Ronaldo Vieira Bento comandou a pasta que regulamentou o consignado do Auxílio Brasil e, após deixar o governo, assumiu cargos em empresas do conglomerado de Daniel Vorcaro
O ex-ministro da Cidadania do governo Jair Bolsonaro, Ronaldo Vieira Bento, e empresas ligadas a ele receberam R$ 11 milhões diretamente do Banco Master nos últimos dois anos. A informação foi revelada pelo Intercept Brasil nesta terça-feira (16) .
Os dados constam na declaração de Imposto de Renda do Banco Master enviada pela Receita Federal à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado do Senado. A análise mostra que as conexões da instituição financeira com a extrema direita vão além do filme Dark Horse .
Dos R$ 11 milhões transferidos, R$ 773,3 mil foram pagos diretamente ao ex-ministro como pessoa física. O restante foi direcionado para empresas em que ele era administrador ou com as quais mantinha ligação societária. A Meta Consultoria, da qual Bento é sócio, recebeu R$ 6,2 milhões em 2025 .
Ronaldo Bento foi ministro da Cidadania entre março e dezembro de 2022. Durante sua gestão, ele regulamentou e operacionalizou os empréstimos consignados vinculados ao Auxílio Brasil, programa que substituiu o Bolsa Família na época. Um relatório da Controladoria-Geral da União (CGU) identificou R$ 8,4 milhões em descontos indevidos do Auxílio Brasil entre novembro de 2022 e março de 2023. Segundo o documento, 93% dos contratos foram firmados em outubro de 2022, durante a gestão de Bento .
Após deixar o governo, Bento assumiu cargos no setor privado diretamente ligados ao Banco Master. Ele foi diretor-presidente do Banco Pleno, antigo Banco Voiter comprado pelo Master em fevereiro de 2024, e administrador da Mettacard Administradora de Cartões, empresa licenciada pelo Master que oferecia cartões de benefícios consignados para servidores públicos, aposentados e pensionistas .
O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Pleno em fevereiro de 2026 por comprometimento financeiro e deterioração de liquidez. Entre as medidas adotadas, foi determinada a indisponibilidade dos bens de Ronaldo Vieira Bento, além de controladores e outros ex-administradores do banco .
Convergência de interesses
Bento chegou a ser mencionado em duas comissões parlamentares de inquérito: a CPMI do INSS e a CPI do Crime Organizado. Requerimentos para investigá-lo, no entanto, nunca foram para frente. O deputado Rogério Correia (PT-MG) apresentou pedido de convocação de Bento na CPMI do INSS, mas a mesa diretora sequer colocou o pedido na pauta. Na CPI do Crime Organizado, o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP) chegou a aprovar um requerimento para ouvir o ex-ministro, mas a comissão acabou sem ouvi-lo e sem aprovar o relatório final .
O Intercept entrou em contato com Ronaldo Vieira Bento. Em nota, sua assessoria informou que os pagamentos mencionados pela reportagem se referem à remuneração do trabalho do ex-ministro na assessoria da instituição financeira. “A remuneração, devidamente declarada ao fisco, é compatível com os valores do mercado. Não há qualquer irregularidade nas operações citadas”, disse a nota.
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