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Agricultura familiar: a estrela que brilhou na COP30

O Brasil, ao colocar a agricultura familiar no centro da agenda climática, enviou uma mensagem clara: a transição ecológica passa pelo campo


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 25/11/2025 - 12:49

COP 30 agricultura
Se na COP30 a agricultura familiar brilhou, o desafio agora é fazer sua luz permanecer acesa (Foto: Divulgação)

A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas — a COP — é o maior palco de debates sobre o futuro do planeta. Desde 1995, quando líderes mundiais se reuniram em Berlim para a primeira edição, a COP tem funcionado como um termômetro da consciência climática global e um fórum de ação política. Foi dali que surgiram marcos históricos, como o Protocolo de Quioto (1997) e o Acordo de Paris (2015), que moldaram compromissos nacionais para conter o aquecimento global.

Três décadas depois, a COP retorna às suas raízes mais simbólicas: a natureza. E o faz no coração da Amazônia, com a COP30, realizada em Belém (PA), em novembro de 2025. O gesto do governo brasileiro em sediar o evento em plena floresta é, antes de tudo, um ato político. Convocar o mundo para debater o clima no maior bioma tropical do planeta é reafirmar que as soluções globais passam, necessariamente, pela Amazônia e pelos povos que dela.

Belém transformou-se em uma verdadeira aldeia global. De acordo com dados oficiais, mais de 150 delegações internacionais participaram dos doze dias de conferência, reunindo cerca de 50 mil pessoas entre líderes, cientistas, jornalistas e representantes da sociedade civil. Foram dezenas de painéis, fóruns e encontros temáticos distribuídos entre eixos estratégicos que abordaram desde agricultura e florestas até bioeconomia, inovação tecnológica e inclusão social.

Mas, entre os inúmeros temas debatidos, um se destacou e conquistou os holofotes: a agricultura familiar.

Responsável por cerca de 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros, segundo o governo federal, a agricultura familiar sempre teve papel estratégico na segurança alimentar do país. Na COP30, ela ganhou o reconhecimento que há tempos merecia: foi tratada como parte da solução climática, não como coadjuvante.

O destaque veio tanto na prática quanto no simbolismo. Boa parte dos alimentos servidos durante a conferência foi proveniente da agricultura familiar amazônica — um gesto de coerência entre discurso e ação. Mais do que isso: a transição agroflorestal, a reforma agrária, a valorização de comunidades tradicionais e a inclusão social estiveram no centro das discussões técnicas.

O conceito de transição agroflorestal — que integra produção agrícola e conservação florestal — foi apresentado como um modelo viável para o século XXI. Ele não apenas reduz emissões de gases de efeito estufa, mas também regenera solos, amplia a biodiversidade e gera renda local. Ao articular ciência, tradição e sustentabilidade, a agricultura familiar se revelou o elo entre o desenvolvimento e a preservação.

Politicamente, esse protagonismo representa uma inflexão importante. Num cenário global onde o agronegócio costuma dominar os debates, a COP30 deu palco aos pequenos produtores, assentados, quilombolas, indígenas e ribeirinhos. Foram eles que, com exemplos práticos e histórias reais, mostraram ao mundo que é possível produzir sem destruir.

O Brasil, ao colocar a agricultura familiar no centro da agenda climática, enviou uma mensagem clara: a transição ecológica passa pelo campo, mas por um campo inclusivo e sustentável. Essa visão é coerente com os objetivos do Acordo de Paris e com os eixos da COP30 — que priorizam mitigação, adaptação, financiamento climático e desenvolvimento sustentável com equidade social.

Se na COP30 a agricultura familiar brilhou, o desafio agora é fazer sua luz permanecer acesa. O pós-COP deve ser o momento de consolidar políticas públicas e alianças capazes de transformar o reconhecimento simbólico em mudança estrutural.

Fortalecer a agricultura familiar significa investir em crédito verde, assistência técnica, infraestrutura rural e cadeias curtas de comercialização. Significa também apoiar o acesso à terra, o empoderamento das mulheres rurais, a formação de jovens agricultores e o uso de tecnologias sustentáveis que respeitem os biomas brasileiros.

Defender a agricultura familiar, a partir de agora, deve ser prioridade entre governos, entidades e sociedade civil. Porque o que está em jogo não é apenas o futuro de milhões de famílias rurais, mas o modelo de desenvolvimento que queremos para o planeta.

Ao fim da COP30, ficou claro: a agricultura familiar não é o passado romântico do campo — é o futuro estratégico da humanidade. Ela reúne os três pilares que a conferência defendeu com firmeza: desenvolvimento econômico, justiça social e proteção ambiental.

Que o brilho da agricultura familiar na COP30 não seja passageiro. Que continue iluminando as políticas públicas, inspirando as cidades e guiando o mundo rumo a um modelo de produção que regenere, inclua e alimente — ao mesmo tempo em que protege a casa comum que é o planeta Terra.

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Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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