Relatório do Cimi aponta 258 mortes no ano passado. Número de crianças mortas por doenças evitáveis também cresceu. Demarcação de terras avança em ritmo lento, e garimpo ilegal segue pressionando territórios.
O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) divulgou o relatório “Violência contra os Povos Indígenas no Brasil – 2025” nesta quinta-feira (13). O documento aponta que 258 indígenas foram assassinados no ano passado. O número representa um aumento de mais de 22% em relação a 2024, quando 211 mortes foram registradas .
A média anual de assassinatos durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022) foi de 199. O número de 2025, portanto, supera essa marca . Roraima lidera as mortes, com 82 casos, seguido por Amazonas (47) e Mato Grosso do Sul (37). A Bahia, onde o Pataxó Vitor Braz foi assassinado em Porto Seguro, registrou 19 mortes .
Os dados mostram que as três categorias de violência monitoradas pelo Cimi cresceram. A violência contra a pessoa (assassinatos, ameaças e tentativas) teve 474 registros, um aumento de cerca de 12% em relação a 2024. A violência por omissão do poder público somou 366 casos, alta de quase 18%. Já a violência contra o patrimônio teve 1.276 casos, crescimento de 2% .
Crianças e suicídios
O relatório registra 1.024 mortes de crianças indígenas de 0 a 4 anos em 2025. Desse total, 586 (57%) foram por causas evitáveis, como desnutrição, pneumonia e doenças infecciosas intestinais. As mortes nessa faixa etária subiram 11%, enquanto as mortes por causas evitáveis aumentaram quase 18%.
O número de suicídios entre indígenas chegou a 215 em 2025. O Amazonas concentra 77 casos, mais de um terço do total. O estado registra historicamente os maiores índices. Foram sete casos a mais do que em 2024.
Marco Temporal e demarcação
O Cimi aponta que a insegurança jurídica gerada pelo Marco Temporal é central para o crescimento da violência. A tese foi declarada inconstitucional pelo STF em setembro de 2023, mas virou lei em dezembro do mesmo ano, após o Congresso derrubar vetos do presidente Lula. O ministro Gilmar Mendes, relator das ações que questionam a lei, manteve sua vigência e estabeleceu uma Câmara de Conciliação, rechaçada por lideranças indígenas. O STF declarou novamente a inconstitucionalidade da tese no final de 2025, mas pontos problemáticos seguem em discussão no Tribunal .
O processo de demarcação avança lentamente. Em 2025, sete terras indígenas foram homologadas e cinco registradas como patrimônio da União. Nove tiveram relatórios publicados, dez receberam portarias declaratórias e 16 tiveram grupos técnicos criados. A média de homologações no terceiro mandato de Lula é de 7,5 ao ano, inferior à de seus dois primeiros mandatos (9,9 por ano) . Das 1.443 terras e reivindicações existentes, 897 ainda não tiveram a demarcação concluída .
Garimpo ilegal na TI Sararé
A Terra Indígena Sararé, no Mato Grosso, é símbolo da incapacidade do Estado em manter invasores fora dos territórios. O garimpo ilegal disparou entre 2023 e 2024, quando a área destruída dobrou para quase 1.200 hectares. A situação continuou piorando em 2025, inclusive com a instalação de facções criminosas . O Comando Vermelho controla o garimpo de Cururu, e facções armadas disputam espaço com garimpeiros e milicianos. Há relatos de ameaças a indígenas e homicídios na região.
O Ibama realizou a Operação Xapiri-Sararé em agosto de 2025, inutilizando 100 escavadeiras hidráulicas, 312 motores e 428 acampamentos . A atividade ilegal, no entanto, persiste.
Denúncias de violência contra indígenas podem ser feitas ao Ministério Público Federal (MPF), ao Conselho Indigenista Missionário (Cimi) ou à Ouvidoria da Funai. A demarcação de terras indígenas é um direito constitucional e pode ser acompanhada pelos cidadãos por meio de consultas públicas e audiências no processo de regularização. Em caso de emergência, a orientação é acionar a Polícia Federal ou o Ministério Público Federal.
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