Pedro Chaves assume uma cadeira no Senado em um momento bem conturbado, prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, motim do Congresso Nacional e tarifaço do Trump. Mas ele diz ser discípulo de íris Resende e Maguito Vilela, por isso acredito que o diálogo pode resolver tudo. É o que explica na entrevista, na qual também fala sobre os planos para os três meses que vai ocupar o Senado e para as eleições de 2026.
O senhor assumiu uma cadeira no Senado Federal a partir da efetivação da licença do senador Vanderlan Cardoso, em contexto que vinha desde o ano passado. Ele demorou a ceder esse espaço para o senhor? Como foi feita a construção para que o senhor efetivamente assumisse?
Ele disse que se afastaria no ano passado, mas ele estava na Comissão da Reforma Tributária e, como estavam votando matérias importantes, para ele sair no meio das discussões, ficava ruim, e tinha muita coisa de interesse do estado que ele estava tratando e já estava na fase bem adiantada. E também tinha a questão do Orçamento, que era para ser aprovado no final do ano passado, acabou aprovando em março deste ano. Eram matérias importantes e não tinha como ele deixar pela metade. Mas agora em julho, ele se afastou justamente para me dar oportunidade de assumir e participar, mas foi tudo dentro da normalidade. Não houve nenhum atrapalho, foi questão do processo legislativo mesmo.
Enquanto senador, quais são as demandas que o senhor tem recebido dos municípios, da sociedade de um modo geral, e como que o senhor pretende ajudar na resolução destes assuntos?
Dos municípios temos recebido muitos pedidos de recursos para pavimentação de vias urbanas, para aquisição de equipamentos e também na área da saúde. Eu tenho conversado com o senador Vanderlan, porque essa é uma ação que tem que ser conjunta. Eu saio no final de outubro e ele continua. Nós ficamos de, no decorrer desses três meses, depois de todos os pedidos recebidos, vamos fazer um trabalho – porque ele tem tudo anotado, tudo que já foi liberado para os municípios está cadastrado – vamos olhar aqueles que receberam menos atenção do gabinete para que possamos suprir essa lacuna. Mas em um processo de diálogo entre Vanderlan e eu, porque temos que trabalhar em conjunto nessa parte. Essas foram as demandas dos municípios. Tem outras demandas legislativas que pretendo atender, como no caso da Federação Goiana de Municípios (AGM), que em parceria com a Confederação Nacional dos Municípios (CNM), vão me pedir para apresentar algumas propostas na defesa do municipalismo, que é uma bandeira que eu sempre defendi. Vamos aproveitar esse período para poder apresentar esses projetos com o intuito de fortalecer as ações municipais.
Os municípios se sentiram penalizados com a Reforma Tributária. Seria algo nesse sentido?
Eles têm uma preocupação também com relação aos precatórios, inclusive tem uma proposta de emenda à Constituição tramitando no Congresso Nacional. Eles estão fazendo os estudos, juntamente com a Confederação Nacional dos Municípios, para me fazer a apresentação concreta das propostas para darmos prosseguimento e apresentar essas propostas no Senado. Eu sei que uma das grandes preocupações dos prefeitos é com relação aos precatórios, que muitas vezes vem uma cobrança de um volume de dinheiro muito alto, de dívidas antigas, e vezes bloqueia o recurso da prefeitura, impedindo que ela pague o salário dos funcionários e suas despesas de custeio no dia a dia. São questões que temos que analisar com muita responsabilidade, porque não podemos penalizar os municípios. Tem que cumprir o precatório? Tem, mas precisa ser de uma forma que não sufoque os municípios, pagar parcelado, de uma forma mais amena, para que não crie dificuldades na gestão atual.
Na avaliação do senhor, quais são as áreas mais urgentes que carecem de investimento federal aqui no estado de Goiás, para além dessas que o senhor mencionou?
Isso varia de município para município. Tem município que tem uma demanda muito grande na área da saúde, o outro já tem na área de infraestrutura, tem município que tem todas as suas vias pavimentadas, a parte de estrutura urbana já bem consolidada; então isso varia muito. Mas as demandas de uma forma geral são essas, a pavimentação de vias urbanas, aquisição de equipamentos e atendimento na área da saúde.
O senador Vanderlan Cardoso acabou rompendo com o governo nas últimas eleições ao Governo do Estado e ensaiou uma reaproximação agora mais recente. Como está esse diálogo com o senador para 2026, tendo em vista o projeto para o governo do estado do Daniel Vilela, correligionário do senhor?
As relações do senador Vanderlan com o governo estão excelentes desde o segundo turno da eleição em Goiânia, quando ele apoiou Sandro Mabel, o candidato do governo. Com relação a 2026, Daniel vai conduzir esse processo de unificação de todos os partidos que estão na base hoje. Daniel é candidato a governador, ali tem candidato a vice, duas vagas do Senado – uma é certo que a D. Gracinha vai ser candidata pela União Brasil – mas tem a outra vaga de Senado e as suplências. Essa composição não tem como ser feita hoje, vai ser feita em julho do ano que vem, nas convenções partidárias. Muitas vezes se toma uma decisão dessa no último minuto do tempo das convenções. É importante ressaltar que os partidos que compõem a base, que vão estar com o Daniel, todos vão sentar à mesa, isso será conduzido pelo nosso candidato a governador, que é o Daniel, para fazer essa composição.
Em relação ao Senado, na última eleição houve múltiplas candidaturas. O senhor acredita que seria o caminho para o ano que vem? Que isso já está sendo discutido nos bastidores?
Ainda não está a ser discutido, mas é uma alternativa, porque temos muitos partidos. É difícil, no meu modo de ver, fechar apenas em dois, mas também não é impossível. Pode acontecer temos somente duas candidaturas, mas é uma definição que vai acontecer somente nas convenções partidárias, ali no finalzinho de julho, início de agosto, quando os partidos vão fazer suas convenções.
Em relação à chapa, havia uma expectativa de que o PL pudesse compor esse projeto de 2026, mas houve resolução da diretiva nacional vedando composição com outros partidos. Isso influência na construção do projeto em Goiás, ou o senhor ainda vê a possibilidade de uma aliança entre MDB, PL e União Brasil para 2026?
Essa resolução está valendo hoje, mas pode não valer amanhã. O partido tomou essa decisão, mas o MDB vai procurar fazer a nossa coligação, as nossas alianças durante o período de convenção com os partidos que queiram caminhar com o projeto do Daniel. A questão vai ficar na mão do PL. Se eles quiserem caminhar conosco, obviamente que serão bem vindos, o projeto Daniel tem espaço. Agora, se optarem por candidatura própria, nós respeitamos, é uma decisão partidária, cada partido tem as suas normas, as suas regras e vamos em frente. É uma questão que não temos muito o que falar, é uma decisão do próprio Partido Liberal.
Dizem que adversário não se escolhe, mas quem seria o adversário do MDB e União Brasil em Goiás, na avaliação do senhor?
Hoje se fala na pré-candidatura ao governo do senador Wilder Morais, pelo PL, e o ex-governador Marconi Perillo, pelo PSDB. Nós imaginamos que o PT deve lançar algum nome ao governo, porque eles precisam de palanque aqui em Goiás. Imaginamos que vamos enfrentar umas três ou quatro candidaturas a governador.
Alguma, de certa forma, preocupa mais?
Não, é como você disse, não se escolhe adversário, temos que preocupar com a nossa candidatura. E o Daniel está trabalhando muito bem, está muito bem preparado., tem um apoio incondicional do governador Ronaldo Caiado, que está com a avaliação lá nas nuvens. Caiado tem sido muito firme no seu apoio ao Daniel e temos que nos preocupar em fortalecer cada vez mais a candidatura do Daniel, sem ficar preocupado com o adversário.
O senhor mencionou o projeto do Daniel Vilela, mas quais são os planos do MDB para além de reeleger Daniel?
O principal objetivo do Daniel é dar prosseguimento ao trabalho que vem sendo feito pelo governador Caiado, que tem tido uma avaliação espetacular. Daniel vai dar prosseguimento na questão da segurança pública, nessas obras de infraestrutura que o governador está fazendo praticamente em conjunto com Daniel, que vem participando das decisões. É uma continuidade do trabalho feito pelo governador Caiado. Esse é o principal objetivo, dar prosseguimento, concluir as obras, concluir as ações, mas seguindo a política do governador Caiado.
E o projeto do senhor para 2026?
Só trabalhar para Daniel e para os partidos aliados da nossa coligação. Não sou candidato.
Senhor não vai concorrer a nenhum cargo?
Nenhum cargo.
Qual expectativa do senhor em relação à Comissão Temporária Externa para interlocução criada no Senado para discutir as relações econômicas bilaterais com os Estados Unidos?
Essa comissão externa foi criada, os senadores já estiveram lá, participaram, mas é uma situação muito particular do presidente Trump, mas o Senado tem que procurar isso, procurar o diálogo, procurar os canais para tentar amenizar os efeitos negativos que a sobretaxa traz para a nossa economia.
Como avalia o tarifaço do Trump?
Isso é muito ruim para o Brasil e também para Goiás, porque temos, por exemplo, o setor de carnes, que exporta muito para os Estados Unidos e sofre prejuízo com isso. Tem reflexo aqui na nossa economia. Mas eu vejo que tudo se resolve com diálogo e a intenção do Senado é justamente essa, criando essa comissão, buscar um canal de interlocução entre o governo americano e o governo brasileiro.
No início do retorno legislativo, houve essa tentativa de obstrução do Congresso pela oposição e acabaram, inclusive, angariando as 41 assinaturas que precisavam para pautar impeachment do ministro do STF, Alexandre Morais. Como que o senhor compreende o que vai ser a partir de agora a retomada dessas votações importantes para o país, a exemplo da LDO, que está atrasada?
Existem as obstruções que são respaldadas pelo regimento, tanto da Câmara quanto do Senado. Os senadores e deputados podem obstruir a matéria para mostrar o seu posicionamento político. Eu só discordo da forma, invadir a mesa diretora, não permitir que os presidentes das duas casas exerçam seu trabalho; dessa forma, eu discordo. Eu não sou favorável a isso, não. Mas no Senado já houve um diálogo do PL com o presidente Davi Alcolumbre e, na quinta-feira, já teve votação normal. Inclusive foi votada a matéria com relação à isenção do Imposto de Renda até dois salários mínimos. No Senado, com relação à pauta legislativa, não teremos problema.
Como que o senhor vê a isenção do IR e o discurso do presidente Lula de que é preciso diminuir as desigualdades sociais e que os mais ricos não pagam imposto no país?
A isenção de imposto de renda é altamente positiva, e poderia até ampliar um pouco mais. A equipe econômica do governo entende que até dois salários mínimos é possível absorver, sem maior sobressalto, mas a intenção, no meu modo de ver, é conseguir ampliar ainda mais essa isenção, porque só se consegue diminuir as desigualdades tomando ações concretas, para que quem recebe menos pague menos imposto seja natural.
E a taxação dos mais ricos?
O governo obviamente vai criar seus mecanismos para fazer essa taxação. É uma questão que tem que ser estudada com mais profundidade pela equipe econômica para evitar que saia os recursos econômicos dos mais ricos para outros países. Tem que analisar isso também. Ou seja, o cidadão pode tentar proteger o seu dinheiro, levantando para outros países. A equipe econômica tem que estudar com muita profundidade para evitar a evasão de divisas do nosso país.
Qual sua expectativa em relação ao Propag, projeto de sua autoria que permite a contratação de empréstimos por estados e Distrito Federal fora das regras comuns previstas para operações de crédito público?
Nós já apresentamos o projeto de resolução, que está para ser pautado a qualquer momento. Inclusive estava previsto para essa primeira semana, mas em função da obstrução, não foi pautada. Esse projeto permite essa renegociação com todos os estados e o Distrito Federal, e tem também o aval da União. Se a Secretaria de Tesouro Nacional deu OK e se os estados serão beneficiados, eu não vejo por que qualquer voto contrário. No caso específico de Goiás, a Secretaria de Economia nos passou a informação de que Goiás economizaria em torno de R$ 26 bilhões nos próximos 30 anos. Ou seja, dá quase R$ 1 bilhão por ano, mais de R$ 70 milhões mês que Goiás consegue economizar. É um dinheiro significativo, que vai reforçar o Tesouro do nosso estado.
As pesquisas apontam uma dificuldade para Caiado romper os limites de Goiás. A que o senhor atribui o fato de o governador não conseguir subir nas pesquisas para presidente?
Porque talvez dos pré-candidatos – Lula já foi presidente, está no terceiro mandato, pleiteando o quarto, Jair Bolsonaro foi presidente – o nome menos conhecido é o do governador Caiado. À medida que ele vai se tornando conhecido, ele está subindo nas pesquisas. Hoje já aparece ali em torno de 8% em alguns institutos e por isso ele tem feito alguma peregrinação pelos outros estados apresentando o resultado do seu trabalho aqui em Goiás, que é altamente positivo. Mas eu vejo que quem conhece o governador Caiado e sabe das suas ações aqui em Goiás, a grande maioria respalda o seu nome para presidente. Hoje, tem essa popularização de extrema direita e extrema esquerda, mas eu sou discípulo do Iris Resende e do Maguito Vilela. Quando se elege presidente da República, governador, você é o presidente de todos, governadores de todos. Não pode ser governador de um, de um segmento, de um setor só da população. No caso de Goiás, de todos os goianos, presidente da República de todos os brasileiros. Ontem mesmo eu vi uma fala do governador Caiado: em 2018, ele teve apenas 10% dos votos no município de Cavalcante e foi um município que ele abraçou bastante, a D. Gracinha fez um trabalho espetacular na região dos kalungas. Nessa última eleição, ele teve 93% dos votos em Cavalcante. Se ele tivesse feito a radicalização contra o município, não teria tido essa votação já na segunda eleição dele. Precisamos disso, de ações que sejam para todo o país, para acabar essa polarização de extrema direita e extrema esquerda, eleger um presidente que seja o presidente de todos os brasileiros, fazendo ação para todos os setores do nosso país.
A principal bandeira do governador é a segurança pública. Como avalia a atuação das forças policiais em Goiás e o papel do governo federal no apoio à segurança nos estados, lembrando a tentativa do governo federal de unificar a atuação destas forças, que gerou reação do próprio governador?
Os resultados falam por si, a forma que Goiás trabalha deu resultados altamente positivos. Eu me lembro que quando Caiado assumiu, o índice de criminalidade nas grandes cidades do Entorno do DF e aqui em Goiânia, arrastões em bares, restaurantes; estava um verdadeiro caos. Hoje, Goiás é, me parece, o primeiro ou segundo estado mais seguro do Brasil, graças a essa fórmula adotada pela Secretaria de Segurança Pública do governo Caiado. A região do Entorno do DF, aquelas cidades, Águas Lindas, Santo Antônio Descoberto, Valparaíso, eram manchetes negativas de criminalidade todo dia na imprensa; hoje essas cidades já estão com a segurança no nível bem elevado. A própria população aprova integralmente as ações de segurança implantadas pelo governo Caiado. Obviamente que, ele chegando à Presidência da República, é óbvio que a segurança é dos estados, mas ele pode adotar mecanismo para ajudar os estados a coibir esses altos índices de criminalidade, implantando nos outros estados, o que foi implantado aqui em Goiás.














