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2025 marca um novo ciclo de investimentos e políticas estruturantes na educação brasileira

Com foco no acesso, na permanência e na valorização dos professores, o ano consolidou programas nacionais que impactaram milhões de estudantes em todo o país


Dhayane Marques Por Dhayane Marques em 03/01/2026 - 11:22

educação
A educação passou a ser tratada não apenas como política social, mas como estratégia de desenvolvimento e justiça

Em 2025, a educação deixou de ser apenas promessa de campanha para ocupar, de forma concreta, o centro das políticas públicas do Governo Federal. Da creche à universidade, passando pela proteção da infância, pela permanência dos jovens na escola e pela valorização dos professores, o ano foi marcado por decisões estruturantes que impactaram diretamente a vida de milhões de brasileiros. Mais do que ampliar vagas ou investir em infraestrutura, o debate educacional avançou sobre um ponto histórico e sensível: a equidade — especialmente a equidade racial — como condição indispensável para garantir o direito de aprender.

A implementação de políticas educacionais voltadas à construção de uma nação soberana, com uma escola protegida, inclusiva, em tempo integral e com prioridade para quem mais precisa, se consolidou como diretriz. Em um país marcado por desigualdades profundas, a educação passou a ser tratada não apenas como política social, mas como estratégia de desenvolvimento e justiça.

Menos telas, mais presença

O ano começou com a sanção do Projeto de Lei nº 104/2015, que restringe o uso de aparelhos eletrônicos portáteis, sobretudo telefones celulares, nas salas de aula das escolas públicas e privadas da educação básica em todo o país. A medida partiu de um princípio simples, mas poderoso: aprender exige atenção.

Com menos telas disputando o olhar dos estudantes, professores ganharam espaço para ensinar, alunos recuperaram o tempo de escuta, troca e construção coletiva do pensamento. A escola voltou a ser território de presença, diálogo e convivência. Em tempos de hiperconectividade, o recado foi claro: a tecnologia é ferramenta, não substituto da relação humana que sustenta o processo educativo.

Mais tempo na escola, mais oportunidades na vida

Outro eixo central de 2025 foi a ampliação da educação em tempo integral. O Programa Escola em Tempo Integral registrou mais de 1,8 milhão de novas matrículas entre 2023 e 2025, se consolidando como uma das principais políticas de enfrentamento às desigualdades educacionais. Os investimentos acompanharam a expansão, foram R$ 4,1 bilhões entre 2023 e 2024 e mais R$ 3,1 bilhões via Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) em 2025.

Os números confirmam o avanço da educação em tempo integral no país. Entre 2022 e 2024, o percentual de alunos matriculados nessa modalidade saltou de 18% para 23%, impulsionado pelo Programa Escola em Tempo Integral e por políticas regionais que cresceram 90,5% desde 2023. A ampliação da jornada escolar tem garantido não apenas reforço pedagógico, mas também acesso à cultura, ao esporte, à alimentação adequada e à proteção social, fatores essenciais para crianças e jovens em situação de vulnerabilidade.

Em Goiás, o movimento acompanha a tendência nacional. Dados do Censo Escolar 2024 (MEC/Inep) mostram que o percentual de matrículas em jornada ampliada na rede pública estadual subiu de 16,6% em 2022 para 19% em 2024, com crescimento em quase todas as etapas da educação básica, especialmente na pré-escola e nos anos iniciais do ensino fundamental. O avanço reflete a articulação entre Governo Federal, estado e municípios e reforça a educação integral como estratégia central para reduzir desigualdades e ampliar oportunidades de aprendizagem.

Pé-de-Meia e o combate à evasão escolar

Garantir acesso não basta quando a permanência está ameaçada pela desigualdade social. Nesse contexto, o Programa Pé-de-Meia se consolidou como uma das maiores políticas de incentivo à permanência escolar da história do país.

Criado para enfrentar a evasão que atingia cerca de 480 mil jovens em 2022, o programa passou a beneficiar mais de 4 milhões de estudantes por ano, com investimento anual de R$ 12 bilhões. A iniciativa garante R$ 200 mensais para estudantes do Ensino Médio em situação de vulnerabilidade social, além de R$ 1.000 por ano concluído e um bônus de R$ 200 para quem realiza o Enem no 3º ano.

O impacto é direto: menos jovens abandonando a escola para trabalhar precocemente e mais estudantes com condições reais de concluir a educação básica.

Em sintonia com essa política nacional, Goiás fortaleceu suas ações de permanência escolar com o Programa Bolsa Estudo, criado em 2021 e hoje considerado uma das principais estratégias estaduais de combate à evasão. Segundo a Secretaria de Educação de Goiás (Seduc), cerca de 300 mil estudantes da rede estadual são contemplados, com investimento anual que chega a R$ 25,7 milhões, valor ampliado após reajuste de até 38% no benefício. O incentivo financeiro é de R$ 130 para alunos do tempo regular e R$ 150 para estudantes do ensino integral, condicionado à frequência e ao desempenho escolar. 

O programa atende alunos do 9º ano do Ensino Fundamental e das três séries do Ensino Médio, integra políticas como a Busca Ativa e é apontado pelo governo estadual como um dos fatores que colocam Goiás entre os estados com menores taxas de evasão escolar do país e desempenho de destaque no Ideb, reforçando o papel da educação como política pública também de proteção social.

Valorização e reconhecimento profissional

Em 2025, a valorização docente também avançou. Foi lançada a Carteira Nacional Docente do Brasil (CNDB), documento oficial com validade em todo o território nacional, destinado a professores de todos os níveis e etapas da educação, das redes públicas e privadas.

Além de facilitar o acesso a benefícios culturais e educacionais, a carteira integra o programa Mais Professores para o Brasil, lançado no mesmo ano, que reúne ações voltadas à valorização, qualificação do magistério e incentivo à docência na educação básica. Em um cenário de escassez de professores em diversas áreas, a mensagem foi objetiva: sem educadores valorizados, não há educação de qualidade.

Enquanto Goiás avança na equidade racial, dados nacionais revelam desigualdade na educação

Enquanto o Governo Federal avançava em políticas de acesso e permanência, estados e instituições parceiras aprofundaram um debate decisivo: a equidade racial dentro das escolas. Em Goiás, a parceria entre o Governo do Estado e o Instituto Unibanco ganhou destaque durante um simpósio sobre gestão escolar, evidenciando a urgência de enfrentar o racismo estrutural no ambiente educacional.

A iniciativa integra a implementação de estratégias de fortalecimento da gestão escolar, com formações presenciais e on-line voltadas a ampliar o repertório de gestores e professores sobre racismo, seu combate e a promoção da equidade racial nas escolas públicas estaduais.

Segundo o superintendente-executivo do Instituto Unibanco, Ricardo Henriques, a parceria responde a desafios históricos. “A parceria entre a Secretaria da Educação e a instituição parte de um enorme desafio dentro da escola pública de Goiás, e do Brasil como um todo, em enfrentar a desigualdade estrutural que exclui uma parte significativa dos negros do acesso à Educação Básica de qualidade”, destaca.

Equidade como projeto pedagógico e humano

Em fala exclusiva à Tribuna do Planalto, a secretária de Educação de Goiás, Fátima Gavioli, foi direta ao apontar que a equidade deixou de ser discurso para se tornar meta concreta da rede estadual. “Nós vamos continuar focando na proficiência, mas temos uma meta que trabalho há dois anos na rede: a equidade. Equidade racial e equidade de gênero. Todos precisam ser ensinados e todos têm o direito de aprender”, pontua Gavioli.

De acordo com a secretária revelou que os dados do Censo Escolar de 2019 acenderam um alerta: a rede estadual praticamente não tinha estudantes que se autodeclaravam pretos, pardos ou indígenas. “Goiás não é um estado branco. O Brasil não é branco. O que faz uma pessoa se autodeclarar branca muitas vezes é o medo, a falta de confiança, o receio do preconceito”, explica.

A partir desse diagnóstico, a Seduc/GO passou a investir fortemente na formação de gestores e educadores, estimulando o debate sobre identidade, pertencimento e respeito. O resultado começou a aparecer dentro e fora da escola, inclusive dentro de casa. Em um relato emocionante, Fátima contou que a própria neta, de oito anos, passou a se autodeclarar como parda indígena após esse trabalho de conscientização. “Ela respondeu com orgulho quem ela é. Isso me emociona. A criança precisa falar sobre sua cor sem medo, sem mal-estar. Isso é educação.” 

Além das formações, os profissionais da rede estadual receberão um guia de equidade racial, com 39 práticas pedagógicas testadas, pensadas para o cotidiano das escolas goianas.

Desigualdade racial ainda define trajetórias

A urgência do tema é confirmada pelos dados mais recentes do estudo divulgado pelo Todos Pela Educação, com base na Pnad Contínua do IBGE. Entre 2015 e 2025, houve avanços importantes, mas as desigualdades persistem.

A taxa de conclusão do Ensino Médio passou de 54,5% em 2015 para 74,3% em 2025. Ainda assim, um em cada quatro jovens de até 19 anos não concluiu a Educação Básica. Entre jovens pretos, pardos e indígenas, a taxa de conclusão é de 69,5%, enquanto entre brancos e amarelos chega a 81,7%. Mantido o ritmo atual, essa distância só será eliminada em 16 anos.

Quando o recorte é socioeconômico, o abismo cresce: apenas 60,4% dos jovens mais pobres concluem o Ensino Médio até os 19 anos, contra 94,2% dos mais ricos. Gênero também pesa: homens apresentam taxas menores de conclusão e são maioria entre os que abandonam a escola para trabalhar.

Ao cruzar raça, renda e gênero, os dados são ainda mais contundentes: homens pretos, pardos e indígenas, pobres, concentram as menores taxas de conclusão da Educação Básica.

Educação como pacto de futuro

Para a gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, Manoela Miranda, os avanços precisam ser acelerados.“O Brasil avançou, mas ainda em ritmo insuficiente. O novo Plano Nacional de Educação é uma oportunidade estratégica para enfrentar os obstáculos persistentes e garantir acesso, permanência, aprendizagem e equidade”, relatou a gerente.

O balanço de 2025 deixa claro: investir em educação é investir em infraestrutura, programas e valorização profissional. Mas é, sobretudo, investir em pessoas — reconhecendo identidades, corrigindo desigualdades históricas e garantindo que cada criança e jovem tenha não apenas uma vaga na escola, mas condições reais de concluir sua trajetória educacional com dignidade.

Porque educação de qualidade não se mede só em números. Mede-se em pertencimento, respeito e futuro compartilhado.

 

Dhayane Marques

Dhayane Marques é jornalista formada pela PUC-GO. Atualmente é Diretora de Programas da TV Pai Eterno e repórter no jornal Tribuna do Planalto e Tribuna de Anápolis, nas editorias de cidades, educação, economia, agro, diversão e arte.

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