O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acusou o governo de Donald Trump de impor restrições ideológicas à relação com o Brasil e tentar instrumentalizar a política comercial para interferir nas eleições brasileiras. A crítica foi feita em artigo publicado neste domingo (26) pelo jornal norte-americano The Washington Post.
No texto, Lula classificou as novas tarifas aplicadas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros como injustas e um “erro estratégico”. Segundo o presidente, as medidas vão prejudicar empresas dos dois países e elevar o preço de alimentos, calçados, tecidos, móveis, autopeças e outros produtos para os consumidores norte-americanos.
“Tentativas de impor amarras ideológicas à parceria bilateral, ou de instrumentalizá-la para fins eleitorais, não se sustentam. Nunca antes um secretário de Estado norte-americano havia qualificado o Brasil como um país não-amigo. Ninguém vai nos derrotar com base em mentiras”, escreveu Lula.
A declaração faz referência ao secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, que afirmou em junho que o Brasil não integrava a relação de países considerados amigos de Washington na América Latina.
Superávit norte-americano
Lula também rebateu a justificativa de que as tarifas seriam necessárias para corrigir desequilíbrios comerciais. Segundo o presidente, os Estados Unidos acumularam superávit de US$ 428 bilhões no comércio de bens e serviços com o Brasil ao longo de 15 anos consecutivos.
As novas alíquotas aplicadas aos produtos brasileiros variam de 12,5% a 37,5%. Para Lula, a pressão tarifária poderá levar empresas brasileiras a substituir fornecedores dos Estados Unidos por parceiros de outros mercados.
“No médio prazo, essas tarifas vão levar à desorganização de cadeias produtivas que hoje se encontram densamente integradas e as empresas brasileiras vão substituir fornecedores norte-americanos por outros parceiros”, afirmou.
O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos impôs, em 15 de julho, uma tarifa de 25% sobre parte das mercadorias brasileiras. O órgão alegou que políticas adotadas pelo Brasil nas áreas de comércio digital, meios eletrônicos de pagamento, propriedade intelectual, etanol, combate à corrupção e desmatamento prejudicam empresas e trabalhadores norte-americanos.
Pix e redes sociais
No artigo, Lula também contestou as críticas norte-americanas ao Pix, à legislação aplicada às plataformas digitais e à política ambiental brasileira. O presidente afirmou que o sistema de pagamentos não discrimina empresas estrangeiras e defendeu a responsabilização das redes sociais por práticas criminosas.
Lula sustentou ainda que o Brasil ampliou o combate aos crimes ambientais e reduziu o desmatamento desde 2023. Segundo ele, os argumentos usados pelo governo Trump para justificar as tarifas não correspondem à realidade brasileira.
“Respeitamos a soberania de outros Estados e negociamos com todos aqueles que saibam respeitar a nossa. A reciprocidade é a base de toda relação entre nações e temos mecanismos apropriados para assegurá-la”, escreveu.
O presidente encerrou o artigo afirmando que o Brasil permanece aberto ao diálogo com os Estados Unidos, mas não aceitará interferência estrangeira em suas decisões políticas.














