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Goiás se destaca no mapa nacional e alcança os melhores índices de alfabetização

Reconhecimento do MEC e dados das redes municipais mostram que políticas integradas estão elevando os índices de aprendizagem infantil, com destaque para os resultados obtidos em Goiânia e Anápolis


Dhayane Marques Por Dhayane Marques em 01/02/2026 - 09:42

Goiás tem crescimento expressivo nos índices de fluência leitora e produção textual entre estudantes do 2º ano do Ensino Fundamental. Foto: Divulgação

Goiás começa a ocupar posição de destaque no cenário nacional da educação básica ao registrar avanços consistentes na aprendizagem das crianças nos primeiros anos do Ensino Fundamental. O estado conquistou o Selo Ouro do Selo Nacional de Compromisso com a Alfabetização, concedido pelo Ministério da Educação (MEC), após atingir 123 pontos e superar a meta estabelecida no Indicador Criança Alfabetizada de 2024. O reconhecimento consolida Goiás entre as redes públicas que mais avançaram na formulação e execução de políticas educacionais voltadas à infância.

Mais do que um prêmio institucional, o resultado reflete mudanças concretas dentro das salas de aula. A combinação entre acompanhamento pedagógico contínuo, formação de professores e avaliação sistemática da aprendizagem tem produzido efeitos mensuráveis, especialmente nos grandes municípios. Goiânia e Anápolis despontam como exemplos desse processo, com crescimento expressivo nos índices de fluência leitora e produção textual entre estudantes do 2º ano do Ensino Fundamental.

O Selo Nacional de Compromisso com a Alfabetização, criado em setembro de 2024, avalia as ações desenvolvidas por estados e municípios para garantir que as crianças aprendam a ler e escrever até os sete anos de idade. Entre os critérios estão a existência de políticas estruturadas, a distribuição de materiais didáticos complementares, programas de formação docente, sistemas de monitoramento da aprendizagem e estratégias de inclusão para populações historicamente vulnerabilizadas, como comunidades indígenas, quilombolas e do campo.

Em Goiás, essas ações são executadas por meio do Programa AlfaMais, que opera em regime de colaboração entre o Estado e os municípios. O programa atua em três eixos principais: fortalecimento pedagógico, capacitação dos profissionais da educação e monitoramento permanente dos resultados de aprendizagem. A lógica é simples e estratégica: identificar dificuldades ainda nos primeiros anos e intervir antes que as defasagens se tornem estruturais.

Goiânia: avanço na leitura e na escrita

Na capital, os dados revelam uma evolução significativa. Em 2025, o percentual de estudantes do 2º ano considerados leitores fluentes saltou de 10% para 37%, com participação de 97% dos alunos avaliados nas provas de fluência leitora do Programa AlfaMais Goiás.

A categoria “leitor fluente” não se restringe à leitura mecânica. Ela envolve rapidez, precisão, entonação adequada e, principalmente, compreensão do texto. Os estudantes conseguem responder perguntas sobre o que leram e interpretar informações implícitas, indicando domínio efetivo da leitura.

Outro indicador relevante vem das avaliações de produção textual aplicadas pelo Ministério da Educação. Em 2025, 71% dos alunos da Rede Municipal de Educação de Goiânia alcançaram nível alto de desempenho, demonstrando domínio das habilidades de escrita ao final do 2º ano do Ensino Fundamental.

As avaliações passaram a ser utilizadas como instrumento pedagógico e não apenas como medição estatística. Segundo a Secretaria Municipal de Educação, os dados orientam intervenções em sala de aula, permitem identificar fragilidades e fortalecem o planejamento das equipes escolares. O modelo rompe com a lógica histórica de detectar dificuldades apenas nos anos finais da escolarização, quando o prejuízo educacional já está consolidado.

Anápolis: crescimento acelerado da fluência leitora

Em Anápolis, o desempenho também chama atenção. Em apenas um ano, o índice de estudantes com leitura fluente cresceu 40,9%. Em 2024, 22% dos alunos do 2º ano apresentavam esse nível; em 2025, o percentual subiu para 31%.

No grupo oposto, formado por estudantes com maior dificuldade de leitura, houve redução: o percentual caiu de 4% para 2%, indicando avanço tanto na base quanto no topo do desempenho escolar.

Entre esses dois extremos estão os leitores iniciantes, que também apresentaram evolução significativa, passando de 37% para 49% ao longo de 2025. Os dados mostram que mais crianças estão migrando dos níveis mais baixos para patamares mais avançados de aprendizagem.

Para a secretária municipal de Educação de Anápolis, Adriana Rocha Arantes, os resultados refletem o trabalho articulado das equipes pedagógicas. Segundo ela, os avanços impactam diretamente a trajetória acadêmica dos estudantes, reduzindo a evasão escolar e fortalecendo a continuidade do processo educacional.

O contraste com o cenário brasileiro

Os resultados de Goiás ganham ainda mais relevância quando comparados ao panorama nacional. Em 2024, o Brasil atingiu 59,2% de crianças alfabetizadas na idade certa, segundo dados do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada. Embora represente avanço em relação a 2023, o índice ficou abaixo da meta de 60% estabelecida para o período.

O país ainda convive com cerca de 9,1 milhões de pessoas analfabetas, de acordo com o IBGE, a maioria com mais de 60 anos. Além disso, o analfabetismo funcional atinge aproximadamente 30% da população adulta, evidenciando que o desafio não se limita apenas à infância, mas se estende ao longo da vida escolar.

Na educação infantil, as desigualdades também persistem. Entre 2014 e 2024, o percentual de crianças de 0 a 3 anos matriculadas subiu de 29,7% para 41,2%, o maior patamar já registrado. Ainda assim, quase 20% das crianças dessa faixa etária permanecem fora da escola, principalmente por falta de vagas e dificuldades de acesso.

As diferenças socioeconômicas são expressivas: enquanto 60% das crianças pertencentes aos 20% mais ricos frequentam a educação infantil, entre os 20% mais pobres esse percentual é de apenas 30,6%. O Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025 também aponta disparidades raciais, indicando que apenas um em cada três estudantes negros tem a aprendizagem plenamente consolidada nos anos iniciais.

Perspectivas

Os avanços registrados em Goiás contrastam com o cenário nacional apontado pelo Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025, do Todos Pela Educação. O levantamento mostra que apenas 37,2% dos estudantes do 5º ano da rede pública brasileira alcançam níveis adequados de aprendizagem em Língua Portuguesa e Matemática, índice ainda inferior ao período pré-pandemia. Esse dado evidencia que, embora haja recuperação gradual, grande parte das crianças segue avançando na escolarização sem consolidar competências essenciais, o que amplia desigualdades ao longo da trajetória educacional.

Quando o recorte é feito nos primeiros anos do Ensino Fundamental, o Anuário indica que o Brasil chegou a 59,2% de crianças alfabetizadas na idade certa em 2024, percentual abaixo da meta nacional de 60% estabelecida para o período. A projeção oficial é atingir 80% até 2030, o que exigirá aceleração significativa das políticas públicas. Nesse contexto, os resultados observados em municípios como Goiânia e Anápolis, com crescimento expressivo da fluência leitora em apenas um ano, colocam Goiás acima da média nacional e demonstram maior capacidade de resposta institucional frente aos desafios da alfabetização.

O estudo também chama atenção para a permanência das desigualdades educacionais, sobretudo entre grupos sociais. Apenas um em cada três estudantes negros apresenta aprendizagem consolidada nos anos iniciais, revelando que o avanço médio do país não se distribui de forma homogênea. Além disso, o acesso desigual à educação infantil — etapa decisiva para o sucesso na alfabetização — segue como obstáculo: entre as crianças de 0 a 3 anos, apenas 41,2% estão matriculadas, com forte diferença entre os 20% mais pobres (30,6%) e os 20% mais ricos (60%).

O desempenho de Goiás indica um movimento que vai na contramão da estagnação observada em parte do país. A articulação entre Estado e municípios, o uso sistemático de avaliações diagnósticas e o investimento em formação docente se alinham às recomendações centrais do Anuário, que defende políticas baseadas em evidências e foco na equidade. Se mantiver o ritmo e ampliar as ações para regiões mais vulneráveis, o estado poderá não apenas sustentar seus indicadores positivos, mas também se consolidar como referência nacional em políticas públicas voltadas à aprendizagem na infância.

Dhayane Marques

Dhayane Marques é jornalista formada pela PUC-GO. Atualmente é Diretora de Programas da TV Pai Eterno e repórter no jornal Tribuna do Planalto e Tribuna de Anápolis, nas editorias de cidades, educação, economia, agro, diversão e arte.

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