Em agosto de 1945, o mundo assistiu ao ápice da devastação humana, as bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki que mataram, em questão de dias, mais de 200 mil pessoas — a maioria civis. Mais do que um ato militar, tratou-se de um recado geopolítico da demonstração crua de força de uma potência que, ao encerrar a Segunda Guerra Mundial, também inaugurava uma nova ordem internacional sob o signo do medo e da dissuasão nuclear.
Passadas oito décadas, o planeta continua a viver sob tensões que, embora distintas no formato, não são menos perigosas. Aquele agosto de 1945 foi marcado por uma disputa pelo controle do futuro. Hoje, o cenário global volta a se assemelhar a uma encruzilhada histórica, com grandes potências se enfrentando não apenas em teatros militares, mas também em arenas econômicas, tecnológicas e estratégicas.
As armas de destruição em massa, que outrora eram a expressão máxima do poder, cederam parte do protagonismo a outros instrumentos de pressão, tais como tarifas comerciais punitivas, sanções econômicas, manipulação de mercados de energia, e, sobretudo, ingerências diretas ou veladas na soberania de países considerados incômodos. O campo de batalha deixou de ser exclusivamente físico e passou a incluir cadeias de suprimento, infraestrutura digital, rotas marítimas e fronteiras energéticas.
Nesse contexto, o avanço e consolidação dos BRICS representam um ponto de inflexão. A ampliação do bloco e a busca por alternativas ao sistema financeiro tradicional ameaçam décadas de domínio das potências ocidentais. É um movimento que incomoda profundamente quem, por longos anos, reinou absoluto na condução das políticas internacionais. E, tal como em 1945, quando a geopolítica determinava o destino de nações inteiras, hoje se assiste à reconfiguração das alianças globais, com o mesmo potencial disruptivo — embora, espera-se, sem a mesma tragédia nuclear.
O Brasil encontra-se em posição especialmente delicada nessa quadra histórica. Por um lado, senta-se à mesa dos BRICS ao lado de gigantes como China, Rússia e Índia, incomodando o establishment internacional e atraindo olhares de desconfiança.
Por outro, enfrenta uma crise interna crônica, marcada por fragilidade econômica, instabilidade política e um sistema judiciário que, longe de transmitir segurança, se vê acusado de excessos e parcialidade. Entre a ambição de ser protagonista global e a dura realidade doméstica, o país parece dividido entre a promessa e o risco, entre o prestígio e a vulnerabilidade.
No tabuleiro internacional, o Brasil ocupa uma posição estratégica difícil de ignorar. Sua capacidade de geração de energia limpa — hídrica, solar e eólica — coloca-o na vanguarda de uma transição energética cada vez mais urgente. Soma-se a isso a vastidão e relevância da Amazônia, considerada o “pulmão do mundo” pela função vital na regulação climática global, e o imenso potencial de suas terras agricultáveis, que garantem protagonismo na segurança alimentar planetária. Essa combinação de recursos naturais, energéticos e ambientais transforma o Brasil em um parceiro valioso e disputado, mas também em alvo vulnerável às investidas econômicas, políticas e estratégicas de potências estrangeiras.
O aniversário das bombas de Hiroshima e Nagasaki deveria servir não apenas para homenagear as vítimas e condenar o uso de armas de destruição em massa, mas também para lembrar que os caminhos que levam à catástrofes são, quase sempre, pavimentados por arrogância, desequilíbrio e falta de diálogo. O Brasil, assim como o mundo, precisa escolher com sabedoria que papel deseja desempenhar antes que a história — mais uma vez — cobre um preço alto demais.
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