Nos últimos dias, a cena política de Goiânia foi sacudida por uma crise que envolve o prefeito Sandro Mabel e sua até então base aliada na Câmara Municipal. O episódio que culminou na exoneração de Diogo Franco, então secretário municipal de Indústria, Comércio e Agricultura, e na destituição do vereador Igor Franco da liderança do governo na Câmara, revela não apenas um racha entre lideranças locais, mas expõe com clareza um problema crônico da política brasileira: a fragilidade institucional do nosso sistema de governança.
Conheço bem o vereador Igor Franco. Fomos colegas na Secretaria de Articulação Institucional do Governo de Goiás e posso afirmar que se trata de um político de rara competência, com olhar técnico e compromisso com a boa gestão pública. Segundo o próprio Igor, os rumos da atual administração municipal não estariam em sintonia com sua visão de gestão eficiente e responsável. Por outro lado, o prefeito Sandro Mabel parece ter interpretado a postura do vereador como uma ruptura na lealdade institucional — e reagiu com medidas firmes. A crise escalou rapidamente, culminando na abertura de uma CEI (Comissão Especial de Inquérito) para apurar supostas irregularidades na área da limpeza urbana.
Comissões de investigação são instrumentos legítimos do Parlamento. E, nesse caso, podem ser inclusive uma oportunidade para a Prefeitura comprovar a legalidade de seus atos, reforçar a transparência e conquistar ainda mais apoio popular. Mas é evidente que o processo acarreta desgastes políticos e administrativos importantes — especialmente num cenário de instabilidade na base do governo.
Cabe destacar que Sandro Mabel não chegou à Prefeitura por acaso. Sua eleição foi respaldada por expressiva votação popular, fruto de sua ampla experiência política — com passagens pelo Congresso Nacional, onde atuou como deputado federal — e também pela sua trajetória administrativa de destaque como presidente da FIEG (Federação das Indústrias do Estado de Goiás). Trata-se, portanto, de um gestor com sólida bagagem tanto política quanto técnica. Sua presença no Executivo trouxe a expectativa de profissionalização da gestão e de racionalização da máquina pública.
No entanto, a crise atual revela que, mesmo com competência e respaldo popular, governar continua sendo um desafio estrutural no Brasil, sobretudo em ambientes onde há indefinições institucionais sobre os papéis dos poderes. O embate entre Mabel e Igor Franco é apenas mais um sintoma de uma disfunção mais profunda: a superposição de papéis entre Executivo e Legislativo, resultado direto de uma arquitetura institucional contraditória.
A Constituição de 1988 consagrou formalmente o presidencialismo como regime de governo, mas o fez sob forte influência do modelo parlamentarista. Criou-se assim um sistema híbrido, no qual o Parlamento possui grande poder político, mas pouca responsabilidade direta sobre a execução das políticas públicas. É o chamado “presidencialismo de coalizão”, expressão consagrada na ciência política: para governar, o chefe do Executivo precisa negociar constantemente com o Legislativo, distribuindo cargos, orçamento e influência — muitas vezes em detrimento de critérios técnicos.
Essa lógica nacional se reproduz nos estados e, cada vez mais, nos municípios. O exemplo recente do ex-prefeito Rogério Cruz é emblemático: sem base de apoio parlamentar, sem experiência administrativa e sem liderança consolidada, viu seu governo ser fragmentado e absorvido por blocos políticos da Câmara Municipal. Secretarias funcionavam como núcleos autônomos, sem comunicação e sem coordenação central. Na prática, a cidade teve vários “mini-prefeitos” tocando agendas próprias, o que criou um vício institucional difícil de ser revertido — e que foi herdado por Mabel.
A crise atual mostra que esse padrão ainda persiste. De um lado, vereadores que cobram o que se convencionou chamar de “espaço” — cargos e domínio sobre fatias do orçamento. De outro, um Executivo que, mesmo com respaldo eleitoral precisa fazer concessões para garantir governabilidade. Ambos os lados têm argumentos legítimos, mas ambos também erram ao reproduzir um modelo que privilegia a barganha em vez de um projeto de cidade baseado em planejamento e interesse público.
O problema de fundo está no fato de termos um Legislativo com grande capacidade de interferência na máquina pública, mas sem responsabilização institucional proporcional. São os vereadores que, muitas vezes, travam ou destravam a execução orçamentária, pressionam por nomeações e influenciam diretamente na agenda de governo. Contudo, não são cobrados diretamente pela sociedade pelos resultados dessas intervenções. Quem responde pelo sucesso ou fracasso da administração é sempre o prefeito.
É por isso que precisamos, com urgência, de uma reforma política de verdade, que vá além da disputa eleitoral e rediscuta o próprio modelo de funcionamento dos Poderes. O Legislativo deve seguir forte, com seu papel de fiscalização, produção de leis e interlocução com a população. Mas a execução das políticas públicas e a definição estratégica do orçamento precisam ser, de forma clara, responsabilidade do Executivo.
Sem isso, o planejamento público continuará sendo um exercício quase impossível. A governabilidade dependerá sempre de acordos circunstanciais, muitas vezes opacos e instáveis. Goiânia, infelizmente, tem sido um laboratório disso: vimos com Rogério Cruz um governo diluído, sem comando unificado e com baixa efetividade na entrega de políticas públicas. E agora, mesmo com a experiência e o preparo de Sandro Mabel, vemos que a estrutura do sistema é maior do que a competência individual dos gestores.
Isso não invalida o papel da Câmara. Muito pelo contrário: é fundamental que o Legislativo municipal siga atuando com seriedade, propondo boas leis, fiscalizando com responsabilidade e estando presente no cotidiano da população. Mas é preciso respeitar os limites institucionais de cada Poder, ou continuaremos a transformar a administração pública em uma arena de disputas constantes por influência e controle.
Para que a política volte a cumprir seu papel de ferramenta de transformação social — e não apenas um campo de batalhas entre grupos —, é preciso redesenhar as regras do jogo. Uma reforma política séria deve esclarecer quem governa, quem fiscaliza, quem executa e quem responde por cada decisão. Isso vale para o país, para os estados e, com certeza, para Goiânia.
Sem essa reforma, seguiremos assistindo a crises como a atual: em que todos têm um pouco de razão, mas ninguém consegue governar de fato.
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