O deputado federal Zacharias Calil (União Brasil), reconhecido nacionalmente por sua trajetória na medicina e pela atuação na área da saúde, confirma que não abre mão do projeto de disputar o Senado em 2026. Em entrevista, o parlamentar afirma que já iniciou a pré-campanha, avalia as opções partidárias — com conversas avançadas com o PL e o Partido Novo — e garante que não será convencido a desistir, mesmo diante das movimentações políticas do governador Ronaldo Caiado e da primeira-dama Gracinha Caiado, tida como nome certo para uma das vagas.
Calil diz que sua candidatura é um “projeto de vida”, admite ter cometido erros em votações polêmicas, como a PEC da Blindagem, mas reafirma a postura independente e de direita no Congresso. Ele também fala sobre os bastidores de 2022, quando retirou sua candidatura ao Senado a pedido de Caiado, e garante que, desta vez, não haverá recuo.
O deputado ainda comenta a polarização política, a atuação do governo Lula, o PL Antifacção, e reforça seu compromisso com a inovação, a saúde e o fortalecimento da Primeira Infância. “Não vou desistir. Já estou no jogo e quero disputar o Senado com o mesmo empenho com que fiz minha carreira na medicina”, resume Calil.
TRIBUNA DO PLANALTO – Por que para o senhor só o Senado interessa na próxima eleição?
ZACHARIAS CALIL – Tudo na vida nós temos que programar, sempre pensando mais na frente. Pelo menos eu tenho esse conceito comigo, que a gente trabalha sempre evoluindo, sempre pensando naquilo que poderia fazer de melhor. E acho que, como deputado, eu já dei a minha contribuição e esse é o momento de crescer. Igual, por exemplo, quem sai candidato a vereador, deputado estadual, federal, senador, governador; todos na política fazem esses upgrades. Eu acho também que, como senador, posso contribuir muito mais, porque senador tem mais penetração em todos os setores. Eu acompanho alguns senadores e vejo que a diferença é muito grande. Acho que é o momento de tentar ir para o Senado e, se der certo, bem; se não der, amém. Já estou numa idade em que essa eleição talvez seja a última com duas vagas que eu possa disputar. Pela minha idade, se eu passar para uma outra opção, daqui a quatro anos complica mais ainda. Acho que esse é o momento, porque tem duas vagas, o que melhora um pouco as performances para que a gente possa disputar uma eleição.
Em 2022, o senhor havia anunciado que deixaria a política caso não disputasse a eleição para o Senado. A situação hoje é a mesma?
Eu não pensei nessa possibilidade, porque estou tendo muitos convites, bem diferente daquela época, e eu já consolidei a minha pré-campanha, estou bem consolidado, já estou trabalhando. Porque naquela época, foi decidido em um mês; fizeram umas pesquisas que mostravam que eu estava numa posição tranquila. Eu não era nem candidato, comecei com 4% e fui crescendo ao longo de 15 dias. Cheguei a 15% na pesquisa, e só tinha uma vaga. Foi quando houve aquela disputa entre eu e o delegado Waldir e ele estava na frente, naquele momento na pesquisa, acho que ele tinha 17%. E eu disse ao governador: ele tem essa performance, mas eu sou o candidato que tem o menor índice de rejeição, praticamente zero – as pesquisas mostravam isso – tenho muito mais chance de crescer do que ele. Ele disse que não era assim e acabou me convencendo a retirar minha candidatura para apoiar o delegado Waldir. Eu falei que não era justo e ele disse que precisava de um candidato só, que a chance é maior. Houve essa situação. Ele falou que ia me apoiar para deputado federal para mais um mandato, e eu fui.
Essa situação não pode acontecer de novo? Ronaldo Caiado não teria essa possibilidade de convencê-lo agora a abrir mão do seu projeto?
Não abro. Nesse momento, na minha opinião, o ideal era eu ficar no União Brasil, mas eu não vejo essa possibilidade mais, é totalmente fora do contexto do grupo do União Brasil
em Goiás. Eu já me convenci disso, já desapeguei. É o momento de procurar um outro partido que me dê sustentabilidade para que eu possa lançar a minha candidatura.
O senhor falou que não há possibilidade de permanecer no União Brasil. Isso porque uma vaga do União Brasil é da Gracinha Caiado, e a segunda vaga provavelmente não seja do União Brasil, ou há algum outro componente que impede o senhor de ficar no União Brasil?
O meu projeto é o Senado. No União Brasil, uma vaga do Senado já é da D.Gracinha e a outra deve ser de um partido que interesse ao projeto político deles e do MDB. Eu não tenho estímulo nenhum para ficar nesse partido. Eu já venho conversando com outros partidos e a receptividade está sendo muito boa. Eu vi uma pesquisa essa semana que eu estou com 12%, e precisa ver o índice de rejeição. Eu não estou preocupado em ser o primeiro voto, de jeito nenhum, estou trabalhando para ser o segundo voto. O primeiro todo mundo já sabe. O segundo voto não é um voto político; é um voto de confiança, é um voto em quem tem trabalho prestado, um voto de cultura. O eleitor realmente olha quem é a pessoa. Eu acho que eu tenho chance.
O PL seria uma alternativa para disputar o Senado e há condições para que o senhor vá para o PL?
Sim, inclusive, eu tenho conversado com o senador Wilder Morais, tenho conversado em Brasília e eles me pediram para esperar. O Wilder foi muito honesto comigo, ele falou “todo mundo quer você, eu quero também, porque você é um bom nome, um nome muito leve, mas eu só vou te chamar para entrar no PL a partir do momento em que eu garantir a vaga do Senado para você´. Se eu não te garantir a vaga, não tem razão de você ir para lá.”
Eu falo em condição porque o PL tem a possibilidade de lançar a candidatura ao Senado de Gustavo Gayer. O senhor seria candidato pelo PL se o Gayer também sair candidato ao Senado, considerando que ele está muito bem posicionado nas pesquisas?
Exatamente. Mas tem duas vagas.
As pesquisas apontam que Gracinha Caiado provavelmente será eleita. Sobraria só uma cadeira no Senado.
É, pode ser, mas a eleição a gente só ganha no dia.
O senhor não impôs condições para se filiar ao PL?
Não, mas eu só vou se for candidato ao Senado. Tem outra opção, a do Partido Novo. Eles me convidaram para filiar no partido para fazer uma coligação com o PL. Aí muda todo o jogo. Em Brasília, eles têm conversado muito comigo, principalmente o Marcel van Hattem. Ele deu uma entrevista para um veículo de grande circulação e falou que o sonho do Partido Novo é ter um candidato a senador em cada estado, e citou meu nome em Goiás. Achei muito bom ser lembrado, ainda mais porque ele é uma liderança dentro do Partido Novo. É importante estar no jogo. Eu encontrei o (prefeito) Sandro Mabel em um restaurante a quilo no Alpha Park e quando estava para sair, ele me chamou e disse: “eu tenho uma pesquisa aqui em Goiânia de 2.765 pesquisados e eu fiquei impressionado com a sua performance. Você é o primeiro e o segundo voto. Está todo mundo embolado lá na frente. Você está na disputa.” Eu não vou desistir, não vou mesmo, não vou, não vou. O Podemos também conversou comigo, a Renata Abreu. A gente vai levando. As pessoas têm que entender que meu nome é um nome muito leve, pelo menos é o que eu escuto, e eu estou trabalhando para isso. Eu tenho um escritório político aqui, estou recebendo prefeitos e vereadores do estado inteiro. Ontem mesmo atendi sete vereadores de Anicuns, presidente da Câmara, e assim, estou tendo uma visão geral do estado.
O senhor foi procurado por Marconi Perillo para discutir a eleição de 2026?
Sim, já fui procurado. Ele não, mas emissários que chegam para mim e tal. Ele nunca conversou comigo a esse respeito, mas os emissários falam sobre a gente conversar e acertar a situação. Eu estou aberto a todo mundo, não tenho esse negócio mais. Você tem que estar aberto, não pode fechar para todo mundo, porque não se sabe o dia de amanhã. Tem que conversar. O Caiado não está conversando?
O senhor já se sentiu traído pelo Caiado nessas questões eleitorais?
Não, em nenhum momento. Eu sou muito independente, nunca fiquei nesse negócio de depender disso, daquilo, de governador. O Caiado é uma pessoa muito séria, honesta. Eu o conheço desde quando eu era estudante, e ele é muito ocupado, a gente mal conversa. Devo muito a ele, o Estado deve muito a ele em relação principalmente ao Hospital da Criança e do Adolescente (Hecad). E transformou Goiás no maior polo pediátrico do Brasil. Temos que reconhecer esse trabalho e sou muito grato a ele por trabalhar em uma unidade como aquela, porque se não fosse ele o Hecad não existia não.
Como é a relação do senhor com a candidatura do Daniel Vilela? O senhor tem compromisso com a candidatura do Daniel?
Eu não tenho. Eu encontro raramente com o Daniel, ele está aqui e eu em Brasília, mas nosso tratamento é muito cordial, tranquilo; mas nós nunca falamos de política, não. No momento estou na base aliada junto com o Daniel. O foco é trabalhar na base. Agora, a partir do momento em que ele apoiar outro candidato ao Senado, eu também procuro meu rumo.
O senhor disse que é um político independente e as suas votações no Congresso apontam isso. Ano passado, em 51,47% das votações o senhor votou de acordo com as orientações do partido nas votações. Em quase metade das votações o senhor votou de forma contrária. Como é ser um deputado independente?
O meu partido nunca me cobrou isso, nem de mim nem dos outros também. Veja o Kim Kataguiri, ele também tem sua posição, o Alfredo Gaspar a mesma coisa. A gente vota de acordo com a consciência ou não vota com o governo.
O senhor se considera um deputado de oposição ao governo Lula?
Exatamente. Eu não sou 100% como eles não.
Ainda mais agora que a União Brasil deixou a base, fica mais fácil fazer essa oposição.
Isso que eu sempre defendi. O que é União Brasil? É governo ou não? O que estamos fazendo ali? Se o UB rompeu, anunciou várias vezes esse rompimento, ou sai do governo ou fica. Agora ficou fácil votar da maneira que achar melhor. Mas assim, as votações dependem muito do Colégio de Líderes. Eles se reúnem toda semana e definem a pauta da semana. Mas tem muita coisa que eu não concordo e eu voto muito com o PL e o Partido Novo.
O senhor votou a favor da derrubada da Medida Provisória (MP) que aumentava os impostos dos bancos, empresas de apostas, chamadas bets e justificou que o povo estava cansado de pagar impostos. Essa votação foi contaminada pela eleição de 2026?
Pode ter sido, porque é uma situação em que a gente tem que ver o outro lado. Eles incluem os chamados jabutis e como é que a gente fica? É contra o imposto, mas está aumentando o lucro dos outros. É uma situação que às vezes deixa a gente numa situação muito delicada em relação ao eleitorado.
Outra questão controversa em relação ao eleitorado foi a aprovação da PEC da Blindagem pela Câmara, que foi muito criticada, e o senhor votou favorável. Por que foi favorável a aumentar as possibilidades de impunidade para políticos?
Houve um erro muito grande ali. Houve erro mesmo, todo mundo reconhece. Na realidade eu tinha votado contra. Aí fizeram uma emenda aglutinativa na quinta-feira e puseram para votar. A gente tinha conhecimento de que havia um acordo com o Senado. O erro maior, eu mesmo critiquei muito lá, foi blindar voto secreto e presidente de partidos. Esse foi o maior erro que já se cometeu, e foi ampla maioria. É claro que a imprensa foi contra a população toda. Eu me arrependo do voto? Arrepender é difícil; chegar ali, votar e depois encarar – igual outros colegas fizeram. É, você assume o erro, pronto e vê o que vai acontecer lá na frente. Votei sim e realmente houve o erro. Isso é importante dizer: a Câmara cometeu um erro muito forte naquele momento, com essa emenda aglutinativa.
O senhor disse recentemente que o povo está cansado da polarização. Os deputados também não definem seus votos pela polarização, deixando em segundo plano o teor do projeto?
No dia a dia, quem é da oposição também vota com o governo. O próprio PL tem uma série de situações em que a gente se pergunta como é que pode isso. Esquerda, direita e centro é uma coisa que às vezes não é exata, e não tem como ser exato na política. Alterna muito, e você passa a não confiar muito nas pessoas.
Como pretende votar no PL Antifacção (PL 1.088/2025), que aumenta a pena para pessoas envolvidas em organizações criminosas? O Executivo enviou, mas trata-se de uma pauta da direita?
Eu trabalho com a pauta da direita – a gente tem muito desgaste com isso também – mas eles acabam alterando muito o texto. Você acha que está de um jeito e, de repente, está sendo mudado. Eu tentei analisar e ainda não consegui. Temos que ver como vai ser essa pauta, de que maneira vai ser discutida. Na PEC da Segurança, precisamos proteger o próprio estado. O Caiado está trabalhando muito nisso porque não se pode passar todo o controle da segurança para o governo federal. Isso tem que ser bem discutido e vamos de que maneira vou atuar.
O senhor acredita que em razão da operação no Rio Janeiro, essas discussões sobre segurança vão mesmo ter prioridade no Congresso?
Ah, sim! Acho que isso tem que ser o mais urgente possível. O próprio Hugo Motta (presidente da Câmara dos Deputados) quer pautas positivas para resgatar toda aquela situação da PEC da blindagem. Isso é um fator positivo.
Quando eleito em 2018, seu grande projeto era a construção do hospital da criança e do adolescente, que funciona desde 2021. Qual seu grande projeto agora e para o próximo mandato?
Eu tenho o projeto de manter esse hospital em pleno funcionamento e trabalhar nos municípios. Nós vemos as dificuldades que esses municípios têm, principalmente em relação à regulação, às ambulâncias – tenho recebido muitas demandas, porque os municípios são pequenos, não têm hospital, e as ambulâncias que eles têm para fazer o transporte – é desumano. Às vezes quebra na estrada, não tem pneu, não tem manutenção, tudo isso é importante. Eu tenho distribuído muito maquinário e vi a importância que isso tem para os municípios, principalmente as patrolas, as retroescavadeiras e os caminhões de lixo – cuidar do lixo é saúde e temos que trabalhar para eliminar esse problema que existe em todos os municípios – caminhão compactador, caminhão pipa, principalmente na seca. Tem muita demanda por mataburros, o pessoal de Anicuns me pediu R$ 500 mil para reformar a escola de enfermagem da cidade, que tem 675 alunos e funciona numa situação precária. Como é que a gente que é da saúde vai deixar uma escola acabar?. Temos que ajudar com emendas parlamentares. Quero fortalecer a Primeira Infância, eu sou presidente da Frente Parlamentar; fortalecer a Saúde, que eu também sou presidente da Frente Mista da Saúde do Congresso Nacional. E um detalhe que me chama muita atenção, que vi muito fora do país, é a inovação e a tecnologia. Um país que não tem inovação não vai a lugar nenhum. O INPI no Brasil é uma vergonha. São dez anos para liberar uma patente aqui. Nos Estados Unidos, libera-se uma patente em um ano, um ano e meio, dois anos, no máximo. A tecnologia vai avançando e uma coisa que você descobre instantaneamente já está na internet. Ter biotecnologia igual eu conheci agora em São Francisco, com os laboratórios de inovação, as chamadas incubadoras, onde o pessoal faz projetos e começa a trabalhar nas startups. Os jovens estão ganhando espaço na inovação, é disso que o Brasil precisa. Não é esse marasmo que o país está em termos de inovação. Chego na Austrália, no Congresso Internacional Espacial, e o Brasil só tem um satélite rodando, enquanto os outros países estão todos movimentando. Os brasileiros estão indo para a Índia para fazer lançamento de satélite usando a plataforma deles. E nós temos Alcântara aqui. Tudo isso é inovação, eu fico entusiasmado com o que vejo lá fora. Quando eu comecei a fazer cirurgia de gêmeos siameses, eu já pensava que a gente precisava parar de copiar e desenvolver técnicas. Por que que eu vou transferir paciente para determinado local? Vamos fazer aqui. Tem o apoio do governo? Tem, então vamos fazer. Aí você cresce. Inovação é tudo isso. Esse é o projeto, trabalhar nesse sentido. Quando eu vou para o exterior e falo que eu tenho patente, eles ficam maravilhados de eu ter uma patente que levou 15 anos para sair. Eu fui indicado para o Prêmio Nobel de Medicina pelo Congresso e tudo isso melhora bastante o respeito. E eu tenho qualidade para ser, sim, candidato ao Senado.














