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“Precisamos de menos Brasília e mais cidades”


Avatar Por Redação Tribuna do Planalto em 22/10/2023 - 00:00

Marden Júnior - Prefeito de Trindade
Marden Júnior - Prefeito de Trindade
Eleito vereador em 2016, em dez meses Marden Júnior foi nomeado secretário municipal e, em 2019, indicado pelo então de Trindade, Jânio Darrot, para disputar sua sucessão. À época adversário do governador Ronaldo Caiado, filiou-se ao UB para disputar a reeleição com o apoio de Caiado. Segundo ele, um governo não deve  entrar em colisão com outro e toda parceria administrativa caminha naturalmente para se tornar também política. Além disso, ele acredita na forma do grupo e tem como referência política maior o ex-prefeito Maguito Vilela. 

Tribuna do Planalto – A Romaria de Trindade sofreu dois reveses nos últimos anos; o envolvimento do Padre Robson na Operação Vendilhões, da Polícia Federal, e os efeitos da pandemia de Covid-19. No ano passado, as expectativas em relação ao público foram frustradas. Este ano, a festa voltou a ter a dimensão que tinha?

MARDEN JÚNIOR – A romaria deste ano surpreendeu a todos nós pela quantidade de visitantes, de carreiros e carros de boi desfilando; surpreendeu a todos pela quantidade de pessoas que vieram à cidade de Trindade. Passaram por aqui em torno de 3,5 milhões de pessoas. Os dois anos que antecederam este foram de muitas dificuldades, ao ponto de a própria igreja estar fechada durante a romaria. No ano de 2022 tivemos o retorno da romaria, mas ainda com uma quantidade menor de visitantes. Este ano já consideramos um retorno praticamente normal das festividades, o que foi um êxito muito grande. Batemos o recorde no desfile de carreiros e, para isso, fizemos uma força-tarefa, visitamos os carreiros nas cidades de origem deles, convidando, incentivando para que pudessem vir. Fizemos um trabalho incansável e consideramos que retomamos a romaria deste ano com  muita efetividade e a expectativa para o próximo ano é que ela seja ainda maior. Tivemos atrações como Roberto Carlos, que colaborou muito para esse retorno, foi  fundamental naquele primeiro final de semana, o rei maior de todos os tempos. A   festa vem passando por uma nova roupagem também, em parceria com a igreja, prefeitura, Governo do Estado, unidos, de mãos dadas, conseguimos promover bem o turismo aqui e é somente assim que se acha a solução para as dificuldades  econômicas enfrentadas pelos municípios. Se não estendermos as mãos, não conseguimos executar uma romaria dessa magnitude.

O custo da festa girou em torno de R$ 5 milhões. A arrecadação com o evento cobriu o investimento?

 Infelizmente, ainda não. Tivemos patrocínio do Governo do Estado, apoio em várias ações, temos uma arrecadação do município que se soma ao patrocínio, mas, mesmo assim, ainda não consegue se equiparar com o gasto. Temos valores agregados a isso tudo, porém, se pensar na frieza do número, do gasto que temos para realizar a romaria, o que arrecada ainda é negativo. Estamos passando por uma transição no nosso turismo, projetando o turismo de forma profissional, fizemos um plano de turismo projetado para os próximos dez anos, hoje temos um CNPJ específico do turismo da cidade, que está no cenário nacional reconhecida legalmente como cidade turística. Dentro do Ministério do Turismo, a cidade é reconhecida. Trindade sempre reagiu ao turismo provocado pela igreja e, nos últimos anos, conseguimos nos colocar no posicionamento de protagonistas nesse processo para que pudéssemos formalizar o turismo na cidade de Trindade,  para que possamos ter nos próximos anos um turismo sustentável. Em que o próprio turista, o próprio turismo financie a cidade turística. Hoje acontece o contrário, o trindadense ainda financia o turismo da cidade. 

O senhor está propondo ampliar o turismo na cidade para além do religioso ou investir mais ainda no turismo religioso? 

As duas coisas, potencializar o turismo religioso – temos aqui a obra de uma das maiores igrejas do mundo, a segunda maior do mundo, que vai receber o maior sino do mundo, pontos turísticos que serão agregados à cidade, obras de infraestrutura, que colaboram com o turismo também, principalmente na época da romaria, tem um estudo de mobilidade da cidade sendo feito para que ela possa suportar o turista com maior qualidade, e também temos a projeção do turismo, de negócios. Trindade se posiciona muito bem com relação a sua logística, é fácil de chegar e de sair, a cidade é um grande trevo, tem GOs vindo de todos os lugares do estado e isso colabora muito com as nossas projeções. Temos um cineteatro com capacidade para mil pessoas, passível de fazer grandes eventos do ramo de negócios, temos a maior feira do Centro-Oeste e o maior festival gastronômico do estado de Goiás. O turismo cultural também é muito forte, temos o encontro de folias e vários eventos  que são feitos durante o ano e que estamos potencializando na forma de festival. Como foi feito o festival gastronômico, para o qual conseguimos trazer Alceu Valença. Atrações que colaboram e o turismo vai se completando. Temos uma culinária muito peculiar, que usa a carne suína e a farinha, e a cidade é uma das maiores produtoras de farinha da região metropolitana, isso tudo colabora e fazemos um turismo também nesse sentido. A nossa culinária também é um carro chefe. 

Os prefeitos que foram eleitos em 2020 sofreram os efeitos da pandemia,  principalmente nas áreas de saúde e educação. Trindade já conseguiu superar os impactos da pandemia?

Logo no início do governo, a vacina estava começando a querer chegar e os números caindo. Havia uma expectativa de que talvez conseguíssemos vencer sem passar por uma outra onda. De repente, logo no mês de fevereiro e março começou a grande onda de transmissão, com muitas mortes. O primeiro ano da gestão foi um ano muito difícil, com grandes desafios e a única intenção do nosso governo era salvar vidas. Nós focamos muito na saúde, investimos muito na estrutura de vacinação para as pessoas não ficarem nas filas, unidades móveis de vacinação para facilitar para os idosos. Consideramos que, ao final, tivemos um resultado importante relacionado à saúde do município. A área financeira foi a que mais sofreu, não tenho dúvida disso. A dificuldade econômica veio depois, a recessão econômica do país passou e essa instabilidade política que vivemos provocada pelos  extremos atingiu muitos municípios, e Trindade não é diferente. Quando se perde o equilíbrio entre os poderes e a democracia fica sub judice, nós  perdemos muito. Estamos tendo uma dificuldade econômica muito grande e isso tudo vem de uma cadeia de coisas que acontece e que chega um momento explode, como redução do ICMS dos combustíveis, essa política pública de diminuir os impostos ao invés de otimizar os impostos. Ao final, chega uma carga pesada para os municípios e nós não fugimos disso. A pandemia e essa recessão por um tempo longo foram muito prejudiciais para o planejamento da nossa cidade. Vou dar um exemplo: a  iluminação de LED. No nosso planejamento, era para começar no início do segundo ano e conseguimos iniciar agora. Tivemos que fazer uma reprogramação de todo o planejamento. No último semestre tivemos a perda de quase 30% na arrecadação. Precisamos usar a criatividade e planejar bem. Com as crianças fora da sala de aula, a educação foi um grande desafio. Fez muita falta a presença das crianças nas nossas unidades, apesar disso temos a melhor alfabetização do estado de Goiás em Trindade, graças a um trabalho que fizemos focado na educação. Fizemos investimentos grandiosos na educação, quase 30% de aplicação do nosso orçamento na educação, porque pensamos na sociedade 50 anos à frente,  colhendo frutos da educação. Eu vejo a dificuldade de muitas prefeituras na área de educação, com professores e administrativos de greve, mas nós potencializamos muito essa relação. Hoje temos o maior salário mínimo do Brasil, R$ 1.632,00, ninguém recebe menos do que isso.  É criatividade, pensar a quatro mãos, chamar os servidores, colaboradores para pensar junto conosco e achar a solução juntos. Na educação, conseguimos vencer o atraso que tivemos. Ficaram algumas coisas ainda para fazer na infraestrutura, que não teve como ter um investimento porque a preocupação era com a saúde. Agora estamos buscando investimento para a infraestrutura, para a iluminação pública. Atrasou um  pouco nosso planejamento e  tivemos que replanejar o plano de governo que foi proposto na nossa campanha. Ao final, eu considero que, vencendo esses desafios e dificuldades, temos muita expectativa e esperança econômica no nosso país, e a cidade de Trindade não fica fora disso. Precisamos de menos Brasília e mais cidades, afinal de contas, o povo mora nas cidades e precisamos viver a cidade de fato e de direito, para que possamos vencer esses obstáculos.

A visita do ministro da Justiça, Flávio Dino, trouxe algum benefício para a cidade?

Demos entrada com o nosso projeto de monitoramento da cidade, para melhorar a  segurança pública, e ele tem nos incentivado a levar adiante a criação de uma guarda municipal, o que também foi pauta e faz parte do nosso planejamento. Conhecer a cidade foi um ponto importante, afinal de contas, é a primeira vez que Trindade recebe, durante uma romaria, para entender a grandeza que é, dois ministros e  um deles foi  Flávio Dino, que trouxe a vertente da segurança pública, com a experiência de governador, entende a importância da romaria, ficou Impressionado. Estamos prestes a iniciar a nossa central de monitoramento, são mais de cem câmeras na cidade, identificação facial e placa de carros, um software bem avançado e que vem de parcerias que estamos fazendo com o governo federal e com o governo estadual.  

O senhor afirmou recentemente que todo o município precisa do estado e que não é bom entrar em colisão com o estado. O senhor não acha que essa condição administrativa acaba inibindo a construção de novos projetos políticos? 

Essa é uma fala que eu parafraseei Maguito Vilela; governo não briga com o governo. Se um dos maiores de todos os tempos disse, temos que parar para ouvir. Nós somos novos, temos que ter exemplos bons e esses exemplos vêm de  pessoas que nos preenchem com bagagem e que se projetaram no estado de Goiás e no Brasil como referência, como foi ele. Quando falamos de governo com o governo, temos que buscar o alinhamento. Tivemos uma grande dificuldade dentro do Governo Federal com relação aos poderes. Se os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário não estiverem alinhados, independentes, mas organizados entre si, sem equilíbrio, as coisas não acontecem. Um poder querendo entrar no outro e as coisas vão só burocratizando e não saem do papel. Quem perde com a divisão do governo é a população. Eu vou dar um exemplo: o viaduto. Nós ficamos 30 anos esperando obras de infraestrutura estruturantes. Quando se busca um alinhamento com o  governo, não se trata de alinhamento político exclusivamente, porque a partir do momento em que se busca esse alinhamento, a adesão política de projetos tem que partir primeiro da adesão administrativa. Isso está sendo bom para a cidade? Ótimo. Os valores são subentendidos entre as partes? Por que não ter as parcerias políticas? E as cidades precisam. Em Trindade, por exemplo, não tem como resolver o transporte coletivo sem o governo do estado estar presente. Tanto é que o subsídio do governo do estado ajuda muito quem sai de Trindade para trabalhar em Goiânia e paga tarifa menor. Na geração de emprego, os polos industriais de cidades com potencial, como Aparecida, que precisou do governo para criar um novo polo e potencializar o polo industrial de Aparecida. Quanto o governo está investindo no Daia de Anápolis?  Nós precisamos dessa junção e quando existe a separação, quem perde é o povo. Sobre a projeção de projetos políticos, ninguém faz política sozinho, ninguém cresce na política sozinho. É preciso ter grupo. Tivemos um exemplo nas eleições estaduais: quando se vai para um projeto sem um grupo formatado, principalmente projetos do executivo, como foi a disputa para o governo com o governador Ronaldo Caiado, seu adversário naquele momento,  que hoje é parceiro dele, Gustavo Mendanha,  o que definiu foi o grupo político que se posicionou. Acaba que buscamos nos espelhar nos grandes líderes que passaram, como Iris Rezende e Maguito Vilela, que cumpriram seu papel com maestria e deixaram esse legado. Maguito nunca levantou a voz para entrar em conflito, sempre foi um pacificador nos processos políticos. Na minha eleição, éramos adversários quando houve a eleição municipal, porém o entendimento era que precisávamos do governo para nos ajudar com obras estruturantes, com ações e viemos buscar essa convergência. Acredito muito que os projetos políticos são construídos a quatro mãos e por isso buscamos essa consonância.

Em 2019 o senhor se filiou ao Patriota para disputar a eleição de 2020 e, agora, se filiou ao União Brasil para disputar a reeleição. O apoio à candidatura de Ronaldo Caiado, em 2022,  contrariando seu partido, influenciou sua decisão? Houve algum atrito no Patriota em razão do apoio ao Caiado? 

Não, pelo contrário. Eu sempre tive uma conversa muito tranquila com Jorcelino Braga, presidente do Patriota, até hoje temos essa relação de respeito. Em momento algum foi me imposto a permanência no Patriota e o Braga sempre foi muito claro com relação a isso. Ele sempre disse: o que for bom para sua cidade você tem que fazer. Sempre deixou isso muito aberto, me deu oportunidade de ser candidato a prefeito da cidade de Trindade e eu também pude retribuir a ele, com muita vontade de ganhar, saindo de 3% contra 39% do nosso adversário, buscando essa diferença nas ruas mesmo, com muito trabalho. E quando fiz a parceria administrativa com o governador, foi natural o processo de aproximação política, até mesmo porque estou em um projeto que não é um sonho individual de ser prefeito de uma cidade ou de outra,  acredito que é um projeto político que nos move,  é um projeto em que venho olhando para frente, buscando alternativas que passam por aqui. Tivemos a oportunidade de eleger um deputado daqui da cidade de Trindade, Cristiano Galindo,  que trabalhava comigo dentro do gabinete. É um projeto político que faz parte de um grupo e nesse grupo eu respeito muito o ex-prefeito Jânio Darrot, que é um um grande suporte, e o governador Ronaldo Caiado, um ícone que chegou da forma que chegou, sendo a pessoa que é,  da maneira que é, com as suas percepções. A ida para o União Brasil culminou nessas eleições para o governo do estado, quando ele teve a oportunidade de pedir o nosso apoio e conseguimos entregar resultados muito positivos. Ele nos entregou o União Brasil da cidade de Trindade. 

A ida de Jânio Darrot para o MDB reforça o apoio do MDB à sua reeleição ou pode haver uma surpresa e o partido apresentar a candidatura do ex-prefeito, que nunca escondeu o interesse de voltar a administrar Trindade?

Entre mim e Jânio nunca houve problema nenhum. Os problemas são criados pelas torcidas e é natural do processo eleitoral e político. Nós sempre tivemos muita cumplicidade nesse sentido. Primeiro, porque tenho muita gratidão. Jânio foi a pessoa que me tirou da Câmara, me deu a oportunidade de me tornar secretário de Habitação, e ali deu para eu trabalhar e mostrar resultado, potencial. Conseguimos entregar isso. Eu sou muito grato pelas oportunidades que ele sempre me deu e semanalmente nós nos encontramos, já pensando nos próximos passos, nas nossas ações administrativas, mas em especial políticas, porque minha referência são as pessoas mais experientes. A juventude sozinha não é solução para nada, podemos ter a força, a vontade, a coragem, mas a sabedoria é divina, é Deus, e as pessoas com experiência. Jânio, no MDB, vem para nos ajudar, está ao nosso lado, junto com o presidente do MDB, Juan Freire, que é irmão de Jânio, temos alguns vereadores, e secretários do município que também foram para o MDB. Toda essa ação conjunta vem para fortalecer. A relação que temos com Daniel Vilela também é de suma importância, confio e acredito muito no potencial dele para esse próximo ciclo que está por vir. O MDB vai ser governo do estado, o partido vai assumir essa cadeira e vamos trabalhar em conjunto. 

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