Especialistas defendem planejamento antecipado de cuidados diante do avanço das demências no Brasil
O avanço da Doença de Alzheimer em Goiás já se reflete nos números da saúde pública. Em 2025, o estado registrou 52 atendimentos ambulatoriais relacionados à doença, além de 61 internações hospitalares, segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde (SES-GO). Os números representam aumento em relação a 2024, quando foram contabilizados 45 atendimentos e 48 internações.
Esse crescimento acompanha uma tendência nacional e global. Com o envelhecimento da população, especialistas alertam que os casos de demência podem triplicar até 2050. Nesse cenário, o planejamento antecipado de cuidados passa a ser essencial para preservar a autonomia dos pacientes.
“O avanço das demências, especialmente da doença de Alzheimer, tornou-se um dos principais desafios de saúde pública no Brasil e no mundo”, afirma a pesquisadora Nelma Melgaço, doutoranda em Bioética e Direitos Humanos pela Universidade de Brasília.
Segundo ela, o aumento da expectativa de vida e a redução das taxas de natalidade ampliam a pressão sobre os sistemas de saúde e as famílias.
Crescimento dos atendimentos em Goiás
De acordo com a SES-GO, os atendimentos relacionados ao Alzheimer são realizados pela rede pública estadual, com foco no diagnóstico precoce, acompanhamento contínuo e suporte às famílias. Além disso, o aumento das internações indica maior complexidade dos casos acompanhados.
Em nível nacional, dados do Ministério da Saúde apontam que o Sistema Único de Saúde registrou 56,2 milhões de atendimentos ambulatoriais relacionados à doença em 2025. Também foram contabilizados cerca de 30,4 mil óbitos associados ao Alzheimer no país, embora os números ainda sejam preliminares.
O SUS oferece tratamento gratuito e integral, com uso de medicamentos e terapias complementares. Entre elas estão estimulação cognitiva, fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia e suporte psicossocial, com o objetivo de retardar o declínio cognitivo e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.
Envelhecimento impulsiona avanço da doença
O crescimento dos casos de Alzheimer está diretamente ligado à transição demográfica. No mundo, a população com 65 anos ou mais deve passar de 761 milhões, em 2021, para cerca de 1,6 bilhão em 2050.
No Brasil, estimativas indicam que cerca de 8,5% das pessoas com mais de 60 anos convivem com algum tipo de demência, o que representa aproximadamente 1,8 milhão de indivíduos. A projeção é que esse número chegue a 5,7 milhões nas próximas décadas, impulsionado principalmente pelo envelhecimento populacional.
Autonomia e tomada de decisão
Além dos impactos clínicos, o Alzheimer traz desafios relacionados à autonomia dos pacientes. Por ser uma doença neurodegenerativa progressiva, compromete funções como memória, linguagem e comportamento.
Nos estágios iniciais, muitos pacientes ainda conseguem participar das decisões sobre o próprio tratamento. No entanto, com o avanço da doença, essa capacidade tende a diminuir, exigindo maior participação de familiares e cuidadores.
Por isso, especialistas recomendam a elaboração do chamado Plano Avançado de Cuidado (PAC), que permite ao paciente registrar previamente suas preferências. “A proposta é garantir que, mesmo quando a doença comprometer a capacidade de decisão, as escolhas do paciente sejam respeitadas”, explica a pesquisadora.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, cerca de 3 bilhões de pessoas convivem com algum tipo de condição neurológica no mundo. A demência já é considerada a sétima principal causa de morte global.
Apesar da dimensão do problema, menos de um terço dos países possui políticas públicas estruturadas para enfrentar essas doenças. Nesse contexto, o avanço do Alzheimer reforça a necessidade de planejamento, investimento em saúde e ampliação do suporte às famílias e cuidadores.















