País atingiu recorde de 351,5 mil medidas concedidas em 2026. Crescimento é puxado pelo aumento dos casos de feminicídio e pela celeridade na concessão das ordens de proteção.
O Brasil registrou, até março deste ano, mais de 255 mil medidas protetivas de urgência, volume cerca de 8% superior ao observado no mesmo período de 2025. Os dados foram levantados pela legaltech DeltaAI, com base na Base Nacional de Dados do Poder Judiciário (DataJud) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) .
O volume de medidas protetivas concedidas atingiu um recorde histórico nos primeiros quatro meses de 2026. Foram 351.581 ordens de proteção expedidas entre janeiro e abril, o equivalente a uma concessão a cada 29 segundos . O número representa o maior já registrado para o período desde o início do monitoramento nacional, em 2020 .
A alta coincide com um esforço do governo federal para coibir a violência contra a mulher. Em fevereiro deste ano, o presidente Lula lançou um pacto nacional de enfrentamento ao feminicídio, com o envolvimento dos Três Poderes. Em maio, ao fazer um balanço dos 100 dias da iniciativa, o governo destacou a redução do tempo médio de análise das medidas, que caiu de 16 para três dias. Cerca de 53% das decisões foram proferidas no mesmo dia, e 90% foram apreciadas em até dois dias.
O sistema judiciário, no entanto, segue sobrecarregado. Atualmente, há mais de 1,4 milhão de processos de violência doméstica em tramitação na Justiça. Os processos passaram de 607 mil em 2020 para mais de 1,1 milhão em 2025 . Apenas nos três primeiros meses de 2026, foram registrados mais de 314 mil novos processos, volume equivalente a 28% de todo o ano anterior . Os assuntos mais frequentes incluem violência doméstica, lesão corporal em razão da condição da mulher, descumprimento de medida protetiva e violência psicológica.
Os dados sobre feminicídio também seguem em trajetória ascendente. O total de processos em tramitação ultrapassou 15 mil em março de 2026, alta de 3,2% em relação ao estoque final de 2025 . O número de casos novos mais que dobrou nos últimos cinco anos, passando de 4.209 em 2020 para 12.006 em 2025 . Apenas no primeiro trimestre deste ano, mais de 3 mil novos processos ingressaram no sistema .
Um estudo do CNJ divulgado em agosto aponta que, entre os casos que resultaram em feminicídio, 57,6% das medidas protetivas foram concedidas no mesmo dia do pedido . No entanto, 67% das vítimas de feminicídio não tinham medida anterior contra o réu . O relatório também indica maior incidência do crime em municípios de até 100 mil habitantes, onde a taxa de feminicídios foi de 3,4 por 100 mil habitantes, mais que o dobro da verificada nas grandes cidades, de 1,6 .
Apesar do aumento da demanda, a estrutura especializada para atendimento dessas causas diminuiu. Segundo o CNJ, o número de varas de competência exclusiva para violência doméstica caiu de 200 em 2025 para 179 em 2026 .
Mulheres em situação de violência doméstica podem solicitar medidas protetivas de urgência em qualquer delegacia de polícia, no Juizado de Violência Doméstica ou pelo aplicativo “Direitos Humanos Brasil”. A denúncia também pode ser feita de forma anônima pelo Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) ou pelo Disque 100 (Direitos Humanos). Em caso de emergência, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo 190. O descumprimento de medida protetiva é crime, com pena de detenção de 3 meses a 2 anos.
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