O Brasil gosta de repetir, quase como um mantra autoindulgente, que é uma “democracia racial”. A expressão soa bem, conforta consciências e absolve omissões. O problema é que ela não resiste ao menor contato com a realidade. Por trás da retórica cordial, subsiste um país estruturalmente desigual, onde a cor da pele continua a definir, de forma silenciosa — e muitas vezes brutal —, quem ocupa o topo e quem permanece à margem.
O racismo brasileiro não é episódico, tampouco residual. Ele é estrutural. Não se trata de desvios individuais, de manifestações isoladas ou de “excessos” pontuais. Trata-se de um sistema historicamente construído, que naturaliza privilégios e reproduz desigualdades. Um sistema que molda instituições, define oportunidades e delimita espaços de poder.
E é precisamente quando esse sistema é confrontado que ele reage com maior violência.
O episódio ocorrido no último dia 22, durante transmissão ao vivo promovida pelo Tribunal de Justiça do Paraná, em que magistrados negros foram alvo de ataques racistas, não é um acidente. É sintoma. Sintoma de um incômodo persistente – a presença negra em espaços historicamente reservados a uma elite branca ainda é percebida, por muitos, como uma afronta à ordem estabelecida.
Os números escancaram essa contradição. Em um país em que mais de metade da população é negra, a magistratura ainda apresenta uma representação absolutamente desproporcional — apenas cerca de 14% dos juízes se declaram negros. A ascensão existe, é verdade, mas é lenta, quase constrangida, como se cada avanço precisasse pedir licença.
A questão, portanto, não é apenas de acesso. É de aceitação.
O negro que ocupa espaços de poder não é apenas um profissional. Ele se torna um símbolo — e, por isso mesmo, um alvo. Sua presença desafia narrativas históricas, expõe desigualdades e desmonta o confortável mito da meritocracia neutra. E isso, evidentemente, incomoda.
Mas o racismo não se limita às altas esferas. Ele se infiltra nos ambientes mais cotidianos, inclusive naqueles que deveriam ser espaços de formação, proteção e cidadania.
A recente condenação de uma instituição de ensino no Distrito Federal revela isso com clareza perturbadora. Durante uma partida de futebol escolar, adolescentes foram chamados de “macaco”, “pobrinho” e “filho de empregada” dentro das dependências do colégio. Não houve reação eficaz. Não houve interrupção imediata. Houve omissão — e, com ela, a perpetuação da violência.
A decisão judicial foi correta ao reconhecer a responsabilidade objetiva da instituição e a gravidade do dano moral, que, nesses casos, é presumido. Mas o ponto mais relevante não é jurídico — é estrutural. Crianças não nascem racistas. Elas aprendem. E aprendem, sobretudo, com o ambiente que as cerca e com a ausência de resposta institucional firme.
O que se vê, portanto, é a reprodução de um padrão, eis que o racismo que constrange o magistrado é o mesmo que humilha o adolescente no campo de futebol. Apenas muda o cenário. A lógica permanece.
Essa lógica tem raízes profundas. O Brasil foi o maior território escravista do hemisfério ocidental e o último a abolir a escravidão. E, após a abolição, não houve qualquer projeto sério de integração social, econômica ou política da população negra. Libertou-se sem incluir. Formalizou-se a igualdade, mas preservaram-se as estruturas de exclusão.
O resultado é o que se observa até hoje, com desigualdade de renda, sub-representação política, maior incidência de violência, menor acesso à educação de qualidade e uma presença sistematicamente reduzida em cargos de liderança.
E, ainda assim, insiste-se em tratar o racismo como exceção.
Não é.
O racismo estrutural é precisamente isso: a normalização da discriminação nas bases da sociedade. Ele não precisa de declarações explícitas para existir. Ele se manifesta nas ausências, nas estatísticas, nas oportunidades negadas, nas portas que não se abrem — e, quando se abrem, no desconforto que a presença negra provoca.
Por isso, a luta da população negra no Brasil não é apenas por inclusão. É por legitimidade.
Não basta ocupar espaços de poder. É necessário que essa ocupação deixe de ser vista como concessão, exceção ou política compensatória. É preciso que seja reconhecida como direito — histórico, jurídico e moral.
Enquanto a ascensão negra continuar sendo tratada como anomalia, o racismo seguirá operando, ainda que de forma disfarçada.
O episódio no Judiciário do Paraná e o caso da escola no Distrito Federal não são eventos desconectados. São faces de um mesmo problema: a resistência — explícita ou velada — à ruptura de uma ordem racial que sempre beneficiou poucos e excluiu muitos.
O Brasil não é, e nunca foi, uma democracia racial.
É um país em disputa.
E essa disputa, cada vez mais, se dá em torno de quem tem o direito de existir — e de exercer poder — com dignidade plena.














