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Goiás aposta em biogás, data centers e mineração para nova fase de crescimento


Lucas de Godoi Por Lucas de Godoi em 14/03/2026 - 18:00

Erik Figueiredo - Foto Washigton Costa
"Goiás vai ser mais um estado a considerar o peso real do agro na economia", afirma diretor-executivo do IMB

O Instituto Mauro Borges (IMB) passou por uma transformação nos últimos anos e ampliou seu papel na formulação de políticas públicas em Goiás.

Em entrevista, o diretor-executivo Erik Figueiredo afirma que o órgão deixou de ser apenas um centro de estudos para se tornar um espaço estratégico de elaboração de políticas voltadas ao desenvolvimento econômico e social do estado.

Entre os projetos em andamento, estão iniciativas voltadas à liberdade econômica, ao mapeamento do subsolo goiano, à produção de biogás e à atração de data centers movidos a energia limpa. Segundo Figueiredo, Goiás vive um momento de crescimento acima da média nacional e busca consolidar novas frentes de desenvolvimento para os próximos anos.

 

Andréia Bahia e Lucas de Godoi

TRIBUNA DO PLANALTO

O Instituto Mauro Borges (IMB) atua em várias áreas. Como o senhor definiria o papel do Instituto hoje?

ERIK FIGUEIREDO

O Instituto, até 2023, era um locus de informações, de estudos direcionados e, com a minha chegada, a ideia era transformar o Instituto em algo mais voltado para elaboração de política pública. Nós avançamos nesse sentido nos últimos anos, tanto que o próprio nome mudou – Instituto de Pesquisa e Políticas Públicas, porque começamos a fazer não só a análise da política pública, de avaliação; começamos  também a construir a política pública.. 

Entre os estudos mais recentes do Instituto, quais o senhor destacaria como mais relevantes?

A Lei de Liberdade Econômica, que transformou Goiás no estado mais livre do Brasil, foi totalmente elaborada, analisada, tudo dentro do Instituto Mauro Borges. Eu classificaria como um marco relevante do Instituto nessa nova função de elaboração de política pública, tanto que ela avançou para Goiás Mais Livre, que é justamente o Instituto como um locus para receber as demandas da iniciativa privada e dar seguimento a essas demandas, caso necessário, com alteração de leis, decretos, portarias. A Lei da Liberdade Econômica, que abriu espaço para o decreto Goiás Mais Livre, é o mais relevante do Instituto até o momento. 

Qual é o corpo técnico do Instituto e com qual estrutura o senhor conta? 

A estrutura do instituto é relativamente enxuta. Se fizer uma comparação, teria uma estrutura parecida a uma subsecretaria. Temos hoje duas assessorias, três superintendências de áreas específicas: macroeconomia, que avalia questões macroeconômicas, cálculo do PIB, estudos nesse sentido e políticas também; trabalho e agro em uma área só – para notar como é enxuta – a gente coloca trabalho, agro, social tudo em uma superintendência; e uma superintendência voltada para a georreferenciamento. O Instituto é responsável por referenciar os limites municipais e as fronteiras do estado. Temos hoje uma ação no STF relacionada à fronteira do Tocantins e essa ação foi fundamentada por um estudo do Instituto Mauro Borges. Fomos lá, fizemos a investigação in loco e verificamos que houve uma confusão dos organismos municipais, trocando nome de córregos e rios, o que alterou o entendimento do IBGE e do Exército Brasileiro. Eu daria um destaque especial para essa área, porque é uma área que está nos colocando na discussão nacional 

Quais são as oportunidades naquela região para além do território? 

Eu gosto de pensar o mecanismo de desenvolvimento de uma forma muito individualizada. O modelo para a região Nordeste é diferente para o Vale do Araguaia, que é diferente para o Sudeste Goiano. Aquela região tem um potencial muito grande de ganhos ambientais, de projetos de recuperação ambientais que possam gerar, por exemplo, crédito de carbono. Tem uma caracterização muito clara daquela região com essa vocação, e descendo um pouquinho mais temos também vários projetos de mineração em Nova Roma. 

Naquela região não tem mapeamento de terras raras?

Nós desenvolvemos não só a ideia, mas também todo o contato com empresas capazes de fazer isso, que nós desenvolvemos aqui o projeto de mapeamento do subsolo de Goiás. As empresas especializadas são todas internacionais, fazem o mapeamento via aviões específicos com sonares e conseguem fazer o mapeamento não só voltado para minerais, mas também água, térmicas. Vamos conseguir fazer o mapeamento 100% do subsolo de Goiás, revelando toda a riqueza, todo o capital natural presente no subsolo. É um projeto que segue os padrões do que foi feito na Austrália, e transformou a Austrália em uma potência da mineração. A gente tem também interesse na área de energia, não só mineração, como também de irrigação. Esse projeto pode ser completamente financiado – financiado não é dinheiro emprestado – totalmente pago a partir dos nossos acordos internacionais, como por exemplo, o acordo assinado com o Japão. O instituto apresentou aos japoneses e eles disseram que é uma excelente ideia e o talvez Goiás vá se tornar o estado com 100% do mapeamento do subsolo. 

Vai começar quando? Há uma possibilidade para este ano? 

O primeiro passo foi assinar o acordo. Nós já temos um instrumento para captação desse dinheiro, que é um fundo voltado especificamente para mineração. Eu acredito que a partir do aporte vai ser algo muito rápido, porque embora esteja falando do mapeamento do estado inteiro, esse mapeamento é feito por etapas; em cada pedaço do estado, em cada região vai ter um mapeamento específico: um mais voltado para mineração, outro para térmicas ou para água subterrânea. Acredito que, a partir do aporte, o projeto possa vir a acontecer até o final do ano. 

A partir dos dados do instituto, dá para traçar um perfil de economia e da sociedade goiana?

O que eu vejo hoje: temos um agro muito forte, e vou te dar essa informação em primeira mão, estamos lançando o PIB do agronegócio, porque nas contas oficiais do IBGE, agro é produto primário. Eu colhi uma saca de soja, isso é agro. Se eu esmago a soja e faço óleo de soja, já não entra mais como agro. Mas continua sendo agro. É a agroindústria. Com o PIB do agronegócio, vamos conseguir identificar não só o agro, mas toda cadeia que dá suporte ao agro, de serviços, de transformação. Com isso, vamos ter uma ideia da dimensão do agro na economia goiana. Esse produto o Mauro Borges vai lançar nas próximas duas semanas. No Brasil, temos uma estimativa do agronegócio que é feita pela USP Ribeirão Preto e temos também uma estimativa para Minas Gerais. Goiás vai ser mais um estado a considerar o peso real do agro na economia. E eu já adianto, não vou soltar um  número exato, mas é algo próximo a 40% da nossa economia. A grande preocupação é que o agro tenha uma cadeia mais longa, mais beneficiamento dentro do estado, assim como a mineração, que não seja só o produto mineral bruto, mas que tenha alguma etapa de beneficiamento da mineração, inclusive entre as áreas. 

Nesses acordos, há a previsão de beneficiamento de parte desse material em Goiás?

Prevê que iniciemos a pesquisa, porque não é uma tecnologia que se domina do dia pra noite. A gente precisa iniciar esse processo, mas não significa que amanhã já vamos nos beneficiar. Na área de minerais raros, só alguns países do mundo têm a capacidade de fazer separação e depois de seguir na cadeia produtiva. A ideia é: a operação vai começar e vamos começar também um processo para  modernizar essa operação dentro do estado, mas é algo para médio prazo, não é uma coisa de imediato. Mas tem que iniciar um dia. O relatório que levantou essa potencialidade foi do Instituto Mauro Borges, que é o Atlas do Biogás em Goiás. Goiás tem o segundo maior potencial de produção de biogás do Brasil, só perde para São Paulo, empata com Paraná, mas em termos de potencial, Goiás é o segundo ou terceiro maior potencial do Brasil. E não produzimos nada de biogás, temos só o potencial. Esse é um mercado que está começando em Goiás, que não produzia biogás porque não tinha ninguém para comprar, e ninguém comprava  biogás porque não tinha ninguém ofertando. Nunca fechava essa equação. Ao chegar no projeto dos ônibus, no lugar de comprar ônibus elétricos, compramos ônibus a biogás, gerando uma demanda por biogás. Ao fazer isso, houve uma corrida para produzir biogás e essa corrida foi vencida por uma empresa que vai se instalar no município de Guapó e fornecer para o sistema de transporte público da grande Goiânia. O transporte desse biogás ou biometano da cidade de Guapó para Goiânia será inicialmente, nas etapas iniciais e com o volume é menor, via caminhões, mas quando o projeto for completo, 120 mil metros cúbicos-dia, a Goiás Gás vai construir o primeiro duto de gás do estado de Goiás, ligando Guapó a Goiânia. Assim já estamos transformando o produto: tem o potencial e agora a capacidade de consumir esse potencial dentro de uma agenda ambiental muito bem delimitada. Por conta desse projeto, o governador Ronaldo Caiado fez com que eu acumulasse o cargo no Instituto Mauro Borges junto com o de presidente da Goiás Gás, hoje eu sou diretor executivo e presidente da Goiás Gás. Esse vai ser o primeiro contrato da empresa de gás no estado. Nós temos aqui mapeado para acontecer até o final do ano quatro data centers em Goiás. 

Há uma preocupação ambiental global em relação ao consumo de água dos data centers. Como conciliar essa oportunidade com sustentabilidade? 

O Brasil tem essa capacidade de se autossabotar em algumas agendas. O mundo inteiro fala em exportação de energia limpa, e como se exportar energia limpa? Trago atividades que consomem energia em maior volume para o Brasil. A partir desse momento estou exportando energia limpa porque produzindo no Brasil uma atividade com alto consumo de energia. Essa discussão do data center é uma realidade, ela vai acontecer. O mundo tem um consumo de dados muito grande e não tem como ficar armazenando suas informações de dados apenas em servidores no exterior. Muitos servidores estão vindo para cá. 

Onde serão instalados esses data centers? 

Três deles eu não posso falar por força contratual, mas um deles vai ser o primeiro data center de Inteligência Artificial do mundo, 100% a biogás, e vai ser instalado nas proximidades de Goiânia, porque vai ser conectado ao Centro de Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás. Ele não vai ser só um data center de serviço, vai ser um locus de aprendizado. Os alunos vão poder ter acesso a esse data center, que vai ser modelo, porque além de ser o primeiro data center de Inteligência Artificial do mundo a biogás vai ter uma conexão com a academia, formando novas pessoas. Esse é um projeto ambicioso que já está na fase de projeto executivo e vai ser anunciado nos próximos meses.  A única característica que vai atrair data center para Goiás é a energia limpa.  Em Goiás, está construído, a partir do projeto Goiás de Fibra, uma estrutura de primeiro mundo de transmissão e de disponibilidade de fibra óptica, e com a energia limpa estamos criando um ambiente para atrair esses investimentos.

Goiás encerrou 2025 com um salto de 20% nas exportações em relação a 2024. A que se deve esse resultado? O tarifaço do governo Trump não teve efeitos no estado? 

Teve efeitos bem localizados, por exemplo, açúcar orgânico: duas empresas de Goiás exportavam açúcar orgânico para o mercado dos Estados Unidos. É um produto muito específico, um nicho, mas quase toda a produção para os Estados Unidos, e o tarifaço meio que inviabilizou a exportação de açúcar orgânico dessas empresas porque elas têm um competidor muito forte no mercado, que é a Colômbia.  Qualquer variação de preço faz com que você perca mercado e isso foi um choque realmente para esse setor específico. Mas no geral, os Estados Unidos não é um dos maiores parceiros de Goiás na balança comercial. Sentimos um impacto moderado do tarifaço na nossa economia, mesmo assim, dado do Banco Central – o PIB calculado pelo IMB ainda não ficou pronto, vai ficar pronto nos próximos 30 dias – que faz o cálculo da atividade econômica, mostrou que Goiás em 2025 foi estado com maior crescimento do Brasil, empatado com o Estado do Pará. O dado do Banco Central não é setorizado, mas dado o nosso acompanhamento interno, temos um efeito muito forte do agro nesse crescimento e isso foi para o Brasil. O Brasil cresceu pouco esse ano, 2,4%, e se retirar o agro dessa conta, esse crescimento cai para casa de 1%, para ver a importância do agro, que cresceu dois dígitos. Goiás está em um momento de crescimento muito forte, consecutivo, vários anos com crescimento elevado.

A que se deve esse crescimento acima da média? 

Uma característica da população e do empresariado. No setor da indústria, por exemplo, há uma presença muito forte da indústria ligada ao agronegócio, e é um setor que vai continuar prosperando porque está se observando o crescimento muito forte não só da renda mundial como também da população mundial. Há uma pressão muito forte por alimento, portanto é um mercado difícil de entrar em crise. Goiás tem uma característica não só do agro e da indústria ligada ao agro, mas tem uma dinâmica própria diferente do resto do Brasil. Uma população com uma formalização elevadíssima, tem um estoque de empregos de quase 3 milhões de pessoas, é um uma força da natureza. O estado de Goiás, com o incentivo correto e com uma política correta, segue crescendo e seguirá crescendo nos próximos anos.  

A escalada de violência e conflitos no Oriente Médio afeta Goiás? 

As maiores preocupações são com o preço do diesel na safra, quando o consumo de diesel é muito forte e, no período de plantio, com os fertilizantes. O Brasil ainda é muito dependente de fertilizante importado e do diesel importado, e qualquer tensão em específico no Oriente Médio faz com que o barril do petróleo – agora já passando US$ 120 dólares –  tenha uma elevação no preço do diesel e impacta o agricultor. Isso mostra como o setor agro é forte e resiliente, mas também é muito exposto a flutuações internacionais, além do clima, que é algo que não se controla, você ainda tem as situações internacionais e um conflito que também não se controla. O agro está sofrendo com o cenário internacional e além de questões meramente internas, como a taxa de juros de 15% e o crédito minguando. É muito  preocupante ficar acompanhando esse cenário internacional e tentar se proteger tendo mecanismos limitados. O estado não tem tantos instrumentos de política pública quanto o governo federal. Então fica meio que no barco do governo federal. 

A falta de mão de obra especializada é um componente negativo para o desenvolvimento do Estado? 

A nossa preocupação com crescimento acelerado é realmente se vamos ter oferta de mão de obra para atender a esse crescimento de demanda. E quem pode suprir esse mercado de trabalho são aquelas pessoas que estão desocupadas e que não têm qualificação, mas que podem se qualificar para entrar no mercado de trabalho. As duas pontas do mercado de trabalho que têm as maiores taxas de desemprego são as pessoas mais idosas e as pessoas mais jovens. De certa forma, temos que atuar nessas duas pontas e Goiás, na última década, atraiu muita gente de fora. Se fizer um paralelo com os Estados Unidos – o sucesso de um Estado reflete na quantidade de pessoas que estão morando – e se a gente aplica a mesma lógica, Goiás é um sucesso no Brasil, porque no último censo mostrou que é o segundo Estado com maior atração populacional no Brasil. 

Há muitas vagas, mas também há desemprego. Há um desalinhamento entre a expectativa do trabalhador e a oferta do mercado de trabalho? E como que o senhor avalia a proposta do fim da escala 6×1? 

Existe um descasamento, até do nosso sistema educacional no mercado de trabalho. O mercado de trabalho está mudando o tempo inteiro. As empresas têm necessidades muito específicas, e essas necessidades vão mudando, e nosso sistema educacional tem que se adequar. Nesse ponto o estado de Goiás tem um trabalho excelente da Fieg na formação de pessoas em cursos específicos para para aquela vaga em especial. Em relação ao fim da  escala 6 por 1, eu sou a favor da flexibilidade no mercado de trabalho, não gosto dessa estrutura de obrigação porque tenho uma visão mais liberal. Sei que o mercado de trabalho funcionaria melhor sem tantas amarras. Quando se pega o custo Brasil, o maior componente do custo Brasil hoje é empregar pessoas, tanto pela questão tributária – a cada pessoa que eu emprego pago um salário e ainda tem impostos, direitos, e eu pago um outro salário para cobrir essa pessoa – o trabalhador tem um custo de dois na formalização. E quanto mais custo, quanto mais exigência se faz no mercado de trabalho mais informalidade se tem. Muitas pessoas descobriram que podem ser melhor remuneradas sem tantas formalizações. Por isso que a informalidade no Brasil bate 38%. Em Goiás é menor. As pessoas não se formalizam porque é caro se formalizar.Temos que discutir o mercado de trabalho sob essa visão de que ele precisa de mais flexibilidade. Hoje você tem pessoas trabalhando na frente de um computador e por mais que possa ser frustrado por não conseguir o que ele pensa, é muito difícil convencer um jovem a ganhar um salário mínimo no setor formal. Ele  prefere ser um tiktoker, conseguir essa renda sem sair de casa, gravando vídeo;  pode trabalhar com programação, e a cada dia tem mais pessoas trabalhando com programação sem formação de programador, autodidatas. Tem pessoas no Brasil  trabalhando para empresas internacionais e ganhando em dólar.  O mercado de trabalho não está acompanhando a dinâmica do mercado mundial.

O governador Ronaldo Caiado é um dos principais críticos da reforma tributária. Em que pontos essa reforma pode prejudicar Goiás? 

A primeira alíquota calculada da reforma tributária foi feita pelo IMB e colocamos uma calculadora da alíquota do IVA na internet para que pudesse ser reproduzido. O senador Eduardo Braga disse, quando o texto foi para o Senado, que só volta o texto com a alíquota calculada, porque o ministro Fernando Haddad disse que era impossível calcular, mas tem um instituto em Goiás que já calculou. Ou ele chega com alíquota para mim ou não tem votação. E foi nesse momento que mobilizaram a Receita Federal e o TCU e foi calculada uma alíquota oficial do governo. Nós estivemos presentes nessa discussão o tempo inteiro. De uma forma bem resumida, Goiás é um estado produtor, não é um estado consumidor, ou seja, o mercado consumidor de Goiás é menor do que o mercado produtor. Em termos de arrecadação, ele perderá, porque a arrecadação vai ser no consumo e não na  produção. No Brasil, existem duas indústrias, a indústria do litoral, que é o Sul e o Sudeste, e a indústria do interior do Brasil. A indústria do interior do Brasil sobrevive porque tem condições tributárias melhores do que a do litoral. A gente estava brigando contra a reforma, mas ao mesmo tempo pensando em como preservar as empresas em Goiás. Nós criamos no Instituto o mapeamento dos setores potenciais que continuarão em Goiás, independentemente da reforma ou não. E começamos a investir muito pesado na atração desses investimentos. O data center foi um deles e o biogás é o principal. Estamos tentando nos adequar à reforma tributária, mas deixando claro que mais de 60 anos de desenvolvimento regional vão ser jogados no lixo. Colocar uma alíquota única é igualar o Brasil, enquanto o Brasil é desigual, está igualando as exigências em um país desigual. 

Os programas de incentivos fiscais geraram o número de empregos prometido? Houve cumprimento de metas? 

O problema dos benefícios fiscais é o ajuste na relação entre os estados. Mas é totalmente normal que um estado queira, porque não tem infraestrutura, não tem capital, é distante do mercado consumidor ou dos portos, ofertar para o empresário uma alíquota menor. Como eu sou um liberal e para mim menos imposto é sempre o ideal, menos benefício fiscal é adição do imposto. Nós temos um estudo feito junto com a Adial Brasil mostrando o efeito do benefício fiscal ao longo dos anos no Brasil e como o benefício fiscal foi importante para que a industrialização chegasse no interior do Brasil. Nós estamos em etapa de desenvolver um estudo mostrando o efeito sobre o emprego. A conta das Secretaria de Economia, Secretaria de Fazenda é uma conta que eu discordo. Ela diz o seguinte: o imposto era para ser 18%, eu estou dando benefício fiscal de 7%, então estou perdendo 11%. A  pergunta é: se o imposto fosse 18% essa fábrica que está arrecadando 7% estaria aí? 

O governo trabalha com a perspectiva de que essas empresas que foram atraídas pelos incentivos fiscais deixem o Estado? 

Não, por causa do custo do Brasil. A nossa abordagem, nós somos pioneiros no Brasil nisso, foi convencer o governador que o custo Brasil não é um problema do ente federal, tem também um componente do Estado. Nós entregamos um relatório mostrando quantos por cento do custo Brasil podem ser reduzidos via política do Estado de Goiás, e montamos uma estratégia de redução do custo Brasil. O programa Goiás Mais Livre é uma iniciativa de redução do custo Brasil. 

Deve reduzir o “custo Goiás” em qual percentual?

O custo Goiás é 3 pontos porcentuais abaixo do custo Brasil. Mas é muito difícil enxergar isso assim, e essa vai ser a única ferramenta de política pública que vai restar. Não tem mais o ICMS para baixar. A estratégia de desenvolvimento no estado vai se dar dentro de um órgão de desenvolvimento que hoje é o IMB. Só que  essa política é difícil porque o brasileiro se acostumou a pagar caro, se acostumou com a burocracia, ele não enxerga o custo. Se você chegar a um produtor em uma cidade isolada com estrada horrível e disser qual o custo de produção lá, ele vai dizer que paga 18% de imposto, mas ele não coloca o custo da estrada ruim, que faz com que o frete seja mais caro. Para ele a estrada ruim faz parte, é o Brasil. Se eu digo que se pavimentar a estrada vai reduzir o frete em tantos reais por quilômetro, o imposto vai deixar de importar para você. Você vai ter mais dinheiro porque vai reduzir o custo do frete, de manutenção do caminhão, o tempo do seu produto chegar no mercado consumidor.  É muito mais difícil enxergar isso, por isso que para reduzir o custo Brasil tem-se que educar o empresário e as pessoas de que esse é o caminho. Nós publicamos o custo Brasil em Goiás, tem um relatório publicado com as políticas que podem afetar esse custo. Se você for um empresário com problema com o alvará dos bombeiros, que tem que ser renovado todos os anos e o ideal é que fosse de três em três anos, vamos procurar o Corpo de Bombeiros e  discutir se isso é possível. Tecnicamente afeta alguma questão de segurança, tem como ter uma uma uma renovação tácita, tem como fazer a inspeção online? Esse tipo de coisa melhora o ambiente de negócio, mas geralmente o empresário não enxerga isso porque não está no balanço. 

Como está a questão energética hoje em Goiás? 

Nós temos um déficit de oferta de energia muito forte, em especial no Vale do Araguaia, Nova Crixás, Crixás, São José do Araguaia, essa região, se tivesse oferta de energia, cresceria muito mais do que está crescendo. Essa é a nossa nova fronteira de produção em Goiás. A participação dessa região na produção total de grãos ainda é pequena, mas ela vem crescendo a uma taxa de 25% a 30% durante anos seguidos. Daqui a 10 anos essa região vai representar muito mais do que representa hoje, mas ela tem um limite: a oferta de energia. Várias fazendas usam pivô de irrigação a diesel, o que torna mais caro e ambientalmente não é recomendado. Mas é algo que foge do controle do estado porque é papel da Equatorial levar energia para essa região, não tem como interferir nisso. 

O Instituto acompanha também indicadores de pobreza e desigualdade. Qual a origem da pobreza e da desigualdade social em Goiás? 

Goiás, embora tenha uma dinâmica econômica própria, está dentro de um país com uma das maiores desigualdades do mundo. O Brasil é top 10 em desigualdade de renda, e é evidente que isso respinga no estado, embora tenhamos uma dinâmica de desigualdade totalmente diferente do restante do país, O Brasil tem 96 milhões de pessoas, quase a metade da população, inscrita no Cadastro Único, e se está no Cadastro Único não tem emprego formal, tem renda baixa e está em condição de vulnerabilidade. O Brasil tem um contingente de pobreza muito alto, e Goiás tem  um diferencial nesse sentido, desenvolveu uma rede de proteção própria do Estado para o combate à pobreza. Muitos estados não têm políticas próprias de combate à pobreza, delega tudo para o governo federal. Goiás optou por desenvolver políticas próprias para proteção das pessoas mais pobres, mas não voltado para o assistencialismo puro, voltado para a inclusão produtiva. O Brasil precisa discutir inclusão produtiva. Conceitualmente, o programa social dá proteção para você e sua família enquanto você se qualifica ou encontra um emprego para que você não morra de fome, mas no Brasil isso vai se perpetuando. Tem duas ou três gerações de pessoas no Bolsa Família, e isso não é um indicador de sucesso, é um indicador de fracasso do programa. Ele deveria dar proteção social, cuidar para qualificação, e se essa qualificação necessitar de algo mais para que você ingresse no mercado de trabalho, também dá acesso ao crédito barato para que aquela pessoa adquira os equipamentos necessários para que ela possa atuar no mercado de trabalho. Aí se tem o ciclo completo e se coloca mais uma pessoa no mercado de trabalho. Fizemos um acompanhamento a partir de dados identificados a partir do CPF das pessoas e, em Goiás, a cada duas pessoas que saem da pobreza, uma delas – ou seja, 50% – sai por via do mercado de trabalho ou abriu o próprio negócio ou se formalizou, se tornou MEI ou foi contratada com carteira assinada Isso é um indicador muito importante. As pessoas têm receio de falar sobre isso porque, uma palavra colocada errada, vão dizer que você é contra o programa, não é a favor da proteção dos mais pobres; pelo contrário, queremos que as pessoas saiam da pobreza a partir da prosperidade e não do assistencialismo 

Quais políticas públicas de Goiás têm sido eficientes para emancipar essas pessoas? 

Vou destacar Mães de  Goiás e Aluguel Social, são programas muito importantes na proteção em específico. E tem toda a conexão com a Secretaria da Retomada na  qualificação dessas pessoas. É aquela política micro, que qualifica a pessoa e traz essas pessoas que estão no Cadastro Único para que elas estudem, aprendam, tenham tranquilidade de passar o dia numa qualificação sabendo que tem casa e sua família vai ter alimento. E o crédito social para que você adquira os equipamentos. A integração desses programas é muito importante. Estruturalmente tem também o Bolsa Escola, que faz com que o indivíduo fique na escola, se qualificando. Ainda há um esforço no sentido de avaliar corretamente o resultado desses programas, porque a política pública tem a etapa da identificação do problema, da elaboração da política em específico, inclusive da questão orçamentária, e depois da avaliação, porque todos esses programas são financiados com dinheiro público.  Nós criamos o conselho de avaliação de políticas públicas, no qual o IMB desenvolve essa avaliação e entrega para o conselho para que o conselho divulgue para a sociedade se o dinheiro está sendo bem gasto ou não.

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