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Debate sobre terras raras cresce após venda da Serra Verde e Governo de Goiás se defende

Venda da mineradora Serra Verde para empresa dos EUA intensifica disputa política sobre soberania mineral, enquanto governo goiano afirma que União teve conhecimento de todo o processo


Por Carlos Nathan Sampaio em 17/05/2026 - 13:05

Debate sobre terras raras cresce após venda da Serra Verde e Governo de Goiás se defende
Mineração Serra Verde, em Minaçu. (Foto: Divulgação/Mineradora Serra Verde)

A venda da mineradora Serra Verde, instalada em Minaçu, no norte de Goiás, para a norte-americana USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões transformou as terras raras brasileiras em um dos principais temas do debate político e econômico no estado e no país nas últimas semanas. Enquanto integrantes do governo federal e aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passaram a criticar acordos firmados pelo governo goiano com os Estados Unidos, a gestão estadual reagiu afirmando que Goiás está sendo alvo de uma disputa política mesmo sem possuir competência legal sobre a concessão mineral.

O caso ganhou força após a conclusão da negociação envolvendo a Serra Verde, considerada estratégica por operar a única mina de argilas iônicas ativa do Brasil e também a única produtora fora da Ásia de elementos como disprósio, térbio, neodímio e ítrio — minerais fundamentais para a fabricação de veículos elétricos, turbinas eólicas, semicondutores, drones e equipamentos de defesa.

Apesar das críticas direcionadas ao governo de Goiás, a própria legislação brasileira estabelece que o subsolo pertence à União, cabendo ao governo federal autorizar concessões de lavra, regular operações envolvendo capital estrangeiro e fiscalizar o setor mineral.

A Serra Verde, inclusive, nunca teve controle brasileiro. A mineradora foi criada em 2010 com capital totalmente estrangeiro, envolvendo grupos de investimento dos Estados Unidos e do Reino Unido. Ou seja, a negociação realizada em abril deste ano representou, na prática, uma transferência de controle entre empresas internacionais, e não a venda de uma companhia nacional ao capital estrangeiro.

Disputa global e críticas do governo federal

O tema passou a ganhar dimensão geopolítica diante da disputa global por minerais críticos. Atualmente, a China domina cerca de 90% do processamento e refino mundial de terras raras, enquanto os Estados Unidos tentam reduzir sua dependência asiática buscando novas fontes de fornecimento, especialmente no Brasil.

A discussão ganhou ainda mais peso após o presidente Lula defender, durante visita à Índia em fevereiro deste ano, que o Brasil deixe de atuar apenas como exportador de matéria-prima. “Nós não queremos apenas exportar matéria-prima. Queremos produzir aqui e gerar emprego aqui”, declarou o presidente na ocasião.

Poucos meses depois, o governo federal enviou ao Congresso um projeto de lei que regulamenta o setor de minerais críticos e permite à União vetar a venda de mineradoras para empresas estrangeiras, além de criar incentivos fiscais para companhias que realizarem processamento industrial em território brasileiro.

Entretanto, críticos do posicionamento federal apontam que o governo teve diversas oportunidades anteriores para intervir no setor e não adotou medidas concretas. A primeira ocorreu ainda durante o segundo mandato de Lula, quando a concessão de lavra da Serra Verde foi autorizada sem condicionantes relacionadas ao processamento nacional. Durante mais de uma década, praticamente toda a produção mineral foi destinada à empresa chinesa Shenghe Resources sem questionamentos públicos dos diferentes governos federais que passaram pelo Palácio do Planalto.

A segunda oportunidade ocorreu em agosto de 2025, quando a agência norte-americana DFC aprovou um financiamento de US$ 465 milhões para expansão da Serra Verde, valor posteriormente ampliado para US$ 565 milhões. A operação permitiu à mineradora encerrar contratos com grupos chineses anos antes do previsto. Mesmo após reuniões diplomáticas envolvendo Lula e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o governo brasileiro não apresentou objeções formais.

Já a terceira ocorreu em abril deste ano, quando o jornal britânico Financial Times revelou que o financiamento norte-americano continha cláusulas direcionando o fornecimento dos minerais para os Estados Unidos e países aliados, excluindo explicitamente a China. Poucos dias depois, a USA Rare Earth confirmou a compra integral da Serra Verde.

Em meio à repercussão, o presidente Lula criticou duramente o acordo firmado entre Goiás e representantes norte-americanos em março deste ano. “É uma vergonha inclusive o que o Caiado fez em Goiás”, afirmou o presidente em entrevista ao portal ICL Notícias, alegando que o Estado teria avançado sobre as competências da União.

Governo de Goiás reage e debate chega à Assembleia

O governo goiano rebateu as declarações afirmando que o memorando assinado com os Estados Unidos não envolvia concessão mineral, mas sim intenções de cooperação tecnológica e industrialização.

Segundo a Secretaria de Comunicação do Estado, Goiás busca justamente evitar que o Brasil continue exportando apenas matéria-prima bruta para processamento no exterior. O governo estadual também destacou que firmou entendimentos semelhantes com o Japão para instalação de estruturas de separação e processamento mineral em território goiano.

O secretário-geral de Governo de Goiás, Gean Carlo Carvalho, fez uma das defesas mais contundentes da estratégia adotada pelo Estado. Segundo ele, Goiás enxerga as terras raras como uma oportunidade histórica de desenvolvimento econômico e industrial. “Goiás enxerga as terras raras como uma agenda estratégica de desenvolvimento, inovação e soberania econômica. O nosso papel é garantir que esse potencial mineral seja tratado com responsabilidade e visão de futuro, atraindo investimentos, tecnologia e capacidade de processamento para o Estado”, afirmou.

Gean também criticou o que chamou de uso político do tema por setores ligados ao debate nacional. “O que nos preocupa é ver uma pauta estratégica para o Brasil ser tratada com oportunismo político por quem prefere criar narrativa eleitoral a discutir soluções concretas. Enquanto alguns setores tentam ideologizar o tema, Goiás está agindo”, declarou.

O secretário reforçou ainda que o Estado pretende transformar Goiás em referência internacional no setor de minerais críticos.

“Não queremos que Goiás seja apenas fornecedor de matéria-prima. Queremos avançar na industrialização, agregar valor à cadeia produtiva, gerar empregos qualificados e posicionar o Estado como referência nacional e internacional nesse setor”, acrescentou.

Paralelamente à disputa política, o tema também passou a mobilizar preocupações ambientais. O deputado estadual Antônio Gomide (PT) solicitou a realização de audiência pública para debater propostas ligadas à mineração na região da Chapada dos Veadeiros. O parlamentar questiona a revisão do plano de manejo da Área de Proteção Ambiental de Pouso Alto, defendida pelo governo estadual.

A discussão ambiental se ampliou nesta terça-feira (13), quando a Assembleia Legislativa de Goiás realizou audiência pública sobre os impactos sociais, ambientais e econômicos da exploração de terras raras no Estado. O encontro reuniu representantes do Ministério Público, Ibama, Defensoria Pública, pesquisadores e especialistas em mineração.

Durante a audiência, a deputada Bia de Lima (PT) afirmou que o debate sobre terras raras ultrapassa questões comerciais e envolve soberania nacional, desenvolvimento econômico e proteção ambiental.

Mesmo diante das críticas e disputas políticas, Goiás segue apostando no fortalecimento da cadeia produtiva dos minerais críticos. O governo estadual defende que o Estado possui potencial para liderar o setor no Brasil, especialmente pela relevância das reservas existentes em território goiano, estimadas entre as maiores do mundo.

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