Em meio às transformações no agronegócio, a pecuária brasileira tem buscado mais eficiência, tecnologia e sustentabilidade para manter sua competitividade no mercado nacional e internacional. Em Goiás, um dos principais polos da produção pecuária do país, produtores vêm investindo em gestão, genética, manejo e inovação para enfrentar os desafios do setor e ampliar a produtividade. Nesta entrevista, o presidente da Sociedade Goiana de Pecuária e Agricultura (SGPA), Gilberto Neto, fala sobre o atual cenário da pecuária brasileira, os avanços conquistados nos últimos anos e as perspectivas para o futuro do setor. Ele também analisa o impacto das novas tecnologias, a importância da qualificação do produtor rural e o papel estratégico de Goiás no fortalecimento do agronegócio nacional.
O que o senhor destaca na Pecuária deste ano? Quais as principais novidades tecnológicas para o produtor rural?
Teremos toda uma programação voltada para as famílias, para os produtores rurais; sabemos que tradicionalmente a Exposição Agropecuária do Estado de Goiás tem a presença de animais, empresas, maquinários, toda uma parte de gastronomia, todas as associações da pecuária goiana presentes dentro do parque, exposições e este é um ano que tem superado os últimos anos todos pela grande quantidade de animais que vamos ter dentro do parque: equinos e bovinos do país todo. Estamos hoje com o ranqueamento especialmente da raça nelore muito concorrido, tem criadores de longe que estão disputando a liderança do ranking nacional juntamente com todos os goianos que também estão participando. Além de ovinos, vamos ter um ranqueamento nacional de equinos e, neste momento, está acontecendo a 59ª Exposição do Mangalarga Marchador, que vai até sábado; teremos uma grande cavalgada no sábado pela manhã e vamos passar pelas principais ruas da capital. Dia 14 inicia a nossa exposição agropecuária, vai ter a abertura oficial às 9 horas, e teremos um evento com toda uma programação de palestras técnicas, nosso museu agropecuário vai receber os visitantes, com a presença de carros de boi com boi de tração, teremos nosso museu moendo cana e fabricando doces e toda uma atração muito especial que não vamos contar muito para não ficar dando spoiler e tirar o efeito surpresa também.
Quais as autoridades já estão confirmadas para abertura?
A gente sempre teve uma abertura oficial muito prestigiada pelos chefes dos poderes, os presidentes das entidades sempre prestigiam essa abertura, que é um momento emblemático para o nosso estado, a abertura do principal evento, a maior festa popular do nosso estado. É uma abertura que, além dos pecuaristas, a gente sempre conta com as principais autoridades, tanto das entidades classe do setor agropecuário como de áreas diversas do governo, do estado, do município. As associações comerciais e industriais sempre procuram estar presentes.
Como o senhor avalia o atual momento da pecuária brasileira em 2026? Quais são os principais desafios do setor hoje?
Dificuldades, crises, gargalos, a gente sempre vai se deparar por alguma razão, em algum momento. Hoje, estamos vivenciando um momento da pecuária muito especial, com a valorização da arroba pelo desabastecimento de proteína animal no mundo. O Brasil tem uma situação privilegiada, que são suas extensões de terra para produção de gado de corte e de leite. Estamos vendo a agricultura com uma produção muito abundante, mas com todas as dificuldades. Temos visto grandes grupos, empresas ligadas ao setor agropecuário entrando com recuperação judicial e a nossa luta é constante para procurar defender e buscar alternativas para amenizar as dificuldades para os produtores rurais do nosso estado e de todo o país. Não se pode esquecer que o país depende do setor agropecuário para conseguir ter esse PIB que tem. E 30% do nosso PIB é decorrência das comercializações de produtos agropecuários, geração de emprego. O nosso setor tem carregado os países nas costas nos momentos mais difíceis e hoje a gente vê que o agronegócio está dependendo de apoio, especialmente do governo federal, para conseguir dar os próximos passos e avançar mais do que a gente tem feito. Da porteira para dentro, somos muito eficientes, somos competentes, nós produtores, mas a gente também precisa contar com apoio. E a gente até brinca que se não puder ajudar, pelo menos não atrapalha.
A exportação de carne bovina segue como motor da pecuária brasileira. O Brasil ainda depende excessivamente do mercado externo?
O mundo inteiro está consumindo alimentos e o Brasil é o país mais preparado para esse abastecimento das necessidades alimentares do mundo. E mais que isso, é o único que tem condição de fazer isso em quantidade, qualidade, com qualidade sanitária. Estamos muito bem preparados, nosso país se cercou de todas as formas para mitigar riscos sanitários de doenças. Temos a vantagem de produzir carne a pasto, que é uma carne saudável, uma carne que é desejada pelo mundo. E nós alcançamos não só o mercado interno, mas também os mercados mais exigentes do mundo. O Brasil está preparado e tem procurado atender.
Como o senhor avalia a relação comercial com a China e quais riscos existem para o setor?
A relação comercial com a China é fundamental. O Brasil tem que procurar buscar não só a China, não tem que enxergar só a China, tem que pensar que todos os mercados são importantes. Nos maiores produtores de carnes, que são Brasil, Argentina, Estados Unidos e Austrália, houve um abate recorde de fêmeas e um desabastecimento da produção de bezerro, que é o boi de amanhã e que vai virar carne. Com isso, temos enfrentado uma deficiência de oferta de carne no mundo, de proteína animal, e o Brasil é o único país que tem condições de abastecer esse mercado mundial de forma competitiva, com produto de qualidade, livre de qualquer enfermidade para abastecer os mercados mais exigentes. Não só a China, mas também a União Europeia, o Oriente Médio, tem muitos mercados que a gente tem condições de atender com qualidade e quantidade.
Como o senhor avalia a interlocução do governo federal com esses novos mercados?
Tivemos episódios de órgão federal, que tem a função de promover os produtos brasileiros, falar bobagens, colocando nosso mercado em uma saia justa. O Brasil é o país que mais protege o meio ambiente; nós, produtores rurais, temos que resguardar áreas de nossas propriedades sem explorar, preservar uma porcentagem considerável das nossas áreas, imagina qual indústria vai fazer isso, qual produtor de carne de outros países que protege tanto o meio ambiente quanto o Brasil. E, no entanto, infelizmente, pessoas do próprio governo federal colocam o Brasil como um país que desmata, não preserva como deveria. Não pode colocar no mesmo balaio todos os produtores, porque a grande maioria dos produtores rurais faz como manda o figurino, protege o meio ambiente, que é a pecuária sustentável.
Existe hoje um conflito entre preservação ambiental e expansão da produção, ou é possível conciliar as duas agendas?
A lei é bem clara sobre qual a porcentagem que o produtor pode explorar da sua propriedade rural para conseguir explorar ao máximo a área que está disponível para ele.
A pecuária sustentável ainda está restrita a grandes produtores? Os pequenos e médios conseguem ter uma pecuária sustentada na sua propriedade?
A gente tem os pequenos produtores e os grandes explorando suas propriedades, e claro que os grandes conseguem, através da tecnologia, aumentar a sua eficiência de uma forma muito maior. Mas sabemos que a produção leiteira, por exemplo, a comercialização corresponde a 70% de pequenos produtores. Não se pode desprezar a grande quantidade de pequenos produtores que estão trabalhando com a agricultura familiar e produzindo alimentos em grande quantidade para abastecer os mercados do nosso país, especialmente.
O acesso à tecnologia no campo ainda é desigual? O pequeno e o médio produtor conseguem acompanhar a modernização do setor?
A tecnologia está disponível para todos. Nós temos a exposição agropecuária acontecendo e a Sociedade Goiana de Pecuária e Agricultura disponibiliza cursos e workshops e palestras técnicas dentro do evento; fora do evento disponibilizamos cursos do Serviço de Aprendizagem Rural do Senar, gratuitos. Não faltam oportunidades para reciclar conhecimento, para buscar informação e passar a ter conhecimento sobre as tecnologias que estão disponíveis. O que falta mais é vontade de aprimorar, de aumentar a eficiência e buscar o aumento de sua lucratividade.
A rastreabilidade do rebanho deve se tornar uma exigência cada vez maior. O produtor brasileiro está preparado para essa exigência?
Estamos preparados para os desafios que forem necessários para aumentar a nossa produção, aumentar a nossa lucratividade e atender os principais mercados. Não só a rastreabilidade. No momento em que a gente tinha a obrigação de vacinar, Goiás é um estado livre de vacinação de febre aftosa, acompanhei durante toda a minha vida, eu, com 47 anos, durante os meses de maio e novembro, a vacinação de todo o rebanho das nossas propriedades, e isso era um desafio. E a gente aproveitava esses maneiros para fazer todas as aplicações necessárias para mitigar prejuízos nas nossas criações. A rastreabilidade é só um manejo a mais, é um serviço a mais e que se ela for necessária, a gente está preparado e vamos fazer para atender o que for necessário para aumentar a qualidade, aumentar a confiança e a segurança do produto que vamos estar colocando no mercado.
O crédito rural disponível para a pecuária atende às necessidades do produtor?
Este ano os juros estão muito altos. Eu cheguei a vivenciar no ano passado diversos produtores tendo acesso a juros mais acessíveis, mas a gente tem visto que não basta ter um Plano Safra, ele tem que ser exequível. Ele não pode ser inadequado em relação a nossa capacidade de devolver esse dinheiro lá na frente. O endividamento que principalmente o agricultor vem enfrentando nos últimos anos colocou a nossa agricultura em situação terrível. A gente vê vários agricultores entrando com pedido de recuperação judicial, em função da valorização do grão de uns três, quatro anos atrás, quando muitos compraram máquinas caríssimas, muito mais caras naquele período em função da valorização que a agricultura teve, muita gente se endividou e a conta está chegando e esse agricultor não está conseguindo manter os seus arrendamentos, manter o padrão. A gente precisa buscar soluções para o nosso país, buscar governantes que tenham condições de enxergar a necessidade do setor agropecuário, esse setor que é tão importante para a economia do nosso país. Eu não consigo entender que o nosso setor, que é um setor tão relevante para o nosso país, possa ser tão discriminado e perseguido por este governo federal, que vem massacrando o agronegócio, colocando os agropecuaristas numa situação de falta de condições de continuar produzindo.
Goiás enfrenta desafios específicos em logística e infraestrutura para o escoamento da produção?
Eu vejo que não só o estado, mas o país, tem todas as condições de conseguir escoar suas produções e esse não é o nosso gargalo. O nosso gargalo é conseguir equilibrar as contas e seguir motivados a continuar no nosso setor. A gente vê muitos agropecuaristas que chegam a pensar se continuam na atividade ou não, em função das dificuldades que vêm enfrentando por decisões que estão fora do nosso controle.
O clima tem impactado diretamente a produção pecuária? Como as mudanças climáticas afetam o setor?
Tem, é um fator determinante para o sucesso e a alta produção de safras diferentes. Teve um momento de El Niño há uns dois ou três anos, que o agricultor chegou, em determinadas regiões, a colher 30% do esperado em função de a chuva não ter caído com a frequência necessária ou esperada. Esse ano a gente passou um período de chuvas muito interessante, que possibilitou alta produtividade não só de produção de grãos, mas também de forragem para o gado se alimentar, mas já vem nos preocupando o segundo semestre sobre alguma modificação das condições climáticas. A gente teme chuvas inferiores ao que a gente vivenciou na última estação.
Se o senhor pudesse apontar prioridades para fortalecer a pecuária nos próximos anos, quais seriam?
A prioridade para fortalecer a pecuária, o agronegócio do nosso país, porque quando a gente fala do país, Goiás está andando junto, é colocar um presidente da República que tenha um olhar para o agronegócio, porque é o setor que influencia não só quem vivencia diretamente com o agro. Ele influencia aquele que não está diretamente ligado, mas que bebe uma xícara de café, que veste uma roupa produzida pelo agronegócio, que usa o combustível no seu carro, o etanol, e que tem toda a sua vida influenciada diretamente pelos alimentos que são servidos a sua família pelo setor agropecuário. E a gente não vai conseguir ter sucesso se tiver a continuidade do que a gente está vivenciando aí na nossa política nacional. Goiás é um modelo a ser seguido, tivemos um governador que foi aprovado com quase 90% e que está se disponibilizando como uma opção para assumir a Presidência da República. Eu não posso deixar de dizer que quando a gente procura soluções de melhorias, a gente não pode desprezar, porque o que está mais pesado para a gente é exatamente o que nós estamos vivendo. Nós não podemos mais continuar remando contra a maré.
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