam em sala de aula.
A senhora também questiona no Ministério Público de Contas do TCM possíveis irregularidades orçamentárias relacionadas àqueles projetos de abertura de crédito especial. São cinco rubricas que alcançam um montante de 21 mil reais, um volume relativamente baixo. O que chamou a atenção da senhora em um projeto com um valor pequeno?
É escandaloso o que a gestão do Sandro Mabel está fazendo neste apagar das luzes de 2025. Esse projeto de lei, que cria um crédito adicional de R$ 21 mil distribuído em várias rubricas, que são as funções programáticas, dizendo da preparação para as parcerias público-privadas, não fala qual é a parceria público-privada. São seis rubricas, por exemplo, da Amma. Vai fazer o quê? Vai terceirizar os parques com R$ 1 mil na conta? Não vai, isso não dá para fazer. Nós estamos questionando é um pacote de três projetos, que é o do Cosip, que garante a eles usarem esse recurso como garantia desses acordos de parceria público-privada; esse que cria o crédito adicional, que é uma janela orçamentária, uma manobra orçamentária, porque ele colocou R$ 1 mil em cada rubrica, mas não vai ficar R$ 1 mil. Depois que a Câmara aprovar, ele (Mabel) tem autorização para fazer 50% de remanejamento do orçamento, vai remanejar sem ninguém ficar sabendo. Falta transparência, faltam documentos nesses processos para que possamos ter clareza no que ele está fazendo por Goiânia. Fizemos essa denúncia junto ao Ministério Público e eu tenho certeza que vai se manifestar, porque não tem cabimento fazermos uma concessão dessas sem nenhum parâmetro para saber o que está sendo feito. Não é só com dinheiro, porque R$ 21 mil é pouco dinheiro. É o que ele vai fazer a partir da autorização que tem para criar esse tanto de rubrica com 50% do orçamento autorizado a ele remanejar. É um jogo que eles estão fazendo, criam as rubricas e depois transferem recursos sem a Câmara nem perceber. O que tira de nós a capacidade de fiscalizar. Se nós vereadores temos dificuldade, imagina a população. É por isso que estamos brigando, sendo a voz do povo para que haja transparência e o povo saiba de verdade o que está sendo feito com o dinheiro público.
A senhora critica o percentual de remanejamento orçamentário. Hoje o limite é de 50%, aprovado no ano passado. A senhora defende para o orçamento do ano que vem 20%, e a prefeitura propõe 30%. Qual é o entendimento da senhora em relação ao percentual de remanejamento para o ano que vem?
Estamos seguindo o que a Constituição permite, 20% de remanejamento. E para quem está fazendo uma gestão que diz ser “uma nova direção”, com quase um carimbo na testa, querendo dizer que tem uma excelência na gestão, um ano dá tempo para saber onde gastou e o quê. Se tem um planejamento financeiro, sabe quanto vai gastar em cada uma das secretarias e em cada um dos programas, se já sabe isso, não precisa ficar remanejando muito. Aquilo que é permitido na legislação federal é 20% e é por isso que apresentamos uma emenda para que esteja na constitucionalidade. Se a constituição libera 20%, nós aprovaremos 20%.
A senhora era vereadora no ano passado quando foi votado esse orçamento de 50% de remanejamento. Por que que isso não foi judicializado?
Votei contra e judicializamos. Tem uma ação de inconstitucionalidade nossa, não apenas do remanejamento, mas do decreto de calamidade, porque nunca existiu calamidade financeira. O que existe é uma dificuldade financeira, essa nós reconhecemos, mas não pode ser encarada como calamidade. Temos uma ação de inconstitucionalidade que gostaríamos muito que o TJ já tivesse julgado, infelizmente, é moroso o trâmite dentro do TJ, e esperamos que isso possa ser revisto, porque tenho total clareza de que não existe calamidade financeira. Espero que a Assembleia Legislativa não prorrogue a calamidade na saúde, porque o que tem não é calamidade financeira, é uma incompetência de gestão que havia na passada e continua nessa.
Em relação à contratação do novo empréstimo de R$ 132 milhões que o prefeito Sandro Mabel pleiteia junto ao BNDES para modernizar a gestão pública. Qual é a posição da senhora a respeito dessa nova contratação de crédito neste momento?
Eu votei contra, e foi um debate bastante acalorado. É um processo que falta documento, eles não colocaram aquilo que chamamos de regra de ouro, o planejamento com o cronograma físico e de metas. Faltam três documentos nesse processo. Causa-me estranheza porque o prefeito está batendo no peito e dizendo que vai fechar o ano com quase R$ 1 bilhão, já tem R$ 780 milhões de superávit. Quem tem superávit não precisa fazer empréstimos. E se for fazer empréstimo, precisa ser, no mínimo, com toda a documentação que a legislação federal exige. Essa documentação não está no processo e nós votamos contra, porque precisamos ter zelo com o processo legislativo e com o dinheiro, porque a população é quem vai pagar. É um empréstimo, uma hora a conta chega e essa gestão ou outra vai ter que arcar com as dívidas contraídas, seja com o BNDES ou qualquer outra instituição financeira.
Como estão as articulações do partido para o ano que vem? A tese de que o professor Edward Madureira vá ser o candidato do PT em Goiás ganhou força nos últimos dias. Como tem sido o diálogo internamente?
Nós estamos fazendo um diálogo primeiro, que é da composição das chapas proporcionais. Para nós, a chapa de deputados federais é prioridade e queremos fazer três parlamentares. Na eleição passada, quando eu era presidente, conseguimos dobrar, tínhamos o deputado Rubens Otoni e conseguimos eleger Rubens e Adriana Corsi. Agora queremos fazer três parlamentares, porque é a forma de contribuirmos com o presidente Lula e com a democracia brasileira. O que presenciamos nesta terça-feira (9) no Congresso Nacional, coordenado pelo presidente da Câmara Federal, Hugo Motta, nos preocupa sobremaneira. E a forma que temos de dar resposta é elegendo mais deputados progressistas e comprometidos com a pauta do Estado Democrático de Direito real. A chapa de deputados federais para nós é prioritária, a chapa de senadores, a chapa de deputados estaduais, e o PT tem esse mecanismo: primeiro montamos esse time, depois escalamos quem vai representar esse time na chapa majoritária no cargo de governador e vice-governador. O professor Edward, obviamente, tem o nome muito respeitado por nós, mas esse debate ainda não foi feito dentro do partido. Ele se colocou à disposição para fazer e tanto ele quanto o partido vão ter a responsabilidade de avaliar qual é o lugar que ele pode contribuir mais, se é sendo candidato a governador, se é a deputado federal, contribuindo com Lula em Brasília. Nós fizemos a reunião da direção nacional – sou integrante agora – no último sábado, e lá ficou muito expresso que queremos avançar nessa formação das chapas de deputados federais. O presidente Edinho Silva e a ministra Gleisi Hoffmann têm colocado isso com muita contundência. Goiás sabe fazer, tanto que no meio da crise, no momento mais grave, conseguimos dobrar a bancada. Se formos inteligentes agora conseguimos levar mais um parlamentar de Goiás para crescer essa voz de Goiás no Congresso Nacional.
A terceira cadeira estaria sendo trabalhada para o professor Edward se ele for concorrer à Câmara Federal?
Não está sendo trabalhada para ele, mas ele é uma pessoa que todo mundo sabe que tem muitas condições. Ele é o nosso primeiro suplente. Nós temos outros bons nomes que vão disputar e estar na disputa é uma forma de poder chegar. Quem está na disputa, quem chegar melhor fica com a vaga. É esse debate que vamos fazer nesse próximo período para mostrar que as pessoas que estão disputando a vaga, elas precisam colocar mais energia para dar conta de sair vitoriosas e contribuir com essa meta nacional, que é ter três deputados federais de Goiás.
Como é visto o nome de José Eliton na ala mais progressista do partido? A senhora acredita que é possível fazer uma composição com o ex-governador?
Nós fazemos essa conversa desde a eleição passada. Eu particularmente tive várias conversas com o Zé Eliton desde 2022. É um nome que foi contundente durante o processo mais acirrado com a extrema direita, que mostrou que tem lado e que o lado dele é o lado do Estado Democrático de Direito. É uma pessoa que não temos dificuldade em dialogar. Qual vai ser o campo que ele vai trabalhar? A delegada Adriana Cossi, presidente do partido, junto conosco, que somos da direção nacional, mais a federação, vamos maturar e construir o melhor caminho. O que estamos muito determinados é garantir um palanque forte para o presidente Lula aqui em 2026.
Que tamanho vai ter esse palanque para o presidente Lula?
Na política vale aquela velha máxima, não tenhamos pressa, mas também não percamos tempo. O partido está nesse momento de dialogar muito, não pode ter pressa para decidir quem é, mas também não pode perder tempo. E nós temos uma vantagem, o presidente Lula, mesmo em 2022, quando o bolsonarismo governava e foi usado todo o aparato para impedir, inclusive no Nordeste, que os eleitores chegassem à urna, aqui em Goiás, vários processos de assédio moral de prefeitos, empresários tentando, de certa forma, mudar o resultado eleitoral, o presidente Lula teve 40% dos votos no primeiro turno. Acredito que temos condições de melhorar esse desempenho, porque são muitas obras. Só essa de saneamento são R$ 97 milhões; as casas do Minha Casa Minha Vida em Aparecida são quase 800 apartamentos; aqui em Goiânia mais uma leva do Minha Casa Minha Vida; tem obra esparramada nesse estado de Goiás por todos os lados. Obras que nem Jair Bolsonaro e nem Ronaldo Caiado conseguiram levar para os municípios. É o presidente Lula que voltou para a Presidência da República, mesmo com o orçamento sequestrado pelo Congresso Nacional, e está fazendo inúmeras benfeitorias nas cidades goianas.Temos que organizar esse time e é óbvio que, em eleição, não se dispensa apoio, queremos apoio de todos, e estamos começando a organização pela federação, pelos partidos de esquerda e centro-esquerda, mas chegaremos com toda certeza no diálogo com os partidos que estão no governo federal, porque estar no governo federal também exige uma responsabilidade aqui na ponta para manter o projeto.
Como é que está o diálogo com o PSB, que em muitos momentos caminhou com o PT em Goiás e que já anunciou apoio a Daniel Vilela em 2026?
Eu acredito que estará junto conosco na chapa. Eu posso dar um exemplo de 2024. Eles começaram meio achando que não era isso, mas no final entenderam o lado e onde eles deveriam estar, e ficaram junto conosco, inclusive indicando o vice da nossa candidata a prefeita de Goiânia. Em 2022 foi assim também, eles indicaram o vice na chapa do PT. Este momento é o momento de todo mundo conversar, de todo mundo tentar construir os melhores posicionamentos, mas no momento de fechar mesmo as alianças, da convenção, eu acredito que o PSB estará junto conosco. Nós temos um bom relacionamento tanto com o deputado, mas também com o presidente do partido, e mantemos o diálogo para que, estando no governo federal, possamos aqui também replicar essa aliança, porque é o mais correto, pensando do ponto de vista do projeto nacional.
Existe alguma possibilidade de aliança com Marconi Perillo ou a senhora entende que a oposição em Goiás terá múltiplas candidaturas?
Nosso quesito primeiro é apoiar o presidente Lula. Aqueles que apoiarem o presidente Lula, temos disposição em conversar. Eu não vi nenhum aceno ainda do Marconi nesse sentido. Se tiver o aceno de que apoia o Lula, não tem problema em dialogar. Dialogar não significa fechar, mas estamos num estado democrático de direito em que o diálogo precisa ser a essência maior da política. O nosso projeto é muito claro. nossa prioridade é reeleger o presidente Lula. E todos aqueles progressistas, democratas que quiserem estar nesse projeto porque significa o fortalecimento da democracia, estamos abertos a fazer o diálogo.
A senhora é candidata a deputada estadual. Quantas cadeiras o partido pensa em fazer na Alego?
Nós temos condição de fazer cinco deputados estaduais, temos uma chapa boa. Na eleição passada faltou pouco para a gente fazer o quarto. Se a gente repetir a chapa por si só, nós já conseguimos fazer o quarto nome dentro dessa chapa de deputados, e vamos trabalhar para melhorar. Eu acredito que os parlamentares que estão lá tem condição de crescer a votação, eu cresci muito a minha votação para vereadora aqui em Goiânia, Os outros parlamentares também têm condição de avançar na sua votação e isso vai contribuir para que a gente possa disputar a quinta vaga. Nós trabalhamos com uma meta de três deputados federais e cinco deputados estaduais. Acho que é uma meta realística que se a gente fizer a tarefinha de casa bem feita, conseguimos ter êxito em 2026.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, classificou como “decepcionante” o resultado da COP 30, realizada em Belém (PA). Qual é a avaliação que a senhora faz da conferência?
Na verdade, todos gostaríamos que os documentos da COP, os encaminhamentos, fossem documentos mais ambiciosos, apontando para o fim dos combustíveis fósseis, aumentando o percentual de financiamento para a recuperação dos nossos biomas, mas também as adaptações às mudanças climáticas, principalmente nos grandes centros. Mas para isso, precisa ter um comprometimento maior dos países já desenvolvidos e os principais poluidores. Eu citaria, por exemplo, os Estados Unidos e o Japão, que estão no ranking dos poluidores e dos países que têm condição de financiar essas adaptações às mudanças climáticas. Mas é preciso reconhecer todo o esforço que foi feito. O Brasil, por exemplo, apresentou o Mapa do Caminho, que é um planejamento para que os países possam reduzir a utilização dos combustíveis fósseis até alcançar uma matriz energética 100% limpa. Quase 90% dos países concordaram, mas a COP tem um defeito no seu encaminhamento, porque não se vota proposta, só vai para o texto aquilo que é consenso. Por não ter sido consenso, acabou ficando fora do texto. Mas é um desafio que temos, e o presidente Lula disse que vai dar o exemplo e fazer o Mapa do Caminho do Brasil, mostrando que é possível ficar livre dos combustíveis fósseis. Nós tivemos um avanço significativo com a criação do Fundo de Floresta Tropicais, um fundo autossustentável que vai recuperar e preparar as cidades para as mudanças climáticas, e nosso grande desafio é colocar o Cerrado com protagonismo nesse fundo, porque a Amazônia todos os países já conhecem. É a cereja do bolo que todo mundo fala na pauta climática, mas não sabem que o Cerrado é que sustenta hidricamente a Amazônia, o Pantanal e outros biomas. Das 12 grandes bacias que o Brasil tem, oito nascem no Cerrado. Precisamos dar esse protagonismo ao Cerrado para que se possa garantir a Amazônia e os demais biomas de pé, e ela cumprindo, junto com o Cerrado, o seu papel na mudança climática que estamos vendo. Conseguimos avançar na pauta de gênero dentro do debate das mudanças climáticas, que havia sido vetada na COP 29; depois de 30 anos, conseguimos incluir a pauta afrodescendente, porque esses países e essa população são extremamente afetadas pelas mudanças climáticas, pagam com a consequência dessas ações, e precisam ter um olhar diferenciado. Estamos falando do racismo ambiental, e os textos sequer aceitam tratar o povo afrodescendente como prioridade. Foi uma COP que saiu desse bilateralismo para o multilateralismo, isso é forte demais e é um ganho tremendo. A perda é que os Estados Unidos, a China e o Japão não se comprometeram com a pauta climática como deveriam, mas os países fizeram a sua tarefa, o Mapa do Caminho pode ser executado pelos países que se comprometeram em ficar livres dos combustíveis fósseis e o Fundo de Floresta Tropicais foi criado, mas não para injetar o dinheiro todo de uma vez. O Brasil tem um ano para fazer essa sensibilização para o Mapa do Caminho e trazer mais recursos para o Fundo de Floresta para ajudar na compensação ambiental.
Existem outras possibilidades de financiamento para a preservação do Cerrado?
O Cerrado não está excluído do Fundo de Floresta, ele não está com a prioridade que eu acredito que deveria estar. Fizemos um documento pedindo ao presidente da COP, conseguimos apoio da (primeira-dama) Janja, da ministra (Meio Ambiente) Marina Silva, porque o Cerrado é uma floresta enterrada. Os biomas estão contemplados, mas na priorização, as florestas com árvores mais robustas, copas maiores, terão maiores recursos. E o Cerrado é um campo aberto. O valor dele não está na copa, está na raiz, que é o que mantém o solo e a água e faz o Cerrado ser a caixa d’água do mundo. Se a gente quiser a Amazônia e os outros biomas de pé, a caixa d’água precisa estar cheia, porque sem água, não conseguimos irrigar os demais biomas. O Cerrado está lá, mas queremos que ele seja prioridade, como é a Amazônia.
Com o programa Expedição Rio Meia Ponte, a senhora tem observado algum avanço na preservação do rio?
É um trabalho fantástico e eu me sinto muito honrada em liderar esse processo. O Rio Meia Ponte atravessa 39 cidades e é aqui em Goiânia o percurso mais poluído exatamente pelo adensamento, pelo número de habitantes que margeiam esse rio.O maior ganho que tivemos nesses dois anos e meio de projeto foi a sensibilização. Quem é de Goiânia sabe que tinha uma piada que era assim: “Ah, esse celular não presta, joga ele no Meio Ponte; a televisão está dando defeito, está na hora de jogar no Meio Ponte.” Conseguimos, de certa forma, sensibilizar as pessoas de que o Meia Ponte não é um lugar de despejo, é o rio que traz água para 40% dos domicílios do estado de Goiás; a bacia do Meia Ponte que abastece a Grande Goiânia. Ainda tem muita gente que nem sabe que é o Meia Ponte que leva a água para a torneira da sua casa. Ter essa sensibilização é um passo fundamental para avançar nos demais temas de recuperação. Conseguimos avançar de forma significativa com a ampliação da ETE Hélio Seixo de Britto, porque qualificar o tratamento do esgoto significa devolver essa água para o Meia Ponte de forma mais eficiente para ela continuar o curso dentro do rio. Essa é uma vitória grandiosa que a Saneago, junto com o governo federal, deram conta de fazer nos últimos anos, uma obra que estava parada e que, graças ao governo federal, a Saneago conseguiu botar para andar. Estamos fazendo, em diversos trechos do rio, o reflorestamento, envolvendo a comunidade e já distribuímos mais de 5 mil mudas; fizemos educação ambiental em 67 escolas, mais de 5 mil pessoas visitaram as nossas tendas ambientais; conseguimos tirar quase meia tonelada de lixo de dentro do rio. Tem um efeito prático muito grandioso, que é a consciência para que as pessoas possam nos ajudar a cuidar desse manancial, que é o que garante a nossa sobrevivência na região metropolitana, porque sem água, do mesmo jeito que não se mantém a floresta de pé, nós não vivemos. A gente pode até ficar um dia, dois dias sem energia, mas sem água ninguém suporta.
Quais são, na sua avaliação, os desafios ambientais mais urgentes para Goiânia e para o estado de Goiás?
Temos desafios gigantescos. Em Goiás, precisamos conscientizar os nossos produtores e o próprio governo, que hoje tem uma legislação bastante flexível – nós, inclusive, temos uma ação de inconstitucionalidade no STF, porque o licenciamento ambiental ficou bastante permissível com a legislação aprovada no ano passado – entendam que os recursos naturais são finitos e é preciso zelar desses recursos naturais, inclusive para que o setor produtivo possa continuar tendo êxito e é uma contribuição efetiva para a nossa economia. Eu sou favorável ao agronegócio, desde que o seja em bases sustentáveis, com um manejo que coloque os recursos naturais em primeiro lugar para que esse recurso natural possa ser uma fonte permanente de recursos na produção agrícola do nosso estado. Ninguém é contra o desenvolvimento do agronegócio, só precisa ser um desenvolvimento sustentável e isso passa por garantir as áreas de preservação, as áreas de nascente, porque sem água não vai plantar, não vai colher, não vai ganhar dinheiro. Se não mudar essa chave da percepção, que precisa ser uma agricultura sustentável, a data de validade chega e o próprio agronegócio pode pagar a fatura. Por outro lado, Goiânia enfrenta inúmeros desafios, porque a cidade tem mais de 130 pontos de alagamento que trazem consequências graves para a segurança das pessoas. Nós colocamos uma emenda parlamentar que (o prefeito Sandro) Mabel não efetivou esse ano, que foi a criação da sala de situação de vídeo monitoramento da Defesa Civil para monitorar esses lugares. Precisamos dar um tratamento para a Marginal Botafogo; o governo federal já colocou mais de R$ 250 milhões no projeto aprovado pelo PAC e precisa usar esse dinheiro de forma correta, de forma séria. Eu ainda estou analisando se esses piscinões vão ter a eficiência que precisamos, porque se tem uma coisa que as mudanças climáticas, essa crise está me mostrando, é que não se deve brigar com a água da chuva, porque ela é muito mais poderosa do que é uma infraestrutura, é muito mais poderosa do que a força humana. Precisamos ter uma cidade resiliente, uma cidade que conviva harmoniosamente com os seus fluxos de água. A gente precisava ter uma cidade esponja, com áreas permeáveis, que é o jeito mais eficiente de fazer com que a drenagem urbana faça chegar um volume menor de água nos nossos córregos e nos nossos rios.
O que que a senhora aponta de maneira prática que o município deveria atuar para resolver esses problemas?
Nós apresentamos dez projetos durante a COP – eu estava na COP, mas também muito conectada virtualmente com a nossa equipe -, dentre esses, a Cidade Esponja, que já havíamos apresentado. Hoje Goiânia tem o Fórum de Mudanças Climáticas graças a um projeto de lei de minha autoria, um lugar onde todas as partes, governo, Legislativo, Sistema S, universidades estejam sentadas numa mesa, buscando planejar a cidade para amenizar as mudanças climáticas. A Cidade Esponja é urgente porque quanto mais áreas verdes nós tivermos, mais o solo vai ser capaz de filtrar essa água e isso é uma drenagem natural, a forma mais eficiente de ajudarmos nesse sistema de drenagem urbana. Outro grande desafio é a limpeza da cidade, da coleta seletiva, do processo de educação ambiental, Um outro projeto que apresentamos é do agente jovem ambiental, porque se aliarmos a consciência das pessoas com o trabalho da coleta seletiva, isso pode ter um impacto fundamental para as adaptações às mudanças climáticas. Temos que melhorar o transporte coletivo com fonte renovável, com a substituição da nossa frota para uma fonte de energia limpa, e isso começa a ser feito gradativamente. Precisamos pensar nos resíduos sólidos – Goiânia recicla menos de 5% do material que é coletado – estruturar a coleta seletiva, fazer com que as cooperativas de catadores tenham condições de trabalho, possa separar e dar destinação correta a esse material é fundamental, assim como a população com uma mentalidade de reutilizar, de reduzir compra, para que a gente possa ter uma cidade mais sustentável. Tem funções que são do poder público, tem função que é do poder Legislativo, tem função que é da sociedade, e juntos podemos construir um território a muitas mãos e adaptado às mudanças climáticas, seja na chuva, que se vê o impacto maior, ou no tempo de seca, quando o Cerrado é o mais afetado, tem a baixa umidade, as doenças respiratórias, as doenças circulatórias afetam de cheio a nossa população, sobrecarregando o SUS e levando muitas pessoas ao óbito. Precisamos falar das mudanças climáticas em cheia, que são os pontos de alagamento, as áreas de risco, mas precisamos falar também em tempo de seca, que é quando se tem a baixa umidade do ar.














