A política brasileira tem um hábito perigoso: aprender pouco com os próprios erros. A recente aprovação do projeto de dosimetria no Senado Federal reacende memórias incômodas de um passado não tão distante — aquele em que “acordões” costurados nos bastidores foram apresentados como soluções institucionais, mas terminaram empurrando o país para o abismo.
Durante a Operação Lava Jato, veio a público o áudio do então senador Romero Jucá. Nele, Jucá falava com clareza desconcertante sobre a necessidade de um “acórdão com o Supremo, com tudo”, para estancar as investigações e proteger políticos e lobistas. A lógica era simples, cínica e devastadora: sacrifica-se Dilma Rousseff, entrega-se a cabeça da presidente, e salva-se o resto do sistema.
O resultado desse grande acordo informal é conhecido. Não houve pacificação institucional, nem estabilidade. Pelo contrário: a implosão do sistema político abriu caminho para o caos, para a radicalização e, por fim, para a ascensão de Jair Bolsonaro ao Planalto. Foi um período terrível para o país, cujas consequências ainda estamos pagando.
Ontem, por uma ironia do destino — ou talvez não — eu estava no Senado Federal exatamente no dia em que se votou o projeto da dosimetria. Um projeto que, na prática, abre margem para que Jair Bolsonaro e o núcleo duro da tentativa de golpe de Estado possam se reorganizar politicamente. A sensação era inequívoca: um novo acordão estava sendo gestado.
O clima no Senado era sombrio. Pouca gente circulando. Corredores vazios. Salas fechadas. Conversas em tom baixo, muitos murmúrios. Nada de debate público robusto, nada de transparência. O que se comentava, nos bastidores, era a existência de um acordo envolvendo oposição, governo e até ministros do Supremo Tribunal Federal.
A engenharia política desse acordo seria a seguinte: a oposição consegue a aprovação da dosimetria; o governo emplaca a taxação das bets e dos super-ricos; destravam-se recursos para o orçamento federal; e, como moeda de troca silenciosa, alivia-se o caminho jurídico e político para Jair Bolsonaro. Pronto. Tudo “em casa”.
Mas a política brasileira nunca para no primeiro movimento. Pela lógica dessa estratégia, os próximos passos já estão desenhados: aprovação do projeto de anistia, envio ao Palácio do Planalto, veto do presidente Lula, retorno ao Congresso e, muito provavelmente, derrubada do veto. Em seguida, o tema desembarca no Supremo Tribunal Federal, que será chamado a decidir: a anistia é ou não constitucional?
Trata-se de um jogo complexo, bilionário e extremamente perigoso para a democracia. Democracia não se negocia. A democracia brasileira custou vidas, custou dor, custou sofrimento. Ela não pode ser tratada como ficha de barganha em acordos de ocasião.
É possível — e até necessário — reconhecer que muitos dos que foram usados como massa de manobra pelo núcleo duro da tentativa de golpe sequer tinham plena consciência do que estavam fazendo. Também é legítimo discutir se algumas penas aplicadas pelo Supremo poderiam ter sido melhor dosadas, caso a caso. O que não é aceitável é transformar essa discussão legítima em um projeto nacional de anistia aprovado pelo Congresso.
Isso é demais. Isso ultrapassa todos os limites.
O que o Brasil precisa, com urgência, é de uma reforma política ampla, geral e irrestrita — que enfrente o financiamento do poder, a lógica do toma-lá-dá-cá e a captura das instituições. O que o país não precisa é de uma anistia para golpistas travestida de ajuste técnico.
A história já nos mostrou onde esse caminho termina. Ignorá-la, agora, é escolher repetir o erro.
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