Em entrevista à Tribuna do Planalto, o vereador Anselmo Pereira, que é vice -presidente do Legislativo goianiense, acredita que a tramitação dos demais projetos do pacote que o prefeito Sandro Mabel (UB) enviou à Câmara na semana passada e que contém matérias como a mudança na aplicação do empréstimo de R$ 710 milhões realizado pela gestão passada, se dará em meio à apreciação das reivindicações dos vereadores, que irão passar pelo primeiro teste de fidelidade ao prefeito.
Vereador Anselmo Pereira, o senhor tem quase 50 anos de vida pública, como enxerga o momento político que estamos vivendo?
Em relação à cidade de Goiânia, estamos passando por um processo de transformação. É uma gestão que está voltada para a questão de gerência, mas ao mesmo tempo tenta levar alguma questão de movimentos comunitários e sociais. O que eu penso é que o prefeito Sandro Mabel tem vontade de acertar justamente nos gargalos mais importantes da cidade. Quais são? Resolver o problema da saúde ambulatorial, que eu considero fundamental – se ele vai terceirizar ou não – tem o propósito de resolver; a segunda, erradicar de uma vez essa questão da educação primária, uma fase que, por lei, é nossa. Precisa equacionar isso. E a outra, pela qual ele se encanta muito, e estou notando que não só ele, mas a própria Câmara, e todo mundo está colaborando, é a questão da mobilidade da cidade. A área azul digital, que está chegando definitivamente e a lei inclusive é minha, já tem quase sete, oito anos, e, ao ser implantada, requalifica parte do Centro e, com muita eficiência, a atividade econômica da nossa querida Campininha, que fez 215 anos, disciplina todo o movimento da 44. Esses eixos que estão sendo desafiados são importantes para uma administração, mas é preciso que sejam o foco principal, sem deixar, em hipótese alguma, o desafio, não de revitalizar, mas de requalificar o Centro. Eu entendo que o caminho correto é repovoar o Centro da cidade. Nós estamos agora com uma experiência no prédio da Rua 2 com a Avenida Goiás, um prédio antigo abandonado que foi designado para moradia. Vai ter 68 apartamentos, financiados pelo governo federal. Se essa ideia prevalecer, os mais de 40% de imóveis subutilizados do Centro poderão ser mecanismos para recuperar e requalificar o Centro de Goiânia.
Em relação ao estilo do prefeito, que tem gerado muitas críticas inclusive entre os vereadores. Exemplo desse estilo Mabel é a forma com que lidou com as emendas impositivas, ele esticou a corda e depois sancionou sem vetos um texto do Legislativo. Esse será o estilo dos quatro anos ou é apenas o cartão de visita?
Eu acho que esse estilo do Sandro Mabel é temporário. Ele pegou uma prefeitura, está voltando para a vida pública, o que é natural depois de quase 16 anos ou mais, e entendeu que precisava criar uma espécie de marca e dar um choque. Para isso, ele precisou criar algumas situações, como essa, na qual ele precisa fazer economia, e isso já desagradou um pouco, porque agora que a data-base saiu e ela vai para setembro, o que não é demérito dele, porque tem outras prefeituras que nem data-base deram. Esse estilo eu entendo que não vai ser permanente. Eu comparo como se tivesse criado uma espécie de couraça para poder começar a fluir os focos mais importantes que ele precisa desafiar, sob pena de não conseguir, porque o poder público tem uma série de amarras. Para fazer uma obra, a licitação leva três meses, depois mais três meses questionando e não dá conta de fazer. Ele está desafiando alguns pontos que precisam ser desafiados: a Comurg vai ou não ser uma empresa a serviço do município, enxuta, redirecionada para o serviço que se propõe?
Como o senhor vê as mudanças que estão sendo implementadas na Comurg?
Eu entendo que ela está no caminho correto, principalmente se começarmos a preservar o que é essencial, que são os funcionários, aqueles que trabalham, que dedicam; mas ao mesmo tempo, ter coragem, às vezes, de terceirizar serviços que não podem parar. Como comprar, por exemplo, 50 caminhões, que, com dois anos, precisam de reforma e tem que licitar. Aí os caminhões ficam parados, porque a licitação do pneu não deu certo. Como que faz a coleta de lixo, a limpeza? Essa visão empresarial dele eu entendo como altamente positiva. Ele está tentando dar à prefeitura um foco de ação de gestão.Tanto é que até o aspecto físico interno da prefeitura mudou; as salas não são mais descontínuas, todas são contínuas, como nas grandes empresas nacionais e internacionais. Tem lá as ilhas e todos se comunicam entre si. Não precisa abrir essa porta, fechar aquela, trancar essa; todos se comunicam, dando o norte, ao qual é preciso que todos estejam imbuídos para fazer uma administração exequível para a cidade.
A palavra não é nem negociar, eles (os pedidos dos vereadores) vão ter que ser apreciados.”
Como os vereadores reagem a esse estilo?
Nós temos que entender que é compreensível. Um ou outro ponto, às vezes, atrita. Cada vereador tem seus interesses de trabalho comunitário, de servir o bairro, de fazer obra, de fazer benefício; até a questão das próprias emendas, que às vezes vai prestigiar uma entidade que é a benéfica para a cidade e de repente trava. A meu ver, os desentendimentos são pontuais. Se continuar querendo fazer gestão em Goiânia, a cidade ganha e a Câmara entende que é benéfico para a população. Nós já estamos vendo algumas melhorias no transporte coletivo, essa metronização que está acontecendo do Terminal Isidória para o Centro, do Terminal do Novo Mundo para a Praça da Bíblia e agora vai incrementar os outros em parceria com o governo do Estado, porque a prefeitura sozinha não vai dar conta. Um ou outro conflito nunca vai deixar de acontecer.
A Câmara foi protagonista, na última administração sobretudo. O senhor acha que é o momento de a Câmara ser coadjuvante?
A Câmara tem que se manter independente, mas tem que ser cúmplice e responsável pela administração. Agora mesmo nós fizemos uma coisa que nunca fizemos em 80 anos, pegamos uma sessão solene, aliás, de minha autoria, para resolver assuntos pertinentes a funcionário público, que é importante. Nós abrimos a sessão solene, abrimos uma ordinária e aprovamos para recuperar, não é aumento de vencimento, salário de determinadas categorias. Cada governante tem seu estilo, veja o estilo do nosso governador, de linha reta, direto: vamos garantir a segurança desse estado; vamos e a segurança está aí, todo mundo sabe que Goiás hoje é seguro.
O senhor falou desse esforço para aprovar os dois primeiros projetos do Executivo, e os outros quatro? Um deles para retirar a lista de obras vinculadas ao empréstimo, dois que tratam de mudanças na Cosip (Contribuição para o Custeio do Serviço de Iluminação Pública) e também na política de PPP. Como deve ser a tramitação desses projetos? O senhor disse que é preciso testar a base?
Essas três matérias são necessárias. Quando nós aprovamos o empréstimo – eu aprovei – um empréstimo subsidiado, bacana; o governo passado foi muito feliz e ninguém tem que criticar. O empréstimo estava lá, disponível para a sua aplicabilidade. O governo passado sofreu para provar esse projeto e eu sei porque eu participei. Ele está disponível e até agora não se aplicou nem R$ 90 milhões. A realidade da administração e das necessidades de Goiânia são outras. O que vamos fazer com esse novo modal que chegou lá? Nós vamos abrir um guarda-chuva dentro do próprio empréstimo e abrigar as necessidades mais importantes do momento. Temos reforma de Cais, de postos de saúde, a questão da mobilidade. A Cosip, por exemplo, vai deixar de ser só a iluminação e pode abrigar equipamentos de fotossensores de segurança. Ela abriga essa possibilidade porque a cidade exige isso agora. Mudar a tônica da necessidade eu vejo a qualquer momento como importante e entendo que os vereadores vão compreender isso. A gestão passada fez milhares de metros quadrados de recapeamento asfáltico. Hoje ando em algumas ruas e tenho prazer. Dentro dessa mudança, vai continuar a recuperação da malha viária de Goiânia. A Avenida Perimetral não completou e ela não pode ser um piso comum, ela tem que ser um piso especializado porque trafegam por lá caminhões pesados. Se fizermos um piso simples, como de qualquer rua, daqui a dois, três anos, tudo o que fizemos tem que refazer. Vai se fazer lá os trechos que estão faltando e que foram iniciados na gestão passada e tem que se louvar esse aspecto. Esses projetos não vão ter problema na Câmara, porque a Câmara vai saber onde que vai fazer o recapeamento, onde que vai fazer a questão da segurança, se vai ter equipamentos para a saúde e assim sucessivamente.
Mas a votação desses projetos passa por uma construção antes?
Sim, tudo depende de entendimento e conciliação.
Nessa construção vão estar não só os interesses da cidade, mas também os interesses dos vereadores que ainda foram atendidos pelo Paço. Esses interesses vão ser negociados?
A palavra não é nem negociar, eles vão ter que ser apreciados. Vou citar um exemplo pessoal: eu, Anselmo Pereira, tenho um posto de saúde que é numa área pública e que preciso fazer investimento lá e tenho um posto de saúde lá no Santo Hilário, que está alugado, já arranjei um terreno público de 3 mil metros e eu preciso construir um posto de saúde lá. Vou fazer entendimento com a prefeitura de que essa minha reivindicação, que não é do vereador, mas da região do Santo Hilário, do Recanto das Minas Gerais, do Tupinambá dos Reis, do Havaí, eu tenho que colocar na pauta. ‘Olha, eu estou aprovando, mas eu preciso que esse benefício chegue para minha comunidade.’
Mas há também indicações de vereadores que ainda não foram atendidos.O prefeito tem ampliado a máquina administrativa e uma reportagem do Popular mostra que mais de 700 pessoas já foram nomeadas. Ainda tem espaço para as indicações de vereadores?
O critério que o prefeito adotou para indicação eu achei muito prudente. O vereador e o político do município podem indicar, desde que a pessoa tenha competência, se não tiver, vai ser eliminado. E tem que ser eliminado. Eu tenho que ter a grandeza de ser substituir. Mas esse é o critério que ele está adotando.
O não atendimento dos interesses dos vereadores pode prejudicar a tramitação desses projetos?
Nesses projetos eu sinceramente não vejo. Porque o prefeito reuniu, inteligentemente, previamente os vereadores. Eu sempre disse que, em todas as grandes matérias, reúna os vereadores, independente de ser base ou não, reúna e mostre para que é o projeto. Chegaram sete projetos, e tem até um que é da saúde, que vai pagar auxílio alimentação para os plantonistas. Todos eles foram conversados, e como é bom é bom alinhavar antes, porque se tiver que fazer alguma emenda, algum ajuste já sai dali com o entendimento. Vejo que não vamos ter problema na aprovação dessas sete matérias, porque elas vão direto para a cidade, inclusive para a minha base.
Essa reunião não foi muito produtiva. Eu ouvi vereadores falando que parecia que estavam ensaiando atores, porque as pessoas não tiveram espaço para fazer as suas devidas reivindicações. E digo mais, o senhor falou que vai voltar lá com o vereador Tião Peixoto para conversar sobre a apreciação das demandas dos vereadores.
Essa foi uma ideia do Tião Peixoto e para ele não ir sozinho, eu gosto de usar mais a razão, falei que se ele for, eu não quero emocionar, eu quero razão, eu vou. Vereadores têm que ter gesto no sentido de constituir uma base sólida representativa. Eu represento vários bairros e quero os benefícios para minha região. A nossa ida lá vai ser para isso, para poder dizer: ‘se vai fazer recapeamento, é preciso que se faça recapeamento, por exemplo, naquela Avenida Vera Cruz do Guanabara”. Tem uma avenida mais importante nesse momento para recapear? É necessário. E quantos vereadores vão ser atendidos lá? Mais de cinco vereadores atuam lá. Todos podem ser protagonistas nesta obra. Isso que nós queremos falar para que o prefeito faça. Vai fazer o Brilha Goiânia e está muito fácil para o vereador também tirar o dividendo dele. Quando eu souber que vai fazer o Brilha Goiânia, por exemplo, no Residencial Itaipu, eu vou lá, vou olhar as ruas, vou verificar as praças, vou dizer onde tem que tirar luz de vapor de sódio e colocar LED. Cabe a mim também e é essa possibilidade que eu, como político, quero falar dentro do projeto. E assim nós amenizamos os conflitos. Não é ter uma negociação, mas é ter um entendimento. Se tem uma verba de tantos milhões para aplicar no contexto da cidade e eu estou inserido nela como vereador, eu represento boa parte dessa região. Esse chamamento o Sandro tem feito constantemente com o vereador.
A Câmara tem que se manter independente, mas tem que ser cúmplice e responsável pela administração.”
Como é que Anselmo Pereira considera a interlocução do Paço com a Câmara? O diálogo com a Sabrina Garcez é bom?
A Sabrina tem uma experiência política de alguns mandatos e ao mesmo tempo é muito acessível, atende vereador a todo momento, vejo que, como secretária de governo, tem dado respaldo muito grande, inclusive tem feito interlocuções muito pontuais com o prefeito de Goiânia, para dizer: ‘olha, esse vereador tem essa ou aquela especificidade’. Não tem vereador igual. Cada vereador tem um comportamento e os interesses políticos e administrativos dentro do contexto da cidade, ou no seu bairro, na sua região, no seu segmento, o que seja muito importante. Eu mesmo sou um vereador que representa muitos segmentos.
Como está a relação do prefeito com o presidente da Câmara Romário Policarpo?
Muito boa. A gente não pode misturar a personalidade de cada um com o comportamento político administrativo. Eu, por exemplo, sou muito presente. O Policarpo já tem o comportamento dele e ninguém vai censurar, porque cada um tem seu comportamento, mas ele é tão inteligente que foi o único que teve quatro mandatos de presidente da Câmara. Como é que eu vou censurar isso? Eu tenho 11 mandatos de vereador, não me julgo muito burro, mas não podemos misturar muito o comportamento de cada um. O estilo de Sandro Mabel é este e nós temos que respeitar, mas temos que moldar esse estilo diante dos interesses da cidade.
O senhor acha que a oposição está mais fervorosa nesta legislatura, até porque aumentou o número de cadeiras?
Estou muito preocupado é com essa relação de direita e esquerda. É preciso que a gente limite, porque a cidade quer ver todos convergindo para o bem da cidade. Não podemos ser sectários entre direita e esquerda, e eu acho também natural que tenha direita e esquerda e que tenha oposição. Tem que ter oposição porque às vezes até nos alerta de erros futuros que se possa cometer ou até momentâneos. Eu já vi ideias da oposição excelentes, que foram absorvidas pelo poder administrativo. O que eu às vezes censuro é o sectarismo entre direita e esquerda, que está exacerbando demais, não só em Goiânia, mas em todo o Brasil.















