O medo é, paradoxalmente, propulsor de duas forças antagônicas, a repulsa às atrocidades e o comodismo paralisante que nasce do desespero de não ter sequer tentado impedir aquilo que, se observado com atenção, revela-se muito mais grave do que meras excentricidades comportamentais. A história demonstra que regimes autoritários não se instalam subitamente; antes, anunciam-se por sinais, discursos e práticas que, quando relativizados, pavimentam o caminho para tragédias coletivas. É nesse contexto que se impõe uma análise crítica e vigilante sobre os comportamentos de Donald Trump.
A atuação política de Trump extrapola o campo do populismo ruidoso. Seus ataques sistemáticos à imprensa, classificados reiteradamente como “inimiga do povo”, revelam uma estratégia clássica de deslegitimação das instituições democráticas.
A retórica de “fatos alternativos”, inaugurada por seus assessores, insere-se no fenômeno da chamada “era da pós-verdade”, em que a manipulação emocional suplanta a objetividade, corroendo os pilares do debate público racional.
Esse expediente não é novo na história. Adolf Hitler ascendeu politicamente sustentado por discursos inflamados contra a imprensa, as elites intelectuais e grupos minoritários, promovendo uma narrativa de vitimização nacional e perseguição interna. O paralelismo é evidente, pois assim como o líder nazista, Trump constrói um inimigo interno — jornalistas, opositores políticos, imigrantes — apresentado como ameaça existencial à nação.
O ataque sistemático à credibilidade da mídia e a incitação ao descrédito das instituições republicanas são elementos estruturais do autoritarismo.
No mesmo diapasão, o comportamento de Trump guarda semelhanças inquietantes com o fascismo de Benito Mussolini. O culto à personalidade, a exaltação de uma liderança forte e a retórica ultranacionalista compõem a gramática política do trumpismo. O slogan “Make América Great Again” não é mera peça publicitária, trata-se de um discurso mobilizador que evoca um passado mítico, como fazia o fascismo italiano ao prometer a restauração do “Império Romano”. Em ambos os casos, a nostalgia é instrumentalizada para justificar práticas autoritárias no presente.
Trump também se aproxima de traços típicos do stalinismo, ainda que sob outra matriz ideológica. A personalização extrema do poder, a hostilidade contra dissidentes e o uso político das instituições estatais para perseguir adversários configuram um padrão de comportamento incompatível com regimes democráticos. O incentivo explícito à repressão, inclusive com ameaças de uso das Forças Armadas contra opositores internos, remete a práticas totalitárias clássicas, nas quais o Estado se converte em instrumento de intimidação política.
Os episódios recentes reforçam esse diagnóstico. A tentativa de interferência direta na política brasileira, ao atacar o Supremo Tribunal Federal e o julgamento de Jair Bolsonaro, evidencia uma postura de ingerência externa arrogante e desrespeitosa à soberania nacional.
Trata-se de um comportamento típico de lideranças autocráticas, que se veem legitimadas a ditar rumos políticos além de suas fronteiras.
Igualmente preocupantes são as declarações do ex-chefe de gabinete John Kelly, que afirmou categoricamente considerar Trump um fascista, relatando sua admiração por Hitler e seu desejo de exercer poder autoritário semelhante ao do Führer. Tais afirmações não são especulações jornalísticas, mas testemunhos diretos de quem esteve no núcleo do poder presidencial. Ignorá-las seria um erro histórico imperdoável.
A invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, é talvez o símbolo mais contundente desse processo de erosão democrática. Assim como o Putsch de Munique em 1923, liderado por Hitler, o episódio representou uma tentativa explícita de ruptura institucional, fomentada por um líder inconformado com o resultado eleitoral. Não se tratou de um ato isolado, mas da materialização de um discurso que há anos vinha sendo alimentado.
Em um movimento sem precedentes nas relações internacionais recentes, Trump ordenou e celebrou uma operação militar dos Estados Unidos que resultou na captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e de sua esposa, transportando-os aos Estados Unidos para responder a acusações penais federais ligadas ao narcotráfico e terrorismo. O presidente justificou a ação como parte de uma luta contra cartéis de droga e “ameaças à segurança” dos EUA, chegando a afirmar que os Estados Unidos agora “estão no comando” da Venezuela e pretendem “gerenciar” o país e seus recursos petrolíferos. Essa intervenção, realizada sem aprovação explícita do Congresso ou de organismos multilaterais, gerou críticas quanto à violação do direito internacional e da soberania venezuelana, assim como acusações de imperialismo e hegemonismo político externo.
Esse tipo de ação externa, além de criar um precedente perigoso de intervenção direta em um Estado soberano, carrega ressonâncias históricas que evocam, por analogia, condutas autoritárias de líderes do passado. Assim como Hitler instrumentalizou a ideia de “defesa nacional” para justificar expansões territoriais e eliminação de opositores, a retórica de segurança pode servir para legitimar ações que ultrapassam os limites do direito internacional e da ordem democrática.
A bravata de considerar a aquisição da Groenlândia — território autônomo da Dinamarca — também põe em xeque o respeito à soberania de Estados aliados. Trump reafirmou sua intenção de que os Estados Unidos adquiram a ilha por motivos de “segurança nacional”, sugerindo que uma posse direta seria mais eficaz do que alianças ou tratados. Autoridades dinamarquesas e groenlandesas declararam que o território “não está à venda” e advertiram que qualquer tentativa forçada violaria soberania e poderia comprometer alianças como a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
A insistência pública, inclusive diante de clara rejeição, configura um tipo de diplomacia coercitiva que lembra as práticas expansionistas de Mussolini ao reivindicar territórios para restaurar um passado mitificado de grandeza nacional.
Conclui-se, portanto, que vivemos tempos complicados. A história ensina que o autoritarismo não se instala com tanques nas ruas, mas com palavras, relativizações e silêncios cúmplices. Comparar Trump a Hitler, Mussolini ou Stalin não é exercício retórico irresponsável, mas um alerta fundamentado nos padrões históricos de ascensão de regimes totalitários. O medo não pode nos conduzir ao comodismo. A vigilância democrática é um dever cívico, sob pena de repetirmos, por omissão, os erros mais sombrios do passado.














