Cães e gatos que vivem com tutores fumantes estão expostos a toxinas que podem causar desde inflamações até tumores agressivos. Gatos que convivem com fumantes têm três vezes mais risco de desenvolver linfoma.
Em entrevista ao portal Metrópoles, a veterinária Marcela Aldrovani, professora da Universidade de Franca (Unifran), explica que a rotina de cães e gatos expostos aos resíduos do cigarro dentro de casa gera consequências severas para a saúde. Ao respirar o ar contaminado e realizar a higiene diária de uma pelagem impregnada de toxinas, os pets ficam expostos a substâncias que podem provocar desde inflamações intensas até tumores agressivos.
O impacto do tabagismo vai muito além das vias respiratórias. O problema alcança múltiplos tecidos do corpo e compromete diretamente a qualidade de vida do bichinho. Pets que inalam a fumaça podem sofrer com fortes inflamações e danos graves em suas células.
Quando a fumaça do cigarro entra no organismo do animal, o primeiro contato ocorre nas vias aéreas, onde existem minúsculos “pelinhos” responsáveis por ajudar na limpeza e proteção do sistema respiratório. A exposição frequente à fumaça prejudica essas estruturas, comprometendo a capacidade natural do organismo de liberar o muco e expulsar as toxinas.
Cães e gatos sofrem das mesmas doenças que humanos
Segundo o veterinário Rodrigo Ubukata, especialista em oncologia animal, cães e gatos sofrem das mesmas doenças decorrentes do fumo passivo que acometem seres humanos: câncer, bronquite, asma e crises alérgicas. A incidência de morte em cachorros com câncer de pulmão é de 100%. “O que conseguimos é aumentar a sobrevida deles. Muitos ainda acham que o que fumam é muito pouco para causar mal aos animais. Não importa o quanto se fuma nem com que frequência, sempre faz mal”, afirma Ubukata.
Pesquisas apontam que cães podem desenvolver câncer de pulmão ou de cavidade nasal e seios paranasais. O risco varia conforme o formato do focinho. Cães com focinhos longos, como collies, têm maior probabilidade de desenvolver câncer nasal, pois os carcinógenos se acumulam nas passagens nasais. Já cães de focinho curto, como buldogues, estão mais sujeitos a câncer de pulmão, já que os carcinógenos chegam mais facilmente aos pulmões.
Gatos são os mais vulneráveis
Os gatos estão entre os mais vulneráveis ao fumo passivo. Eles se lambem com frequência e acabam ingerindo partículas tóxicas que se acumulam nos pelos, na pele e no ambiente. Isso eleva muito o risco de doenças, inclusive câncer. Gatos que vivem com pessoas que fumam mais de um maço de cigarros por dia têm três vezes mais risco de desenvolver linfoma, um câncer do sistema imunológico. Outro estudo aponta que gatos expostos à fumaça têm maior probabilidade de desenvolver linfoma maligno.
Fumo de terceira mão: o perigo que fica
O problema não se limita à fumaça inalada. Os resíduos do cigarro se fixam em superfícies da casa, roupas e até na pele dos próprios animais, contaminando o ambiente em que eles vivem. A FDA (agência reguladora dos EUA) alerta que a fumaça de terceira mão – os resíduos que ficam em tapetes, móveis e roupas – também prejudica os pets.
“Como crianças, cães e gatos passam muito tempo no chão ou perto dele, onde os resíduos da fumaça do tabaco se concentram na poeira, em tapetes e carpetes. Depois, isso vai parar em seus pelos”, explica a veterinária Carmela Stamper, da FDA. A ingestão dessas toxinas ocorre quando os animais se lambem ou lambem os tutores. Bitucas e cigarros largados em locais acessíveis também podem causar intoxicações graves se ingeridos.
Fumar na varanda não resolve
Tentar proteger o animal fumando na varanda ou na janela não resolve o problema. As correntes de ar trazem a fumaça de volta para dentro. Agências ambientais recomendam que o cigarro seja fumado sempre em áreas externas, a uma distância de aproximadamente sete a oito metros da casa e de entradas de ar.
A veterinária Lysandra Guidi recomenda que tutores fumantes evitem fumar perto dos animais, especialmente em ambientes fechados. Após fumar, é importante higienizar as mãos, trocar de roupa e manter o ambiente sempre limpo, com atenção especial para tapetes, cortinas e estofados. Sinais de que o pet pode estar sofrendo com a exposição à fumaça incluem dificuldade para respirar, tosse, olhos lacrimejantes, cansaço excessivo, salivação intensa, vômitos e alterações comportamentais, como apatia ou irritabilidade.
Tutores fumantes que desejam proteger seus animais de estimação devem adotar medidas simples: fumar longe dos pets, manter ambientes arejados, higienizar as mãos e trocar de roupa após fumar, e limpar regularmente tapetes, cortinas e estofados. Em caso de sintomas como tosse, dificuldade respiratória ou alterações comportamentais, o animal deve ser levado ao veterinário imediatamente. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece tratamento para tabagismo em unidades básicas de saúde, com acompanhamento médico e medicamentos gratuitos.
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