O Brasil tem atualmente mais de 11 milhões de mães que criam os filhos sozinhas. Esse número supera a população total de Portugal, estimada em cerca de 10,8 milhões de pessoas.
Os dados são do Instituto Brasileiro de Economia e mostram um crescimento expressivo na última década. Entre 2012 e 2022, o país ganhou 1,7 milhão de novas mães solo, passando de 9,6 milhões para 11,3 milhões.
Além disso, 72,4% dessas mulheres vivem em domicílios monoparentais. Isso significa que moram apenas com os filhos, sem outros familiares que possam ajudar nas responsabilidades diárias.
Perfil e desigualdades
A maioria das mães solo no Brasil é negra. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE, de 2022, mostram que 60% dessas mulheres se autodeclaram pretas ou pardas.
Quase 15% dos lares brasileiros são chefiados por mães solo, com maior concentração nas regiões Norte e Nordeste . Em 2022, as mulheres se tornaram responsáveis por 52% dos domicílios do país, e nos lares monoparentais a chefia feminina chega a 92%.
A pesquisadora Mariene Ramos, que estudou o mercado de trabalho das mães solo em seu mestrado no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), aponta que essas mulheres enfrentam uma combinação de desigualdades de gênero, raça e renda.
Menor renda e trabalho precário
O estudo de Mariene, baseado em dados da Pnad Contínua de 2022, revelou que as mães solo têm o menor rendimento médio entre todos os arranjos familiares. O salário médio é de R$ 2.322 mensais .
Esse valor é cerca de 40% menor do que o dos pais com cônjuge (R$ 3.869) e 11,5% inferior ao das mães que vivem com parceiros (R$ 2.625). A diferença salarial chega a 43,3% mesmo quando comparadas a pessoas com mesma escolaridade e idade.
A pesquisa também mostrou que 21,9% das mães solo trabalham como empregadas domésticas. Esse número é quase 27 vezes maior que o dos pais acompanhados (0,8%) e superior ao das mães com cônjuge (11,8%).
Além disso, apenas 28,3% das mães solo contribuem para a Previdência Social. O percentual é significativamente inferior ao dos pais com cônjuge (54,8%) e também menor que o das mães com cônjuge (34,7%).
Sobrecarga e pressão social
O termo “solo” não se refere apenas à ausência de companheiro. Ele abrange a totalidade das responsabilidades que recaem exclusivamente sobre os ombros da mãe. A sobrecarga é intensificada pela falta de divisão das tarefas.
Muitas dessas mulheres vivem o que especialistas chamam de “geração sanduíche”. Cerca de 33,5% das mães solo residem em domicílios com pessoas acima de 60 anos.
“Esses idosos podem representar uma rede de apoio, mas também podem precisar da ajuda dessa mãe. Muitas delas vivem uma jornada dupla ou tripla de cuidado”, explica a pesquisadora Mariene Ramos à BBC Brasil.
Além da sobrecarga financeira e doméstica, as mães solo enfrentam pressão social. Ser mãe solo ainda é estigmatizado, o que gera julgamentos e, muitas vezes, isolamento.
“Quando me separei, uma amiga, casada, me contou que o marido havia falado que não achava ‘legal’ ela continuar a amizade, uma vez que eu estava solteira. Parece que você fica com carimbo”, relata Iara Pereira de Andrade, mãe solo de 46 anos, à Deutsche Welle.
Barreiras no mercado de trabalho
Na busca por emprego, as mães solo enfrentam perguntas que não são feitas a outros candidatos. Questionamentos como “com quem seus filhos vão ficar enquanto você trabalha?” ou “quando a criança fica doente, quem cuida?” são comuns em processos seletivos.
Mesmo com formação e experiência, essas mulheres muitas vezes têm seus currículos deixados de lado. O foco das entrevistas se desloca para a situação familiar.
“Durante um processo seletivo, a pessoa me perguntou quem levaria minha filha ao médico, já que sou divorciada. Na hora eu fiquei impactada. Quando você pensa que vai ter que escolher entre o trabalho e o seu filho, é uma questão muito delicada”, conta Iara à DW.
Falta de políticas públicas e soluções
A pesquisadora Mariene Ramos defende que o Estado precisa oferecer mais autonomia para essas mulheres. A ausência de creches acessíveis e de programas de transferência de renda adequados limita a capacidade delas de trabalhar e estudar.
Um estudo recente da ONG Todos pela Educação mostrou que, em 2024, apenas 41,2% das crianças de até 3 anos eram atendidas por creches no país . Entre as famílias mais pobres, a taxa cai para 30,6%.
“O Estado precisa dar autonomia para essa mãe, como oferecer creches e escolas de qualidade e em tempo integral para que elas consigam trabalhar. Também são necessários projetos para qualificar essas mulheres, para que elas consigam ter melhores condições de emprego”, afirma Mariene.
Atualmente, 57% das mães solo recebem algum tipo de benefício social do Estado A pesquisadora classifica isso como uma falha direta do mercado de trabalho em absorver adequadamente essas trabalhadoras.
“São mais de 11 milhões de mães solo no Brasil. O Brasil tem um país de mães solo, e precisamos olhar para elas”, conclui a pesquisadora.
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