Skip to content

O Brazil com Z: um pesadelo bolsonarista que quase foi real

Entre o Brasil com S e o Brazil com Z, existe uma linha tênue. E ela foi testada. Que jamais volte a ser cruzada


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 06/08/2025 - 09:29

Brazil
Entre o Brasil com S e o Brazil com Z, existe uma linha tênue. E ela foi testada. Que jamais volte a ser cruzada (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Recentemente, tive um pesadelo. Nele, o Brasil havia deixado de existir como o conhecemos. No lugar, surgia uma distopia tropical governada por Jair Bolsonaro, não eleito, mas imposto pelas armas e pelo caos. O ataque de 8 de janeiro de 2023 havia sido bem-sucedido. A bomba deixada nas imediações do aeroporto de Brasília havia explodido, ceifando vidas e fornecendo o álibi perfeito para decretar o tão desejado “estado de sítio patriótico”. Nascia o Brazil com Z.

Nesse pesadelo, Jair Bolsonaro não retornava ao Palácio do Planalto como presidente da República, mas como “Líder Supremo da Nação Restaurada”, coroado entre bandeiras israelenses, fuzis erguidos e louvores evangélicos transmitidos ao vivo. Governava por lives e decretos oraculares.

Seu filho, Eduardo Bolsonaro, era nomeado Chanceler do Brazil com Z, encarregado de formalizar, com entusiasmo submisso, a completa entrega da soberania nacional ao eixo trumpista. Trocava biodiversidade por hambúrgueres, minerais por desinformação e a base de Alcântara por um resort da família Kushner.

Flávio Bolsonaro, o “Príncipe das Rachadinhas”, presidia a recém-criada Câmara Nacional da Família, Tradição e Propriedade — um parlamento simbólico onde se votava com orações, transmitidas ao vivo pelo Terça Livre, agora canal estatal. Carlos Bolsonaro, por sua vez, chefiava o Ministério da Verdade, reescrevendo a história. Nos novos livros escolares, Brilhante Ustra substituía Tiradentes como herói nacional.

A Constituição era reescrita por generais do zap, pastores com MBA em “livramento espiritual” e influencers digitais. Uma teocracia armamentista e anticientífica se consolidava. Tratados internacionais eram rasgados. O Brazil com Z rompia com a ONU, OMS, Mercosul — e passava a operar como um protetorado ideológico de Donald Trump, reeleito como CEO vitalício dos Estados Unidos Desunidos da América.

Nesse cenário fictício, os “Kid Pretos” — milicianos digitais e operadores do submundo virtual bolsonarista — substituíam o DOI-CODI, caçando opositores e instaurando um novo aparato repressivo. O “comunista”, o “abortista”, o “macumbeiro”, o “professor esquerdista” — todos considerados ameaças à ordem divina e patriótica.

E, no centro de tudo, o dado mais perturbador: segundo investigação da Procuradoria-Geral da República, não se tratava apenas de agitação digital ou de vandalismo contra a democracia. A PGR identificou um plano concreto que incluía o assassinato do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, de seu vice, Geraldo Alckmin, e do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. Uma ação com claros contornos terroristas, que buscava eliminar fisicamente a linha sucessória para justificar uma ruptura institucional total e a tomada de poder por meio de um golpe de Estado apoiado por setores militares e civis radicalizados.

Esse foi o meu pesadelo.

Felizmente, acordei. E acordei com aquela vinheta inconfundível do plantão da Globo — tum-dum-dum-dum…. A apresentadora anunciava:
“O ex-presidente Jair Bolsonaro acaba de receber ordem de prisão domiciliar. A decisão é do Supremo Tribunal Federal.”

Respirei. Voltei a dormir. Aliviado.

Mas o fato é que, embora tudo isso tenha ocorrido apenas em minha imaginação, não foi obra do acaso. A sátira que aqui descrevo encontra base em fatos, documentos, investigações e evidências. A tentativa de golpe de 8 de janeiro foi real. Foi articulada, financiada e orientada com objetivo claro de subverter a ordem democrática. As conexões internacionais com a extrema-direita norte-americana — especialmente com redes ligadas ao trumpismo — estão sendo apuradas com gravidade.

Vivemos, em retrospecto, o esboço de uma guerra híbrida. As técnicas não eram novas: desinformação digital, sabotagem institucional, mobilização religiosa, uso político da mentira, glorificação da violência e tentativas de alianças externas que mascaravam uma agenda autoritária travestida de patriotismo.

O Brasil quase foi palco — ou laboratório — de um experimento autoritário de escala internacional. E sua democracia foi salva por um triz.

Por isso, esta sátira precisa ser lida como ela realmente é: um alerta.

A democracia brasileira é frágil. Mas é o que temos. É o que ainda separa a política da tirania. E é o que protege o cidadão comum de se tornar apenas mais um dado nas planilhas de um regime que enxerga direitos como ameaças.

Entre o Brasil com S e o Brazil com Z, existe uma linha tênue. E ela foi testada. Que jamais volte a ser cruzada.

Deputado Clécio Alves propõe CPI da “Máfia do Lixo” na retomada dos trabalhos da Alego

Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

Pesquisa