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Justiça social não é caridade: é projeto de país

Políticas inclusivas só começaram a surgir de forma consistente em governos progressistas, como as cotas raciais nas universidades e programas de transferência de renda como o Bolsa Família


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 27/01/2026 - 14:33

chacina massacre da Penha
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que mais de 75% das vítimas de homicídio no Brasil são pessoas negras

O Brasil figura entre as maiores potências econômicas do planeta. Segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, o país está entre as dez maiores economias do mundo, com um Produto Interno Bruto (PIB) que supera US$ 2 trilhões, ocupando posição de destaque no comércio internacional, no agronegócio, na indústria extrativa e no setor de serviços. Somos líderes globais na produção de alimentos, detentores de uma das maiores reservas de biodiversidade do planeta e possuímos um mercado interno robusto, com mais de 200 milhões de habitantes.

Paradoxalmente, essa potência econômica convive com níveis alarmantes de desigualdade social. O Brasil está entre os países mais desiguais do mundo, de acordo com o Índice de Gini, que historicamente gira em torno de 0,53, um dos piores do planeta. Dados do IBGE indicam que os 10% mais ricos concentram cerca de 40% da renda nacional, enquanto milhões de brasileiros sobrevivem com renda insuficiente para garantir o básico. Segundo a ONU, mais de 30 milhões de pessoas vivem em situação de insegurança alimentar no país. Essa contradição revela um modelo econômico que cresce, mas não distribui.

O contraste se torna ainda mais chocante quando lembramos que o Brasil é, oficialmente, o maior país cristão do mundo. Estima-se que mais de 85% da população se declare cristã, entre católicos e evangélicos. Em cada esquina deste país há uma igreja: católica, evangélica, pentecostal, neopentecostal, histórica. Ainda assim, convivemos diariamente com a miséria, com crianças passando fome, com pessoas vivendo nas ruas e com uma naturalização da injustiça social.

Cristo pregava o amor, o acolhimento e a partilha. Mais do que isso: Cristo se indignava com a pobreza e com a injustiça produzida pelo poder, confrontava a hipocrisia dos que acumulavam riquezas enquanto o povo sofria. É impossível conciliar o discurso cristão com a indiferença diante da desigualdade estrutural. A fé que não se transforma em compromisso social se esvazia.

Desde que este território passou a se chamar Brasil, após a invasão europeia — sobretudo portuguesa —, o país foi, em sua ampla maioria, governado por elites conservadoras, ligadas à grande propriedade, ao patrimonialismo e à concentração de renda. Governos progressistas foram exceção, não regra, ao longo da nossa história. Ainda assim, é justamente nesses períodos que o país mais avançou no enfrentamento das desigualdades. Experiências como os governos de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, João Goulart, Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff, cada um com suas contradições, colocaram o Estado como agente de desenvolvimento, inclusão e redução das desigualdades.

É preciso afirmar com clareza: justiça social não é caridade. Justiça social é quando o filho do pobre tem as mesmas oportunidades que o filho do rico. É acesso à educação pública de qualidade desde a infância, à saúde, ao esporte, ao lazer, à cultura, à ciência. É igualdade de ponto de partida — algo que nunca existiu no Brasil.

O discurso dominante da direita brasileira insiste em proteger os mais ricos da contribuição tributária. O sistema de impostos no Brasil é regressivo: quem ganha menos paga proporcionalmente mais. A maior parte da arrecadação vem de impostos sobre o consumo, que pesam no bolso dos mais pobres. Enquanto isso, lucros e dividendos seguem isentos, grandes fortunas não são taxadas e heranças pagam impostos irrisórios. O resultado é perverso: os pobres sustentam o Estado, mas não recebem serviços públicos de qualidade. Os ricos, por sua vez, utilizam escolas, hospitais e segurança privados, enquanto ainda se beneficiam de incentivos estatais. Aos pobres resta a “caridade”, quando o que deveriam ter é direito.

Essa lógica se agrava quando olhamos para a situação da população preta no Brasil. Foram mais de 300 anos de escravidão, um dos processos mais longos e violentos da história. A abolição, em 1888, ocorreu sem qualquer política de inclusão social, econômica ou educacional. A Lei Áurea concedeu liberdade formal, mas negou dignidade material. O resultado foi a marginalização sistemática da população preta, empurrada para morros, periferias e territórios sem infraestrutura — espaços que mais tarde se tornariam as favelas brasileiras.

Até hoje, os efeitos dessa exclusão são evidentes. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que mais de 75% das vítimas de homicídio no Brasil são pessoas negras. Jovens pretos são os principais alvos da violência policial e do encarceramento em massa. Políticas inclusivas só começaram a surgir de forma consistente em governos progressistas, como as cotas raciais nas universidades e programas de transferência de renda como o Bolsa Família, reconhecido internacionalmente por sua eficácia na redução da pobreza extrema. Esses programas não resolveram tudo — e nem poderiam —, mas provaram que é possível avançar quando há vontade política.

A extrema direita brasileira tem como prática constante a criminalização de movimentos sociais, o ataque às leis de incentivo à cultura, aos programas sociais e a qualquer política que fortaleça direitos e identidade popular. O que raramente é dito são os privilégios concedidos aos mais ricos: isenções fiscais bilionárias, crédito subsidiado, proteção a monopólios e concentração de poder econômico. Esses benefícios custam muito mais aos cofres públicos do que as políticas sociais e geram um retorno social infinitamente menor. Ao contrário do que se propaga, políticas sociais geram emprego, renda, dinamizam a economia e reduzem desigualdades.

O Brasil tem um povo extraordinário: criativo, diverso, talentoso, resiliente. Temos tudo o que é necessário para sermos uma grande potência do futuro — biodiversidade, recursos naturais e, principalmente, capital humano. Mas isso só será possível se o país decidir investir de forma estratégica nos mais pobres: em educação, ciência, tecnologia, cultura, saúde, moradia, saneamento e políticas de inclusão produtiva.

Quando todos têm oportunidades — e não apenas uma minoria privilegiada —, o Brasil deixa de ser um país injusto e passa a ser, de fato, uma nação desenvolvida. Justiça social não é caridade. É escolha política. É projeto de país.

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Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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