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Voto distrital misto: uma reforma necessária para aproximar o Brasil da verdadeira democracia


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 07/05/2026 - 09:00

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Voto distrital misto surge como uma alternativa importante para o fortalecimento da democracia

A democracia brasileira atravessa, há décadas, um processo contínuo de tensão institucional. O País convive com crises políticas recorrentes, rupturas de confiança entre sociedade e representantes e episódios que colocaram à prova a estabilidade das instituições republicanas. Basta observar a trajetória recente da Presidência da República para perceber que há algo estruturalmente errado no funcionamento do nosso sistema político.

Desde a redemocratização, praticamente todos os presidentes eleitos — ou vice-presidentes que assumiram o cargo — enfrentaram graves crises institucionais, processos de impedimento, investigações ou até prisão. Fernando Collor sofreu impeachment. Luiz Inácio Lula da Silva foi preso e posteriormente teve suas condenações anuladas. Dilma Rousseff sofreu impedimento. Michel Temer enfrentou denúncias gravíssimas no exercício do mandato. Jair Bolsonaro tornou-se alvo de múltiplas investigações e foi preso. Apenas Fernando Henrique Cardoso e Itamar Franco, sucessor um do outro, atravessaram seus períodos sem abalos estruturais dessa magnitude.

Esse ciclo permanente de instabilidade não pode ser tratado como mera coincidência histórica. Ele é reflexo direto das fragilidades da nossa jovem democracia. O Brasil ainda vive um processo inacabado de amadurecimento institucional. Nossa democracia continua em construção — e ignorar isso pode nos conduzir a um perigoso retrocesso.

A história brasileira demonstra que o autoritarismo não é um acidente isolado, mas uma característica recorrente da formação política nacional. Na maior parte da nossa trajetória histórica, o País não viveu uma democracia plena. Foram longos períodos de centralização de poder, restrição de liberdades e distanciamento entre governo e população. Mesmo em 2026, nossa democracia ainda é relativa em muitos aspectos. O poder econômico continua interferindo diretamente na política, influenciando decisões, campanhas e estruturas de poder. Casos recentes, como as discussões envolvendo o Banco Master e suas conexões políticas e econômicas, demonstram como interesses financeiros continuam orbitando o centro das decisões públicas.

Por isso, discutir reforma política deixou de ser um debate acadêmico ou técnico. Tornou-se uma necessidade institucional para a sobrevivência da própria democracia brasileira.

Uma reforma política séria deve ser ampla e ter como objetivo principal fortalecer a representação popular, aproximar o cidadão das decisões públicas e reduzir as distorções do sistema eleitoral atual. E um dos pontos centrais dessa discussão precisa ser justamente o modelo eleitoral brasileiro.

Hoje, o Brasil adota o sistema proporcional para a eleição de deputados estaduais e federais. Na prática, isso significa que os candidatos disputam votos em todo o território do estado, dentro da lógica do coeficiente eleitoral. Embora o modelo tenha sido pensado para ampliar a pluralidade política, ele criou distorções graves de representação.

O deputado, muitas vezes, não possui qualquer vínculo real com as regiões onde obteve votação expressiva. Em muitos casos, a campanha é estruturada de maneira puramente estratégica e financeira: identifica-se uma região politicamente vulnerável, concentra-se investimento em marketing e estrutura eleitoral, capturam-se os votos necessários e, depois da eleição, aquela população raramente volta a ter contato efetivo com o parlamentar.

Enquanto isso, o mandato, as emendas parlamentares e a força política acabam concentrados na região de origem ou domicílio político do eleito. O resultado é um sistema que enfraquece a identidade entre eleitor e representante e gera sensação permanente de abandono político.

É justamente nesse ponto que o voto distrital misto surge como uma alternativa importante para o fortalecimento democrático.
Nesse modelo, os estados seriam divididos em distritos eleitorais. Parte dos deputados seria eleita diretamente por esses distritos, representando regiões específicas, enquanto outra parte continuaria sendo escolhida pelo voto proporcional partidário. O sistema busca equilibrar representatividade regional e pluralidade política.

Com distritos eleitorais, o candidato deixaria de disputar votos em todo o estado e passaria a concentrar sua atuação em uma região específica. Isso criaria vínculos mais sólidos entre eleitor e eleito. O parlamentar passaria a ter responsabilidade política direta sobre determinada comunidade, conhecendo mais de perto seus problemas, demandas e prioridades.
Além disso, o voto distrital contribuiria para uma distribuição mais equilibrada das forças políticas dentro dos estados. Regiões historicamente esquecidas poderiam conquistar representação mais efetiva, reduzindo a concentração de poder político em grandes centros urbanos ou grupos econômicos mais organizados.

Hoje, é comum que muitos brasileiros sequer se recordem em quem votaram para deputado estadual ou federal nas últimas eleições. Isso ocorre porque a relação entre eleitor e representante tornou-se distante, abstrata e impessoal. O parlamentar vira apenas um nome perdido em campanhas milionárias e disputas de alcance estadual.

O voto distrital misto pode ajudar a diminuir essa distância. Pode criar identidade política entre cidadão e representante. Pode fortalecer o senso de pertencimento democrático e ampliar a fiscalização popular sobre os mandatos.

Naturalmente, nenhuma reforma política resolverá, sozinha, todos os problemas do Brasil. Mas continuar adiando mudanças estruturais talvez seja o maior erro da democracia brasileira contemporânea. Países não entram em crises autoritárias apenas por golpes abruptos; muitas vezes, eles desmoronam lentamente, corroídos pela descrença popular nas instituições.

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Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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