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Goiânia, 92 anos. Entre flores, concreto e contradições

De Pedro Ludovico a Mauro Borges, de Nion Albernaz a Iris Rezende, Goiânia foi moldada por líderes que deixaram marcas profundas


Luciano Cardoso Por Luciano Cardoso em 24/10/2025 - 07:07

Globo Repórter Goiânia
O que ainda resiste é o título de ser Goiânia a capital das mulheres mais bonitas do Brasil

Em 24 de outubro de 1933, Pedro Ludovico Teixeira lançou a pedra fundamental de uma utopia. No coração do cerrado, nas margens do Córrego Botafogo, nasciam os primeiros traços de uma capital sonhada como símbolo da modernidade, da união dos povos e do progresso que Getúlio Vargas prometera ao Brasil novo. Hoje, passados noventa e dois anos, Goiânia é a herdeira de um sonho grandioso — mas também o espelho das contradições de um país que cresceu depressa demais e planejou de menos.

Da utopia ao asfalto, o projeto do urbanista Atílio Corrêa Lima, inspirado nas cidades-jardim europeias, imaginou uma metrópole ordenada, de ruas largas, praças floridas e convivência humana harmoniosa. A cidade se ergueu sobre as fazendas Criméia, Botafogo e Vaca Brava, planejada para cinquenta mil habitantes. Hoje, ultrapassa um milhão e meio, comprimida entre o concreto e a pressa.

Da “Petrônia” sonhada ao nome definitivo escolhido por decreto — Goiânia —, a nova capital rapidamente se transformou em símbolo de audácia. A antiga cidade de Goiás, isolada e estática, deu lugar à modernidade. Pedro Ludovico, o visionário interventor, moveu o centro político e econômico do Estado e, com isso, inaugurou uma nova era.

Mas o tempo, implacável, cobrou o preço da pressa. O traçado geométrico, desenhado para charretes e poucos automóveis, rendeu-se à explosão de carros, motos e ônibus que hoje disputam cada metro de asfalto. O trânsito, caótico, é o retrato fiel de uma cidade que cresceu sem bússola.

O verde ainda resiste, embora por vezes se apaga. Por muito tempo, Goiânia ostentou o título de cidade mais arborizada do Brasil. Sob as copas frondosas das mangueiras e flamboyants, florescia uma identidade própria, feita de sombra e perfume. Nion Albernaz, um dos prefeitos mais lembrados, semeou flores por avenidas e canteiros, imprimindo um toque de delicadeza urbana que marcou gerações.

Hoje, entre viadutos e estacionamentos, o verde resiste em fragmentos — nas praças que ainda sobrevivem e nos parques que teimam em respirar. A cada árvore derrubada para dar lugar a mais uma pista, morre um pouco da cidade-jardim que um dia inspirou orgulho. Goiânia ainda é verde, mas um verde cansado, sufocado pela fumaça e pelo calor urbano.

O que ainda resiste é o título de ser Goiânia a capital das mulheres mais bonitas do Brasil. Goiânia ganhou essa fama por abrigar as mulheres mais bonitas do Brasil — um mito popular que resiste ao tempo. Talvez porque a beleza aqui tenha sido sempre uma metáfora da juventude, da esperança e do brilho do novo. Mas a cidade amadureceu, e com ela veio a consciência de que beleza sem estrutura se desfaz. O charme das avenidas floridas precisa agora dividir espaço com buracos, congestionamentos e um transporte público que pede socorro.

De Pedro Ludovico a Mauro Borges, de Nion Albernaz a Iris Rezende, Goiânia foi moldada por líderes que deixaram marcas profundas. Cada um, a seu modo, traduziu o espírito de sua época: Ludovico, o pioneiro ousado; Mauro, o estadista desenvolvimentista; Nion, o esteta das flores; Iris, o político que viu a cidade crescer em ritmo vertiginoso. Todos fizeram parte da narrativa que construiu a identidade goianiense — uma mistura de orgulho e nostalgia, de grandeza e descompasso.

Mas Goiânia não é só flores e progresso, há cicatriz que ainda dói e marcaram a história de Goiânia. Em setembro de 1987, um dos maiores acidentes radioativos do mundo chocou a capital e o planeta, o episódio do Césio-137.

O brilho mortal de uma cápsula abandonada em um aparelho hospitalar trouxe à tona o preço da negligência. Entre as vítimas, a pequena Leide das Neves, que se tornou símbolo da tragédia, ainda hoje representa a dor e a inocência perdidas naquele episódio.

A lembrança amarga do Césio é uma ferida aberta que precisa ser revisitada, não por saudosismo, mas por consciência — para que o descaso, a falta de vigilância e a desinformação que ceifaram vidas não mais se repitam. Goiânia aprendeu, à custa do sofrimento, que progresso sem responsabilidade pode ser devastador.

Apesar da dimensão humana e simbólica da tragédia, Goiânia parece ter se esquecido do Césio-137. Passadas quase quatro décadas, não há na cidade um monumento digno, um memorial público ou um espaço de reflexão permanente que honre as vítimas e relembre a dor coletiva vivida em 1987. Em todo o mundo, catástrofes como Hiroshima, Chernobyl e Nova York mantêm viva a memória por meio de monumentos que expressam respeito, solidariedade e compromisso com a verdade histórica.

A ausência desse gesto em Goiânia revela uma ferida ainda mais profunda — a do esquecimento. Lembrar não é reviver o sofrimento, mas reconhecer o valor da vida e reafirmar que o descaso e a negligência não podem ser naturalizados. Sem memória, não há aprendizado; sem memória, não há humanidade.

Mas há também muito o que comemorar, em setembro deste ano, Goiânia voltou a brilhar no cenário nacional ao conquistar quatro premiações de destaque, incluindo o 1º lugar no Prêmio Parque da Mobilidade Urbana, reconhecimento pela metronização no transporte coletivo — tecnologia pioneira que reduziu em 30% o tempo de deslocamento dos ônibus. A cidade também recebeu o Selo Connected Smart Cities – Nível Ouro, prova de que, em meio ao caos, há lampejos de modernidade e planejamento.

Ainda assim, o desafio maior permanece, transformar reconhecimento em rotina. O atual prefeito, Sandro Mabel, enfrenta a difícil missão de conciliar prêmios e problemas, tecnologia e desigualdade, enquanto o trânsito se arrasta e o transporte público carece de eficiência e conforto. A metronização é um passo, mas a caminhada é longa.

A cada 24 de outubro, os goianienses celebram mais do que uma data — celebram uma promessa. A data escolhida por Pedro Ludovico, próxima ao seu aniversário, foi pensada para eternizar a revolução e o sonho. Coincidência ou destino, é também o mês em que os flamboyants florescem, tingindo a cidade de vermelho — como se as árvores, cúmplices silenciosas, insistissem em lembrar que a beleza ainda é possível.

Goiânia chega aos 92 anos entre flores e concreto, nostalgia e esperança. É uma cidade que pede pausa — um suspiro no meio do progresso — para reencontrar o equilíbrio entre o humano e o urbano, entre o sonho de Pedro Ludovico e o cotidiano de quem, todos os dias, tenta chegar em casa antes que o sol se ponha sobre o asfalto quente.

Talvez o maior presente para Goiânia, neste aniversário, não seja um novo viaduto, mas a retomada da sensibilidade — a lembrança de que a cidade nasceu para ser jardim antes de ser metrópole.

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Luciano Cardoso

É advogado inscrito na OAB/GO. Membro do Instituto Goiano do Direito do Trabalho. Membro e Conselheiro Fiscal da Associação Goiana da Advocacia Trabalhista - AGATRA. Membro da Comissão de Direito Empresarial da OAB/GO. Chefe do Departamento Jurídico da Companhia de Urbanização de Goiânia - COMURG.
E-mail: [email protected].

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