Nos últimos anos, o Brasil tem assistido a um crescimento exponencial do poder das redes sociais — plataformas que, apesar de sua relevância na comunicação contemporânea, têm servido como catalisadores de crimes, propagadores de discursos de ódio e aceleradores do colapso da verdade. A ideia de que redes sociais são “territórios neutros” e “espaços de liberdade absoluta” tem se mostrado perigosa e insustentável. O caso mais recente e emblemático disso partiu de uma denúncia pública feita por um influenciador digital.
O youtuber e influenciador Felca protagonizou um dos episódios mais importantes da recente história da internet brasileira. Seu vídeo, expondo a exploração infanto-juvenil e a disseminação de conteúdos de cunho sexual envolvendo crianças em plataformas populares viralizou com milhões de visualizações e pautou o debate nacional. Mais do que isso: sua denúncia motivou a criação de um projeto de lei, a abertura de investigações criminais e a desarticulação de uma quadrilha de pedófilos virtuais.
Tudo isso foi possível graças a um trabalho independente, sem apoio institucional, o que levanta uma questão urgente: onde está o Estado brasileiro diante da barbárie digital? Por que dependemos de influenciadores para denunciar crimes tão graves, quando isso deveria ser função de agências reguladoras, polícias cibernéticas e órgãos de justiça?
A resposta começa pela omissão em regulamentar as redes sociais, um ambiente dominado por algoritmos que não são neutros nem democráticos, mas orientados por lógicas comerciais das chamadas Big Techs — conglomerados bilionários que lucram com engajamento a qualquer custo, inclusive o engajamento criminoso.
Esses algoritmos promovem conteúdos que geram mais tempo de permanência, mais cliques, mais polêmicas. O que viraliza não é necessariamente o que é verdadeiro, ético ou legal — mas o que é extremo, sensacionalista e divisivo. Foi assim que mentiras sobre vacinas, urnas eletrônicas, golpes de Estado e discursos de ódio ganharam tração nas redes e impactaram diretamente o processo democrático brasileiro.
A ascensão da extrema direita e de grupos extremistas como os neonazistas também se deu, em grande parte, pelas redes. Segundo dados oficiais mais de 530 células neonazistas foram identificadas no Brasil em atividade até 2023, muitas das quais se organizam, recrutam e propagam seus discursos através das redes sociais. O que antes era marginal e subterrâneo, agora se apresenta com estética juvenil e narrativa de “liberdade de opinião”, sendo promovido por algoritmos que não fazem distinção entre discurso de ódio e opinião legítima.
O impacto social disso é devastador. Jovens são aliciados por discursos extremistas, comunidades inteiras vivem sob o efeito de fake news e a polarização destrói o tecido democrático.
Os algoritmos, ao promoverem sistematicamente conteúdos conspiratórios e desinformativos, ajudam a eleger extremistas e corroem a confiança nas instituições.
E não para por aí: os crimes digitais explodiram. Golpes financeiros, roubo de identidade, fraudes, extorsão e aliciamento de menores são praticados todos os dias com a conivência dos algoritmos e a inércia das plataformas. A resposta institucional é lenta, fragmentada e ineficaz. Muitos criminosos sequer são identificados — e os que são, raramente enfrentam punições compatíveis com seus delitos. As próprias plataformas lucram com esses conteúdos, monetizando vídeos sensacionalistas, transmissões de ódio e até livestreams de ataques violentos.
A saúde mental também entrou em colapso. Crianças e adolescentes estão submetidos a conteúdos violentos, sexualizados, manipuladores e inatingíveis padrões de beleza, sem qualquer filtro etário eficiente. A ausência de regulação está produzindo uma geração ansiosa, deprimida e hiperinformada, porém desorientada.
Enquanto isso, as Big Techs operam com uma liberdade que nenhum outro setor da comunicação possui. A imprensa profissional — que passa por checagem, regulação e está sujeita à responsabilização legal — está sendo substituída, em alcance e credibilidade, por criadores de conteúdo não regulados, muitos dos quais operam à margem da legalidade ou promovem deliberadamente desinformação por lucro.
É urgente que o Estado brasileiro entre em campo. A regulamentação das redes sociais não é censura, nem limitação à liberdade de expressão — é garantia de direitos fundamentais. É assegurar que criminosos digitais não estejam protegidos por algoritmos. É proteger usuários vulneráveis. É responsabilizar economicamente quem lucra com o crime. É dar a plataformas o dever legal de agir, não apenas quando pressionadas, mas como agentes corresponsáveis pelo ambiente digital que promovem.
Regular as redes é proteger a democracia, a infância, a verdade e a sociedade civil. É impor limites a um poder econômico que hoje ultrapassa a maioria dos Estados-nação. É permitir que a internet continue sendo um espaço de inovação, troca e liberdade — mas com responsabilidade.
A era da internet sem lei precisa acabar. A liberdade que não respeita a dignidade humana é apenas disfarce para a barbárie.
Presidente da CCJ na Câmara, Luan Alves entrega cargos na Prefeitura de Goiânia














