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O país precisa de governantes que saibam ouvir as demandas do setor produtivo”


Avatar Por Redação Tribuna do Planalto em 11/04/2022 - 06:14

Com a pandemia de Covid-19, o comércio, serviços e turismo registraram uma redução de 33% em suas operações. Todavia, o presidente da Fecomércio, Marcelo Baiocchi, não responsabiliza os governos pelo impacto da pandemia nesses setores. “Sempre dissemos que a sobrevivência de todos passava também pela preservação dos negócios e do trabalho. Essa mensagem foi compreendida”, afirma em entrevista concedida ao Tribuna do Planalto, na qual falou dos preços dos combustíveis, mudanças no FCO e o perfil do candidato à Presidência da República que atende às expectativas da entidade. 

TRIBUNA DO PLANALTO – Qual foi o impacto da pandemia de Covid-19 no comércio goiano? 

MARCELO BAIOCCHI CARNEIRO – O maior impacto se deu no primeiro momento, marcado pelo fechamento abrupto das atividades econômicas como medida para conter a propagação do vírus. Governos e setor produtivo fomos todos pegos de surpresa, mas logo em seguida começamos a construir as alternativas para superar a crise. Em Goiás, o setor de comércio e serviços agrega 67% do Produto Interno Bruto (PIB) estadual. A restrição das atividades econômicas provocou a impressionante redução de 33% no setor de comércio, serviços e turismo no Estado. O turismo foi, sem dúvida, o setor mais impactado, porque a drástica redução do movimento de pessoas afetou não apenas as receitas com transporte e hospedagem, mas também os eventos e o setor de alimentação fora de casa – bares, restaurantes, cafés e similares. 

Como avalia a gestão da pandemia em Goiás e no Brasil? A gestão influenciou positiva ou negativamente nesse impacto no comércio?  

Sem dúvida nenhuma, as restrições nas atividades econômicas impactaram diretamente e de forma muito profunda o comércio de bens, serviços e turismo. Fomos o setor mais afetado pelo fechamento das atividades econômicas. Em todo o mundo, houve muitos erros e acertos na calibragem das medidas para conter o avanço da pandemia. O impacto das medidas, sem dúvida alguma, foi maior nos países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil. Ao longo dos meses, autoridades sanitárias, governos e o setor produtivo, com a participação ativa da população, fomos encontrando as soluções para equilibrar a preservação de empresas e empregos e salvar vidas. Sempre dissemos que a sobrevivência de todos passava também pela preservação dos negócios e do trabalho. Essa mensagem foi compreendida. Nós abraçamos com muita determinação essa missão de encontrar a calibragem certa. As vidas que perdemos são inestimáveis, nos marcarão para sempre, mas todos procuramos fazer o melhor possível, com foco no futuro. 

Como avalia as medidas adotadas em Goiás no combate ao Covid?  

Governos, universidades, autoridades de saúde, setor produtivo, trabalhadores e a população deram o melhor de si no enfrentamento da pandemia. Cada um fez a sua parte, na medida do possível. Aprendemos muito. As instituições públicas permitiram efetiva participação do setor produtivo na gestão das medidas. Nós nos unimos para enfrentar e vencer a covid. Sem dúvida alguma, a decisão mais importante foi fazer todo o possível para implantar o melhor programa de vacinação. Esse enorme esforço, antes de tudo para salvar vidas – e, como consequência, restabelecer a atividade econômica – nos coloca como modelo mundial de prevenção por meio da vacinação. 

Até que medida a alta da inflação e dos juros é consequência da pandemia e até que ponto é resultado da política econômica e dos movimentos do governo federal?  

O Brasil não está descolado do mundo. A pandemia afetou diretamente a economia mundial e a inflação, os juros e os investimentos públicos e privados ao redor do mundo, segundo as diferentes realidades sociais e econômicas. Os países em desenvolvimento tiveram de fazer esforços diferenciados de gestão das restrições, porque não tinham as mesmas condições de restringir o movimento de pessoas que as nações desenvolvidas tiveram. No Brasil, sem dúvida alguma, os custos foram maiores porque vínhamos de um período de desarranjos econômicos anteriores que culminaram na crise de 2014. Quando a pandemia chegou, em 2020, a economia estava em estágio inicial de recuperação. Isso foi determinante nos efeitos que a pandemia teve sobre nós. 

Há diversas teses sobre o aumento do combustível. De qual o senhor é adepto?  

No mercado internacional, o efeito sobre os preços dos combustíveis é o mesmo que ocorre sobre os valores de todas as commodities. O Brasil está inserido no mercado internacional. O preço do barril de petróleo e o valor do dólar, que regula o preço dos combustíveis, subiu no mundo inteiro. A solução passa, principalmente, por uma reforma tributária nacional, construída em conjunto entre a União e os governos estaduais. Na cadeia dos combustíveis, os preços também sofrem a influência direta das tributações sobre os diferentes níveis de produção, distribuição e comercialização dos combustíveis. 

A Fecomércio defende alguma proposta para reduzir o preço dos combustíveis?  

Temos de reformar o sistema tributário, nesses moldes. 

Qual a expectativa do empresário goiano em relação aos efeitos da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, considerando que a CNC reduziu a previsão de aumento de vendas no varejo em 2022 de 0,9% para 0,5% este ano.  

A guerra afeta o comércio mundial e Goiás sofre os efeitos em função do impacto nas commodities, que influenciam diretamente no movimento econômico do Estado. O impacto vai depender do tempo de duração do conflito. 

Como o senhor avalia o índice de endividamento das famílias em Goiânia, de 54,3%, enquanto em outras capitais esse índice gira em torno de 80%?  

Historicamente, o índice de endividamento em Goiânia é menor que a média em outras capitais. 

A Fecomércio acompanha as mudanças no FCO que estão sendo discutidas no Senado. Qual o modelo de fundo que a entidade defende?  

As mudanças recentes feitas no Fundo Constitucional do Centro-Oeste nasceram de propostas apresentadas pelo setor produtivo de Goiás reunidas na reformulação liderada pelo senador Vanderlan Cardoso. Entendemos que o papel do Estado é, essencialmente, atuar como indutor do crescimento sustentado da economia. A oferta de crédito é uma das ferramentas para isso. As instituições de fomento precisam ter a capacidade de se ajustar aos diferentes momentos econômicos. As alterações feitas no FCO vêm nesse sentido. A reforma feita no FCO para permitir que os juros do financiamento migrassem para o modelo pré-fixado em todas as suas modalidades, como já ocorria com o setor do agronegócio, vai impulsionar a captação de recursos do fundo e permitir que comércio e indústria possam utilizar mais e melhor o crédito disponível. Além das taxas pré-fixadas, as mudanças propostas pelo setor produtivo possibilitam a migração das empresas para o novo regime de juros pré-fixados, com estabilidade das taxas. Perceberemos o efeito benéfico dessas alterações tanto de imediato como no decorrer dos próximos anos. O setor produtivo de Goiás sempre liderou a captação de recursos do fundo, mas esse movimento estava mais concentrado no agronegócio. A partir de agora, os demais negócios vão poder usufruir melhor dos recursos, com impacto positivo nas empresas e nos empregos. 

Como o senhor vê a polarização que até o momento se dá entre o presidente Bolsonaro e o ex-presidente Lula na disputa presidencial?  

O cenário da disputa eleitoral é um retrato do momento. Empresários e trabalhadores estão focados na recuperação dos negócios e da renda no pós-pandemia. A pandemia foi um evento extremamente traumático, que nos pegou a todos de surpresa, numa corrida contra o tempo. É evidente que a polarização política, que se reflete nos números atuais das pesquisas, é resultado de duas visões muito distintas sobre a forma de condução do País. A percepção que prevalecerá virá no momento da decisão pelo voto, processada segundo as propostas e a história política e de vida dos candidatos à presidência da República. 

O governo federal, por meio do ministro Paulo Guedes, é um crítico do sistema S. Como a entidade recebe essas críticas?  

Essa questão está superada. Ao longo do tempo, o Sistema S, nos diversos setores em que atua, demonstrou sua participação estratégica para o desenvolvimento econômico e social do País, especialmente nos momentos mais agudos da pandemia. O Sistema S foi fundamental, por exemplo, na qualificação de empresários e trabalhadores para as novas realidades de negócios impostas pela pandemia. A mais visível delas é a sensível ampliação do comércio eletrônico, um novo normal que veio para ficar. As empresas do setor de comércio de bens, serviços e turismo que sobreviveram à crise econômica gerada pela covid-19 conseguiram se adaptar a essas mudanças abruptas. O Sistema S foi fundamental nesse processo. Também foi estratégico para o estudo e a construção das medidas sanitárias. Em Goiás, participamos todo o tempo da formulação e implantação dessas medidas. Empresários e trabalhadores foram os atores centrais desse processo, que certamente reduziu muito a propagação da doença, preservando vidas, empresas e empregos. 

Como o senhor avalia a política econômica do governo Bolsonaro?  

A política econômica do governo Bolsonaro é acertada. Ela é liberal, fomenta o empreendedorismo e os investimentos no País. Privatizou o que sugava os recursos do Estado. Sem dúvida nenhuma, no início do governo Bolsonaro, antes da pandemia, tínhamos uma realidade econômica muito positiva. A Selic chegou ao nível de 2% ao ano, historicamente a menor taxa dos últimos 30 anos. A pandemia é que trouxe a desestabilização para a economia mundial. O Brasil está inserido nessa realidade e acabou sofrendo as consequências também. Mas, no mundo inteiro, tivemos o maior crescimento durante a pandemia e temos visto nosso PIB crescer. Então, é uma demonstração de que vai muito bem a economia, uma política econômica que os empresários apoiam.  

A entidade vai apoiar algum candidato na eleição para governador e presidente?  

A Fecomércio Goiás é uma entidade apartidária de representação classista. Partimos desse princípio porque entendemos que nossa missão é estabelecer uma relação institucional com todos os Poderes, nos diferentes níveis administrativos da República. Isso ficou muito visível durante a gestão da pandemia. É possível exercer a representação classista dialogando com os gestores para colaborar e participar das decisões que contribuam para o crescimento sustentado da economia, de forma a promover o empreendedorismo e o emprego. 

Qual o perfil do candidato que atende às expectativas da entidade?  

Defendemos a liberdade econômica que promova o empreendedorismo e gere empregos e renda, respeitando a legislação e os direitos de empresários e trabalhadores. Independentemente dos candidatos, o país precisa de governantes que saibam ouvir as demandas do setor produtivo, formado por empreendedores e trabalhadores. Governantes que tenham as habilidades políticas e administrativas capazes de promover o desenvolvimento econômico e humano. 

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