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“Vice não se impõe, se constrói”

"Eu nunca fui de correr de uma missão. Se as pessoas acreditarem e o grupo acreditar, se há uma concordância, se há uma vontade popular, tudo bem", diz José Mário Schreiner


Andréia Bahia Por Andréia Bahia em 20/12/2025 - 15:15

agro José Mário Schreiner
Schreiner: "Vice não se impõe, se constrói"

Presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), José Mário Schreiner faz uma análise direta e crítica do momento vivido pelo agronegócio brasileiro. Na entrevista, ele avalia os efeitos do tarifaço norte-americano, aponta as reais causas da inadimplência no campo e critica a política fiscal e de crédito do governo federal. Schreiner defende que, apesar de recordes de produção, o produtor rural enfrenta queda nos preços, custos elevados e juros proibitivos. Também aborda a ausência de um seguro rural eficiente, as barreiras comerciais ambientais impostas pela União Europeia e os desafios climáticos. Sem fugir do debate político, comenta o cenário eleitoral de 2026 e reforça o papel estratégico do agro na economia brasileira, que segue sustentando o país mesmo em meio às adversidades. Sobre a eventual candidatura a vice na chapa de Daniel Vilela, ele diz que não vai disputar a vaga e que quem vai decidir é Ronaldo Caiado.

Tribuna do Planalto

Na apresentação dos resultados, foi dito que o tarifaço não teve o impacto esperado. Isso porque ele foi suspenso e modificado ao longo do tempo ou não teria mesmo aquele impacto que foi anunciado no início, de que haveria um resultado catastrófico?

José Mário Schreiner

No início, houve aquela preocupação enorme com o tarifaço, que iria prejudicar a balança comercial brasileira, e é claro que alguns cuidados foram tomados – vou falar mais por Goiás – as pessoas que estavam preparando ou que estavam exportando aceleraram muito o processo antes das tarifas começarem a vigir. O que se observou ao longo do tempo é que o tarifaço foi praticamente inócuo para o Brasil. Isso porque os produtos que Goiás exporta, principalmente os Estados Unidos, têm  baixa oferta, como por exemplo, a carne bovina. Os Estados Unidos não estão dando conta nem de suprir o povo americano. Café vai do Brasil, porque eles não produzem café. Houve duas cadeias que foram prejudicadas, a dos açúcares, os orgânicos, principalmente, e dos pescados. A carne podemos observar que praticamente dobrou. E não só os Estados Unidos estão na contramão da produção de carne bovina. A Argentina também está num processo de baixa oferta de carne vermelha e a Austrália também. É uma oportunidade para que o Brasil possa se colocar cada vez melhor no mercado internacional de carne bovina O tarifaço mostrou isso, tanto que em muitos outros aspectos o (Donald) Trump teve que recuar, baixando as tarifas a nível normal. Eu diria assim: ‘eu vou colocar aquela dificuldade ali, vou colocar esse bode na sala para ver como é que vai’. Na verdade, está voltando tudo como era antes.

 

O governo lançou linhas de crédito para poder atender mercados que eventualmente seriam afetados pelo tarifaço. O senhor disse que alguns produtores renegociaram suas dívidas e que mesmo assim a inadimplência do setor aumentou. Considerando que não houve impacto, o que explica os produtores a situação dos produtores rurais?  

Uma coisa, uma coisa; outra coisa, outra coisa. Nada a ver com o tarifaço, que afetou empresas que eventualmente exportavam para os Estados Unidos e tiveram uma certa dificuldade. Houve renegociação em função da dificuldade do setor agropecuário. Muitas vezes o agro vai muito bem, porque o agro é uma locomotiva cheia de energia, cheia de carvão, com vapor suficiente, puxando todos os vagões, e ela não para de uma hora para a outra, porque a inércia dos vagões empurra a locomotiva. Na safra passada, batemos recorde de produção do Brasil, 350 milhões de toneladas, recorde de produção em Goiás, 37 milhões de toneladas. Imaginar que ontem nós colhíamos 8, 10 milhões de toneladas e hoje estamos com quase 40. Ocorre que os preços dos principais produtos caíram, a soja era R$180 caiu para R$110, milho era R$80, R$90 e caiu para R$50. O custo de produção continuou alto desde a pandemia, quando continuamos produzindo, os preços subiram e o custo subiu. Mas o custo não caiu o suficiente e o preço das commodities caiu. Aliado a tudo isso, a irresponsabilidade fiscal do governo federal, da gastança, de não obedecer arcabouço fiscal, e isso que estamos vendo, essa balbúrdia do governo federal em relação à economia brasileira, que faz com que a Selic esteja a 15%, juros reais altíssimos, mais 5%, 6%, além da Selic, que vai para 20%, o que levou o setor agropecuário a uma dificuldade muito grande. Vínhamos de uma inadimplência de menos de 1% em 2023, pouco mais de 1% em 2024, e hoje já estamos com 11% de inadimplência, o que é muito alto. Além do que, em Goiás, já foram renegociados R$4 bilhões. Aí as pessoas podem perguntar: por que o produtor não para de plantar? Porque é uma máquina contínua. Ele já tinha o financiamento no banco, tem seus compromissos, tem tudo estabelecido, e precisa continuar. O custo de produção está em 53 sacos por hectare. Isso é um custo maluco. Se  somar arrendamento, vai para 70. A média do estado de Goiás é 68. E quem não colhe isso já levou prejuízo. Aliado a isso, tem também a baixa oferta de crédito do governo federal. O governo federal propaga R$590 bilhões de crédito rural. Na verdade, o que tem algum subsídio é pouco mais de R$100. O resto é recurso dos bancos que o governo  diz que é Plano Safra, mas não é dele. Ele usa chapéu alheio para falar que faz e não faz. O produtor está suportando tudo isso nas costas. Ele está usando recurso próprio, as empresas estão financiando, tem produtor vendendo pedaços de terra para plantar, continuar na atividade, conseguir suprir os outros compromissos. Em 2026 não vai ser diferente, tem que ter muita cautela. Se o produtor conseguir empatar o seu custo de produção com o preço de venda, ele já deve travar essa produção. ‘Não, eu vou sobreviver, vou ficar só respirando bem devagarzinho, para não forçar o pulmão, aquele respiro leve, para tentar passar.’  Tem um outro fator que ocorre: se muitos produtores ficarem fora e não conseguirem mais plantar, a produção vai continuar andando, porque outros produtores vão vir produzir. Esse é o agro brasileiro, esse gigante que às vezes as pessoas não conseguem enxergar, é um gigante que tem levado o Brasil nas costas: 27% do PIB, mais de 30% dos empregos, 50% das exportações vêm desse setor. Produtor é uma pessoa que acorda cedo, trabalha, dedica, coloca o seu patrimônio, vende um pedaço de terra para plantar, para continuar na sua atividade.

 

O setor tem uma proposta para resolver essa questão da inadimplência?

Renegociar dívida é um negócio chato, difícil, mas nós vamos ter que enfrentar. Por que  vamos ter que renegociar? Porque não tem seguro. O governo não se importa. Nós trabalhamos há 20 anos buscando ter seguro, produzir seguro, fazer um seguro eficiente. Não tem. Hoje, 7% da agricultura brasileira tem seguro rural. Nos Estados Unidos, 85%.

 

O seguro cobre a quebra de safra, mas não essa diferença de custo de produção.

Mas tivemos quebra de safra, não nesse ciclo, mas dois anos atrás, e não teve seguro. Tem um outro tipo de seguro, que é o seguro de preço, o spread. O governo federal precisa incentivar, precisa bancar parte do prêmio que o seguro é caro, 5%, 6% do custo de produção. O governo, em vez de ficar jogando dinheiro para cá, para lá, coloca um prêmio no seguro. ‘Produtor, quanto custa para você segurar a sua lavoura? A minha lavoura custa 10 mil reais. Tá bom, eu não vou te dar dinheiro subsidiado, mas eu vou te dar a metade do seguro.’ Está resolvido. Agora é preciso ter alguém que tenha essa percepção e essa sensibilidade.

 

E essa proposta tem porta-voz?

Tem porta-voz, mas não tem quem ouve no governo federal. Porque é um governo que não olha para essas coisas. O foco desse governo é perenizar os seus eleitores. Uma coisa é eu pensar no estado de Goiás, eu ter senso público e pensar no meu país; outra coisa é eu pensar na próxima eleição.

 

A falta de sensibilidade do governo com as demandas do agro está relacionada à polarização? 

Não é prioridade. E o agro vai andando, vai se virando, mas muita gente vai morrendo, é uma guerra, muita gente vai ficando pelo caminho. Só que ninguém nem enxerga os mortos. Não tem ninguém nem para catar os defuntos no meio do caminho. Eles ficam lá, a Deus dará.

 

Um dos fatores positivos do ano foi a abertura de novos mercados. O governo Lula fala que abriu 500 novos mercados para o agronegócio. Isso se confirma?

São coisas que já estavam andando, ninguém faz nada de uma hora para a outra. Isso já vinha com a (ex-ministra) Tereza Cristina fazendo, outros fazendo. De repente, eu tinha um problema naquele casquinho interno da unha do porco, e tinha que ter uma licença do órgão de animal lá e resolveu. Mas a gente tem que enaltecer esse trabalho, o Ministério da Agricultura tem trabalhado nisso, sim, e isso é importante para o Brasil. Mas ninguém faz nada sozinho, isso já vinha acontecendo. 

 

Uma das previsões para 2026 que podem impactar o agro em 2026 são barreiras comerciais. Quais as barreiras comerciais que o Brasil pode enfrentar em 2026?

Difícil prever as barreiras comerciais, mas muita coisa tem sido colocada, a União Europeia tem aprovado leis do Due Diligence (em Sustentabilidade Corporativa) e outras tantas, já chegaram a prorrogar por mais de um ano, de que não pode produzir soja em áreas que foram abertas depois de 2020.

 

São barreiras de natureza ambiental?

No fundo, uma barreira comercial disfarçada de barreira ambiental. Nós não podemos aceitar porque a União Europeia quer impor regras supralegais. Nós temos um Código Florestal brasileiro que permite com que o produtor possa utilizar até 80% da área no Cerrado, 65% na transição e 20% na Amazônia, 80% da reserva. E eles falam que não aceitam produção em áreas que foram suprimidas depois de 2020. Quem são eles para ditar leis para nós? Eles querem ditar regras para nós que eles não têm. Nós chegamos de lá há 20 dias e até nas beiradas dos corguinhos eles plantam tudo. Nós preservamos o córrego e temos as nossas reservas legais, nós damos exemplo nas questões ambientais do Brasil. O pior é que essa narrativa é criada aqui dentro, por brasileiros que não gostam do Brasil, criam essa cortina de fumaça e levam para lá. E de lá para cá vem em forma de barreira. Não podemos aceitar e ficar calados. A melhor estratégia é ir lá e mostrar, ou fazer o que já está sendo feito, a CNA faz muito bem, pega os embaixadores em Brasília dos países e os leva para conhecer o agro brasileiro, em Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, para eles verem se é agro sustentável, do plantio direto, da sustentabilidade, da energia renovável, com placas solares, com biogás, enfim, mostrar esse agro sustentável e  eles ficam todos boquiabertos.

 

Em 2026, outro elemento que pode causar algum impacto são as condições climáticas, inclusive a La Niña. Qual a responsabilidade do agro nessa questão climática e o que pode ser feito para que o próprio agro contribua para essa questão?

O agro tem contribuído de forma decisiva,  se analisarmos as emissões de carbono do agro, são insignificantes perante o que o mundo emite. Cada vez mais vamos buscar sustentabilidade, atrás de programas como o ILPF, Integração Lavoura, Pecuária e Floresta, e outros programas de alta sustentabilidade, além do que já temos de forma natural. Essa é uma questão contínua, que temos trabalhado muito para ter esse agro sustentável, para evitar emissões de carbono e acima de tudo, para poder contribuir. Por exemplo, o programa de agricultura de baixo carbono pega uma área degradada – existe uma linha de financiamento, só que com pouco recurso – e transforma numa área altamente produtiva, com pastagem boa e que capta carbono. Esse é um programa bacana que a gente precisa incentivar, mas falta mais recursos para financiar. Se pudermos aumentar a nossa área em Goiás, muito em áreas de pastagens degradadas, transformo em agricultura regenerada, e com isso capturar mais carbono.

 

O ex-senador Luiz do Carmo (Podemos) vem buscando apoios políticos para ser o candidato a vice na chapa de Daniel Vilela (MDB). Ele diz ser um representante do campo. Como o senhor se vê nesta disputa como o ex-senador?

Não existe disputa.

 

Ele diz representar no agro.

Se ele se auto propala pré-candidato a vice, porque não existe candidatura a vice do agro, ele deve ter algum parâmetro; e a pergunta tem que ser para ele. Alguém já escutou falar que eu sou pré-candidato a vice-governador? 

 

O senhor me disse que seu nome estaria à disposição para ser candidato a vice-governador, e apenas vice.

Sim, pré-candidatura a vice se houver essa predisponibilidade do governador, de outros e tudo mais, numa concordância verbal, mas disputa jamais. Eu poderia me dispor, porque eu não sou candidato a legislativo. Eu não sou pré-candidato a deputado estadual, eu não sou pré-candidato a federal, não sou pré-candidato a senador. Em outra situação, se houver concordância, tudo bem, mas não é imposição, como uma missão. Eu nunca fui de correr de uma missão. Se as pessoas acreditarem e o grupo acreditar, se há uma concordância, se há uma vontade popular, tudo bem. Agora, jamais eu fui impor.

 

A quem caberá definir o candidato vice na opinião do senhor?

Ao governador Ronaldo Caiado, com certeza. E também, é claro, com a concordância de Daniel Vilela, que é o pré-candidato a governador.

 

Qual a melhor composição? Daniel é um político do Sudoeste filiado ao MDB. Qual perfil comporia uma chapa competitiva com o Daniel? 

É muito difícil, teria que ser uma complementaridade talvez com algum setor, talvez a visão externa com um pouco mais de experiência, talvez nesse rumo.

 

O senhor complementaria Daniel em uma chapa de que maneira?

Quem tem que enxergar isso são as pessoas, não sou eu. Não posso fazer uma autoanálise. As pessoas precisam enxergar.

 

O senhor foi deputado federal por quatro anos e não quis disputar a reeleição. Por que não mais o parlamento? Até porque o senhor tem um perfil legislativo, tem uma visão ampla sobre leis e projetos.

Quando eu falo de lei, porque aprendi desde criancinha a seguir normas e regras com disciplina, e isso é uma forma legal, de lei. Eu não posso transgredir o processo legal, porque  eu sou um fora da lei. Eu trabalho dentro das quatro linhas. Jamais vão ver eu falar, ou fazer, ou executar, ou defender algo que está fora das quatro linhas. Por isso que eu falo de forma legal, e faço questão sempre de ressaltar. E a todos que trabalham comigo, eu falo olha, dentro do que é legal. Isso a gente aprende em casa. Olha, você pode fazer daqui até aqui; daqui para cá também não pode.

 

O Legislativo está descartado?

Não é questão de descartar. Existe no Legislativo, e isso piorou bastante com a polarização política no Brasil, algo bastante interessante, que são os debates nas comissões técnicas, Eu não vou negar isso, é um debate bacana. Quando se discute projetos ali, se discute com pessoas que pensam diferente de você e você sustenta no debate as questões. Quando vai para o plenário e se vê aquele debate intenso, acalorado, enfeitado, um tiroteio de extremos, ali, sinceramente, eu vejo muita perda de tempo. E, infelizmente, a população brasileira, e não pode ser diferente, ela enxerga ali como se fosse o Legislativo. E no meu entendimento, há momentos ali que são muito ruins até para a imagem do Legislativo, aquele debate inócuo. Não leva absolutamente a nada, muitas vezes fica-se lá num debate inócuo até duas, três horas da manhã, sem produção nenhuma. É claro que a gente não pode dizer nunca mais, na vida não existe isso. Mas leva a gente a ser mais resolutiva, a buscar mais o resultado. Eu não vou negar, tem uma parte muito bacana lá, que é das comissões e que eu, particularmente, gostava muito e defendi muito, trabalhei muito nas comissões. Aquele debate ali no plenário, não.

 

Em relação ao Fundeinfra, qual o futuro do programa em relação ao convênio com o  Ifag?

As obras estão acontecendo.

 

Aquelas que estavam em andamento. E daqui pra frente?

As outras obras, a Goinfra está tocando, são muitas obras. Aquelas que porventura foram descontinuadas vão continuar de uma forma ou de outra. Eu não sei se vai chegar a totalidade, mas o valor das obras já estavam todos definidos. O recurso total do Fundeinfra já estava sendo resolvido.

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