Em um contexto de crescente rejeição à instalação de data centers por questões ambientais, principalmente nos Estados Unidos (EUA), Goiás terá a instalação de quatro dessas superestruturas para receber servidores, sistemas de armazenamento, equipamentos de rede e infraestrutura de TI crítica. O anúncio foi feito pelo diretor-executivo do Instituto Mauro Borges (IMB), Erik Figueiredo, em entrevista à Tribuna do Planalto publicada no último dia 14. Por questões contratuais, ele não revelou a localização de três desses supercentros de dados. Um deles será conectado ao Centro de Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás (UFG), nas imediações de Goiânia.
Figueiredo minimizou impactos ambientais e defendeu que a discussão sobre os data centers tem de acontecer. Em maio do ano passado, entrou em vigor a Lei Complementar 205, que institui a Política Estadual de Fomento à Inovação em Inteligência Artificial no Estado de Goiás e prevê incentivos para essas atividades. A edição da lei e prospecções em missões internacionais projetaram Goiás e publicações nacionais noticiaram movimentações para atrair gigantes como Amazon e Google para instalarem seus data centers no estado. No entanto, não se questionou a questão ambiental enfrentada por locais como a Georgia, nos EUA.
No mês passado, o Estado de Nova York tornou-se o sexto nos EUA a ter projetos de lei para suspender a construção de novas instalações em sua jurisdição, pelo período de três anos. Essa reação tem razões socioambientais. Data centers funcionam 24 horas por dia e consomem quantidades massivas de eletricidade e de água para processamento e refrigeração. Além disso, geram um zumbido contínuo e alto, descrito por moradores vizinhos a data centers nos EUA como um “pesadelo” sonoro, afetando a qualidade de vida. Por fim, há preocupações com a poluição, emissão de gases tóxicos e a geração de lixo eletrônico, como servidores, que precisam ser trocados por outros mais modernos, baterias e outros inservíveis.
Escassez de água
Um amplo diagnóstico feito por pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG) entre 2017 e 2025, no âmbito do Plano de Desenvolvimento Integrado (PDI), mostrou que toda a Região Metropolitana de Goiânia (RMG) corre o risco de sofrer com a escassez de água. Isso porque os cursos d’água superficiais e o lençol freático vêm sendo desgastados a tal ponto que a tão falada crise hídrica está prestes a se tornar calamidade, sobretudo em períodos de seca.
O estudo foi realizado por 38 pesquisadores e coordenado por professores da Escola de Engenharia Civil e Ambiental (EECA/UFG) e observou que cidades como Goiânia, Aparecida de Goiânia, Trindade, Senador Canedo e Bela Vista crescem e fazem planos de expansão sem considerar as condições locais de abastecimento. Uma das coordenadoras da pesquisa, a professora da Escola de Engenharia Civil e Ambiental da UFG Karla Emmanuela Ribeiro Horta, doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento, falou com a Tribuna do Planalto sobre possíveis consequências da instalação de data centers na região, especialmente em relação ao consumo de água para resfriar esses equipamentos.
“É um novo modelo de extrativismo predatório”, define a pesquisadora, acrescentando que se estima que um data center consuma água ao longo do ano equivalente a uma cidade de até 50 mil habitantes. “Em nosso Estado, metade dos municípios tem 20 mil habitantes ou menos. A RMG concentra um terço da população de Goiás e a Saneago está prospectando onde será a futura nova barragem”, avalia Karla Emmanuela, que também integra, como pesquisadora, o grupo Observatório das Metrópoles, que reúne estudiosos de todo o país. “Não vejo problema em pensar em desenvolvimento tecnológico, o que não se pode é comprometer a qualidade de vida das pessoas”.
Senso comum
Um dos questionamentos fundamentais nesse contexto, avalia a professora da UFG, é por que o governo quer que Goiás receba esse tipo de equipamento. “Há um senso comum de que o local terá desenvolvimento tecnológico, mas isso pode ser um mito. A vinda de data centers para Goiás não significa necessariamente o desenvolvimento de tecnologia, mas certamente haverá armazenamento de material que se tornará resíduo”, pontua a professora. Ela lembra que essa situação criará uma nova disputa em um cenário em que já existem conflitos pelo uso e pela outorga de água: “Vamos disputar a mesma água que esses equipamentos, não há água nova, será a mesma, repartida”, explica Karla Emmanuela.

Para ela, a tendência, com a instalação de superestruturas que necessitam de água para se resfriar, é de aceleração no processo de estresse hídrico. “Permitir a instalação desses equipamentos sem um estudo ambiental robusto é preocupante, para não dizer alarmante”, define, lembrando que os eventos climáticos extremos já alteraram a configuração do regime hídrico do Cerrado, antes caracterizado por seis meses de seca e seis meses de chuva. “Hoje, esses seis meses estão virando oito”, observa. Para ela, qualquer instalação desse gênero deve ser precedida de um Estudo de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto no Meio Ambiente (EIA/Rima) rigoroso, ao mesmo tempo em que se testam novas formas de resfriamento.
Outro aspecto é o impacto ambiental sonoro. De acordo com Karla Emmanuela, um data center pode gerar um zumbido de até 80 decibéis, o que traz impactos significativos não só para a população que vive nas imediações, mas também para a fauna. “Há muitos aspectos que deveriam ser olhados antes de propor algo tão impactante, todo desenvolvimento tecnológico na atual conjuntura de mudanças climáticas deveria passar por estudos profundos”, defende.
Licenciamento
Procurada, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) informou, por meio de sua assessoria, que o governo iniciará a adoção da Inteligência Artificial (IA) no licenciamento ambiental em Goiás. A implementação da IA está sendo feita em parceria com o Google, que ofertou o desenvolvimento de uma solução, chamada Mínimo Viável Possível (MVP). O MVP é uma versão mais simplificada do serviço. Depois dos eventuais ajustes e da validação, as partes avançarão para o contrato efetivo.
Já o Ministério Público do Estado de Goiás (MPGO), também procurado pela reportagem para saber sobre eventuais impactos ambientais, enviou nota informando que “não recebeu nenhuma representação sobre o assunto até o momento”. E prossegue: “Mas a instituição, dentro de suas atribuições constitucionais, estará sempre atenta e vigilante em relação a qualquer questão que possa vir a afetar o direito assegurado a um meio ambiente ecologicamente equilibrado”.















