Ferramentas de inteligência artificial (IA), como ChatGPT e Gemini, já não são novidade nas salas de aula brasileiras. Segundo a pesquisa TIC Educação 2024, sete em cada dez alunos do ensino médio usam a tecnologia para realizar trabalhos escolares ou pesquisas. Outro levantamento, conduzido pelo Observatório Fundação Itaú em parceria com a Equidade.Info, indica que 84% dos estudantes e 79% dos professores já utilizaram algum recurso de IA.
A popularidade, no entanto, esbarra em um dado que acende o alerta: apenas 32% dos estudantes afirmam ter recebido orientação sobre uso responsável da tecnologia. Essa lacuna de mediação, apontam especialistas, pode comprometer desde a formação crítica dos jovens até a qualidade da produção acadêmica.
Criatividade em risco
Para a professora Tatiana Duque, do Instituto de Química da Universidade Federal de Goiás (UFG), o maior risco não está na IA em si, mas na forma como ela tem sido incorporada ao cotidiano dos estudantes.
“O perigo da autoaprendizagem é a falta de noção sobre propriedade intelectual e direitos autorais. Muitos usam respostas prontas sem pensar na origem, o que favorece o plágio e enfraquece a criatividade e a originalidade”, explicou à Tribuna do Planalto.
Apesar da crítica, Duque vê na IA uma oportunidade de renovar a prática pedagógica. “As profissões de agora já exigem o domínio da inteligência artificial. Quando bem orientadas, essas ferramentas podem personalizar o ensino e aumentar o engajamento dos alunos em sala de aula”, ponderou.
Para ela, o desafio é estabelecer diretrizes que acompanhem a velocidade das mudanças tecnológicas. “As regras ainda são recentes, porque a tecnologia avança rápido. Muitas vezes aprendemos com os erros. O essencial é que a escola trabalhe conceitos de autoria, citação e originalidade com clareza, de forma a proteger o pensamento crítico”, destacou.
Formação docente: a urgência do agora
O engenheiro florestal e pesquisador Alan Valadares, coordenador do Observatório Fundação Itaú, reforça que a chave está na capacitação de professores. “Esse é um gargalo histórico da educação brasileira, e com a IA não é diferente. É urgente que a formação inicial e continuada dos docentes incorpore o uso crítico de tecnologias digitais”, afirmou.
Na prática, diz ele, a escola precisa assumir protagonismo.“O professor pode propor uma pesquisa com o auxílio de IA e, junto com os alunos, questionar a coerência das respostas. O que está correto? O que falta? Esse exercício desenvolve a capacidade crítica, que é o verdadeiro ganho pedagógico”, exemplificou.
Segundo a pesquisa Fundação Itaú/Equidade.Info, 62% dos docentes defendem a inclusão de módulos sobre IA nos cursos de licenciatura. Entre gestores escolares, a taxa sobe para 89%, revelando consenso sobre a necessidade de mudança estrutural na formação.
Desigualdade no acesso: o velho problema com roupa nova
Os dois especialistas convergem em outro ponto: o risco de a IA aprofundar desigualdades já históricas no sistema educacional. O estudo TIC Educação mostra que, enquanto 67% dos alunos da rede estadual usam internet para atividades escolares, apenas 27% da rede municipal têm o mesmo acesso.
Para Tatiana Duque, essa discrepância não deve ser usada como desculpa para adiar a adoção da inteligência artificial nas escolas. “As desigualdades precisam ser encaradas como um incentivo para ampliar investimentos em infraestrutura e formação de professores. Se os estudantes terão contato com a IA de qualquer forma, cabe ao Estado assegurar que isso aconteça com a devida orientação”, destacou.
Alan Valadares reforça a preocupação de forma ainda mais enfática. “Há um risco concreto de que a IA aprofunde exclusões já existentes. Se chega para uns e não alcança outros, as distâncias inevitavelmente vão se ampliar. É fundamental garantir conectividade, dispositivos e até alternativas offline para regiões mais isoladas. Só assim conseguiremos expandir a tecnologia sem deixar ninguém para trás.”
Impactos imediatos
Apesar dos desafios, os ganhos já são perceptíveis. A agilidade no retorno de avaliações é apontada por Valadares como um exemplo concreto: “Um professor pode aplicar uma prova e, no dia seguinte, ter um diagnóstico claro sobre o que cada aluno errou. Isso é transformador”.
Para Duque, a chave está no equilíbrio. “A IA pode personalizar o ensino e despertar mais interesse nos alunos. Mas também pode sufocar a originalidade, se usada sem reflexão. O equilíbrio precisa ser ensinado no dia a dia da escola”, concluiu.
A reportagem entrou em contato, por e-mail e celular, com a Secretaria Estadual de Educação de Goiás em busca de posicionamento sobre políticas de uso da inteligência artificial na rede pública. Até o fechamento desta edição, não houve resposta.












