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USP desenvolve vacina experimental contra chikungunya com vírus incapaz de causar infecção

Tecnologia foi testada em camundongos e usa uma versão geneticamente modificada do vírus que consegue estimular o sistema imunológico sem completar novos ciclos de infecção


Andréia Bahia Por Andréia Bahia em 19/08/2026 - 12:47

USP desenvolve vacina experimental contra chikungunya com vírus incapaz de causar infecção
USP desenvolve vacina experimental contra chikungunya com vírus incapaz de causar infecção

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com cientistas da Universidade de Bonn, na Alemanha, desenvolveram uma nova estratégia para a produção de vacinas contra a chikungunya. A tecnologia utiliza uma versão geneticamente modificada do vírus capaz de estimular o sistema imunológico, mas que não consegue completar novos ciclos de infecção no organismo.

Os resultados foram publicados na revista científica npj Vaccines, em estudo intitulado Maturation-deficient chikungunya virus elicits protective immune responses in a murine challenge model. Os primeiros testes, realizados em camundongos, indicaram que uma única dose da formulação foi suficiente para proteger os animais contra o vírus.

A pesquisa foi conduzida por uma equipe da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP-USP), com colaboração da Universidade de Bonn, e recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Segundo Danillo Lucas Alves Esposito, pesquisador da USP e primeiro autor do estudo, a proposta foi desenvolver um vírus capaz de entrar nas células e ativar as defesas do organismo, mas que fosse incapaz de se tornar infeccioso. “A ideia foi criar um vírus que entra na célula e ativa o sistema imune, mas é fisicamente incapaz de se tornar infeccioso. Assim, o imunizado não apresenta sintomas nem corre o risco de desenvolver a doença”, explicou o pesquisador à Agência FAPESP, fonte original das informações.

Como funciona a tecnologia

A estratégia desenvolvida pelos pesquisadores interfere em uma etapa essencial do ciclo de vida do vírus chikungunya: sua maturação.

Para se tornar infeccioso, o vírus precisa passar por um processo no interior das células. No chikungunya, uma proteína chamada E3 precisa ser removida para que a proteína E2, responsável pela entrada do vírus em novas células, fique exposta.

Normalmente, essa etapa é realizada pela enzima furina, presente nas células humanas. Para impedir que o vírus complete novos ciclos de infecção, os cientistas utilizaram uma linhagem de células humanas que não possui essa enzima.

Além disso, o genoma do vírus foi modificado. Os pesquisadores substituíram o local de ação da furina por uma sequência reconhecida por uma enzima chamada TEV, proveniente de um vírus que infecta plantas.

Como essa enzima não está presente em humanos ou mosquitos, o vírus utilizado na formulação consegue realizar uma primeira etapa de replicação, mas não consegue continuar se multiplicando e infectando novas células.

Dessa maneira, após essa primeira replicação controlada, as partículas virais passam a funcionar como antígenos, apresentando ao sistema imunológico estruturas que permitem o desenvolvimento da resposta de defesa.

Potencial para outras doenças

Além de proteger os camundongos contra o chikungunya, a formulação também apresentou capacidade de induzir respostas capazes de neutralizar o vírus mayaro. O resultado indica que a tecnologia pode ter potencial para gerar uma proteção mais ampla contra vírus relacionados.

Os pesquisadores avaliam ainda que a mesma estratégia possa futuramente ser adaptada para outros arbovírus, como zika, febre amarela e outros vírus que dependem de mecanismos semelhantes durante o processo de maturação.

A plataforma também busca superar algumas limitações associadas às vacinas de vírus atenuados. De acordo com Esposito, a vacina contra chikungunya baseada em vírus atenuado que voltou a ser autorizada nos Estados Unidos em 2025 possui restrições para determinados grupos, devido ao risco de eventos adversos.

A nova tecnologia, por outro lado, foi desenvolvida justamente para impedir que o vírus vacinal consiga completar seu ciclo infeccioso no organismo.

Próximas etapas

Apesar dos resultados promissores em animais, a vacina ainda está em fase experimental e serão necessários novos estudos para avaliar sua segurança e eficácia antes de eventual utilização em seres humanos.

A equipe pretende avançar nas pesquisas com o imunizante contra chikungunya e estudar a adaptação da plataforma para outros arbovírus.

Fonte: Agência FAPESP, com informações do estudo publicado na revista npj Vaccines. O artigo Maturation-deficient chikungunya virus elicits protective immune responses in a murine challenge model está disponível em: https://www.nature.com/articles/s41541-026-01478-w

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