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O impasse da Direita: Quando a falta de coesão interna paralisa um campo político

A extrema direita tem concentrado sua atuação política em temas ligados à situação jurídica de seus líderes mais proeminentes


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 02/12/2025 - 13:28

A falta de coesão interna paralisa um campo político, a direita

A política brasileira passa por um momento peculiar. A direita — em suas diversas correntes — convive com um desafio que não vem da esquerda nem de adversários externos: vem de dentro do próprio campo. A ascensão de Jair Bolsonaro, de deputado do baixo clero a presidente da República, foi um marco dessa transformação. Sua chegada ao Planalto, embora marcada por controvérsias sobre experiência administrativa e capacidade de articulação política, catalisou forças novas e reconfigurou o mapa da direita brasileira.

Essa ascensão teve efeitos expressivos. Consolidou um movimento que, hoje, ocupa um espaço relevante no espectro político e possui forte capacidade de mobilização, especialmente nas redes sociais. Ao mesmo tempo, trouxe para o centro do debate lideranças, grupos e práticas que não necessariamente dialogam com a tradição institucional de parte da direita democrática brasileira.

O bolsonarismo, em sua fase de maior força, impulsionou novas figuras políticas e diferentes formas de comunicação. Muitas delas, entretanto, surgiram sem trajetória consistente em partidos, governos, conselhos ou instituições. A consequência disso é um campo político com alto grau de espontaneidade, porém pouca coordenação interna — e em frequente desalinhamento programático.

Nos últimos meses, episódios envolvendo divergências públicas entre integrantes do movimento — inclusive em temas de alianças regionais e disputas internas — ilustram a dificuldade de consolidar uma direção comum. Discussões sobre rumos estratégicos, alianças estaduais e a posição de figuras centrais do grupo revelam um ambiente de tensão, frequentemente exposto ao público.

Ao mesmo tempo em que enfrenta divisões internas, a extrema direita tem concentrado sua atuação política em temas ligados à situação jurídica de seus líderes mais proeminentes. Esse foco restrito acaba reduzindo o espaço para debates estruturantes sobre o futuro do país: desenvolvimento econômico, educação técnica, segurança pública profissionalizada, competitividade internacional, inovação, meio ambiente e relações exteriores.

Com isso, amplia-se um distanciamento entre o que parte do eleitorado de direita espera — especialmente o eleitor moderado e preocupado com governabilidade — e o que tem sido priorizado pelos grupos mais radicais.

A instabilidade do campo é um fenômeno visível. Divergências entre lideranças, disputas internas sobre protagonismo e visões distintas sobre caminhos estratégicos têm se tornado constantes. Em alguns casos, figuras importantes do movimento encontraram-se distantes do país, enfrentando processos judiciais ou reorganizando suas agendas pessoais e políticas.

São sinais de um campo que ainda busca equilíbrio entre sua retórica de mobilização e as exigências de estabilidade institucional.

A direita democrática — que defende agendas como responsabilidade fiscal, formação técnica de jovens, combate qualificado ao crime organizado, estímulo às exportações e modernização econômica — encontra-se diante de um impasse. Por um lado, compartilha parte do eleitorado com a extrema direita. Por outro, enfrenta dificuldades para afirmar suas pautas em meio ao ruído político causado pela disputa interna do campo conservador.

Esse desequilíbrio afasta eleitores de centro e impede que propostas estruturantes ganhem protagonismo.

O maior desafio para a direita, hoje, não está na disputa eleitoral imediata, mas na necessidade de reconstruir uma identidade capaz de abrigar diferentes correntes sem que uma delas paralise as demais. Isso implica distanciamento gradativo de personalismos, fortalecimento de lideranças técnicas e construção de projetos factíveis para o país.

A superação desse momento depende menos de confrontos públicos e mais de maturidade institucional. Uma direita capaz de dialogar, formular e se organizar tem muito a contribuir para o debate nacional. Mas, para isso, precisa antes resolver suas próprias tensões internas e reencontrar seu centro de gravidade político.

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Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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