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“Goiás já está muito bem posicionado para ser o Vale do Silício do Brasil”

Professor Anderson Soares, da UFG, aponta os avanços do Estado em inteligência artificial, alerta para os impactos da tecnologia no trabalho e diz que profissionais precisarão se adaptar


Andréia Bahia Por Andréia Bahia em 05/09/2026 - 08:29

Anderson da Silva Soares Professor e fundador do Centro de Excelência em Inteligência Artificial da UFG
Anderson da Silva Soares Professor e fundador do Centro de Excelência em Inteligência Artificial da UFG
Anderson da Silva Soares - Professor e fundador do Centro de Excelência em Inteligência Artificial da UFG
Anderson da Silva Soares
Professor e fundador do Centro de Excelência em Inteligência Artificial da UFG

A inteligência artificial já está mudando a nossa rotina mais do que percebemos? Onde ela está presente no nosso dia a dia?

A maior parte das aplicações, ao contrário do que as pessoas imaginam, não está, por exemplo, na robótica, que é algo muito materializável. Ela está muito mais presente do que a gente imagina. Hoje é praticamente impossível, quando você olha uma tela, algum eletrônico, não ter algum nível de inteligência artificial embutido, só que um pouco menos sofisticada. Então toda vez que você abre um aplicativo de mobilidade, por exemplo, para pedir um transporte, existe uma IA que determina a precificação, o balanceamento da demanda e o tempo que você vai esperar e qual carro vão te mudar. Esse próprio match é uma inteligência artificial que administra. Toda vez que você abre um aplicativo de full delivery, também é uma IA que determina o que aparece na sua tela e um último exemplo que eu poderia citar, seria qualquer rede social, o conteúdo é personalizado e é uma IA que determina o que vai aparecer na sua tela para maximizar o seu interesse, os conteúdos que são oferecidos de uma forma individualizada. São exemplos muito presentes no cotidiano das pessoas e que talvez não tenham tanto alarde e passem um pouco mais despercebido para a população em geral.

A IA vai substituir empregos ou tende a transformar as profissões?

A palavra correta é transformação, só que o que acontece: nas últimas revoluções industriais, tivemos décadas e até mesmo séculos para nos adaptarmos. Nesse caso, a evolução tem sido com uma velocidade sem precedentes na história. E isso acaba impactando mais o mercado de trabalho. Toda revolução industrial causa impacto no trabalho, isso é fato. Mas o que está acontecendo nesta, especificamente, é que a velocidade tem sido algo espantosa. Não só por causa da IA,  mas esse ciclo de eletrônica, digital e IA faz com que muita coisa seja alterada. A própria chegada da internet alterou muita coisa do nosso cotidiano. O ponto chave é que a chegada da tecnologia não necessariamente substitui, mas, ao dar mais produtividade, impacta. Vou dar alguns exemplos. Um médico radiologista, com o uso da tecnologia, faz mais laudo do que fazia 20 anos atrás. Você sempre vai continuar precisando de um médico com a tomada de decisão final sobre o diagnóstico. Mas fato é que hoje ele faz muito mais do que um profissional dessa natureza fazia 20 anos atrás. O aumento de produtividade, se a demanda pelo serviço não crescer, obviamente vai afetar o mercado de trabalho. Os advogados redigiam peças processuais em máquinas de datilografar e isso era extremamente lento. Hoje, as IAs analisam e sugerem como que tem que ser o documento, isso é muito mais rápido, muito mais produtivo. Esse aumento da produtividade do profissional vai levar ao impacto do mercado de trabalho, sim. Essa é uma visão mais realista do impacto do trabalho do que efetivamente a substituição que é uma questão um pouco mais utópica e muito mais difícil de acontecer.

Até que ponto podemos confiar nas respostas dadas por uma inteligência artificial? Por que ela pode apresentar informações erradas com tanta segurança?

Esse é um dilema da chegada dessa tecnologia atualmente e não há uma resposta sobre isso. Eu sou da geração que viu a chegada dos buscadores como o Google, isso trouxe ganhos, mas naquela época também houve essa preocupação. Ah, mas os sites não são confiáveis, qualquer um pode escrever um site, diferentemente de um livro, que tinha uma curadoria, esse debate já aconteceu 25 anos atrás. Só que a diferença para agora é que a facilidade com que a IA entrega uma informação é muito maior do que a da internet. A gente vai ter que continuar desenvolvendo esse senso crítico de não confiar cegamente no que a tecnologia entrega. Esse é um ponto que a gente vai ter que desenvolver na ótica educacional na sociedade para nos prepararmos para isso.

A inteligência artificial pode prejudicar a capacidade das pessoas de pensar, escrever, estudar e tomar decisões? Existe o risco de ficarmos dependentes da tecnologia?

Esse risco é real, de fato existe. Mas acho que quando a gente olha para as últimas revoluções Industriais, havia preocupações similares, talvez agora a diferença seja a escala, e sobreviveu e se adaptou melhor quem desenvolveu um senso crítico. Eu acho que a receita continua a mesma. Porque querendo ou não, você copiar do quadro foi uma forma que a gente encontrou para desenvolver a capacidade intelectual e a capacidade de aprendizado, mesmo esse conteúdo já existindo. É um desafio que as outras áreas científicas vão ter que responder para que a gente tome providências caso necessário. E eu vou citar um exemplo. As redes sociais chegaram, todo mundo usa, todo mundo gosta, mas chegamos à conclusão, acho que de uma forma majoritária, que o excesso está nos causando mal. E providências têm sido tomadas nesse sentido para inibir esses efeitos colaterais indesejáveis. A gente tem que observar e ter a maturidade para intervir nas questões que a gente julgue prejudiciais.

Outra preocupação, principalmente neste período eleitoral, seria como identificar um conteúdo produzido por IA,  como textos, fotos, áudios e vídeos, em uma época de deepfakes e informações cada vez mais difíceis de verificar?

Até seis meses atrás, era relativamente fácil identificar, neste momento está muito difícil. Não dá para identificar mais com um olhar, vai ter que envolver muito mais um senso crítico com cruzamento de informações e um julgamento sobre coisas absurdas, compreensíveis ou não, do que efetivamente pela detecção, porque o nível ficou realmente absolutamente alto. Tem sido incrementado ao longo desses anos, mas eu diria que, de cinco, seis meses para cá, já não dá mais pra distinguir.

Estamos de mãos atadas frente às informações falsas?

A todo momento, mais do que nunca, só que agora em multimídia. Imagem hiper-realista, áudios sintetizados e isso vai se intensificar cada vez mais.

Existe algum tipo de legislação ou freio que possa impedir isso?

Neste momento, não. Mas criar mais leis na realidade do Brasil não é uma boa ideia, até porque, por que o Código Civil prevê responsabilizações. Pensar em uma legislação específica, achando que uma lei vai resolver, na minha opinião, não é um bom caminho. A gente precisa muito mais da efetividade na aplicação da responsabilização civil.

A própria IA identificar aquilo que foi produzido por ela seria uma saída?

É possível, sim. Há propostas nesse sentido na Europa e nos Estados Unidos, embora a efetividade disso seja questionável, porque eu posso fazer isso nesses grandes provedores comerciais, mas nada impede que alguém um pouco mais fora desse radar coloque uma IA em seu computador local e faça a geração de mídias sintéticas fora desses ambientes comerciais e de uma maneira pirata. Isso é bem possível e bem acessível.

A inteligência artificial pode aumentar a desigualdade entre pessoas, empresas e países que têm diferentes níveis de acesso à tecnologia?

Certamente, porque a gente está falando de uma tecnologia que muda muito a produtividade e se tem uma coisa que as revoluções industriais ensinaram é que faz muita diferença quando você reage a ela no instante que ela está acontecendo, 5 anos, 50 anos depois ou 500 anos depois. Isso faz toda a diferença e acaba determinando muito sobre o que acontece na sociedade. O Brasil é um país ainda em industrialização exatamente por ter aderido muito tardiamente a essas ondas tecnológicas. E agora a gente está passando por mais uma.

Existe uma forma de universalizar essa tecnologia para que, ao invés de aumentar a desigualdade, ela promova a igualdade?

Certamente, embora a gente fale que gera desigualdade, ela também promove acessos. Hoje, nós nos alimentamos bem, embora tenhamos ainda problemas de fome, graças às revoluções industriais, que aumentaram a produtividade. Gerou desemprego no campo? Sim, mas o saldo foi positivo. Este ano, 2026, é o primeiro ano em que vai morrer mais gente por doenças causadas por excesso de alimentos do que por falta de alimentos, pela primeira vez na história da humanidade. Isso só foi possível por causa do ganho de escala. Paga-se R$10 numa coxinha, que tem quase mil calorias, o que era impensável na idade média. A desigualdade que se gera é um efeito colateral, mas se tem uma coisa que o capitalismo, para o bem e para o mal, acaba ajustando é que se aquilo não é benéfico para a maioria, não para de pé. Por mais que alguns nichos sejam prejudicados. Eu posso citar exemplos recentes.  Quando eu era mais jovem, táxi era uma coisa para rico, e os aplicativos de mobilidade, por meio da tecnologia, tornaram isso acessível, muito mais barato. Hoje pessoas com condição financeira mais precária utilizam esse tipo de serviço. Antes isso era impensável. Por que isso se tornou possível? Porque a tecnologia otimiza o uso do veículo. O táxi ficava parado esperando e aquele custo precisava ser pago com corridas mais caras. Causou aquele tumulto social, mas o negócio acabou prevalecendo porque o saldo para a sociedade supera aquele distúrbio causado naquela profissão.

O Senado aprovou incentivos fiscais para estimular a instalação de data centers no Brasil, mas quem paga a conta ambiental? Como evitar que esses empreendimentos pressionem o consumo de água e energia?

A própria lei cuidou disso: coloca que o incentivo só existe dada uma determinada eficiência ecológica na implantação desses data centers. Acho que isso foi pensado e foi muito bem pensado. A maior parte dos casos, esse problema não é tão intenso quanto as pessoas imaginam, são em condições extremamente específicas que há um alto consumo de água e em 98% dos casos isso não acontece. A água fica por anos circulando no data center sem ser trocada, e um cano furado gastaria mais água. A questão da energia é de fato sim algo realmente impositivo nesse caso, o consumo energético é relevante, mas a própria lei teve o cuidado de estabelecer que o incentivo só existe mediante uma eficiência energética, que eu acho que é o suficiente para tratar essa questão.

O senhor foi apontado pelo estudo Pulso 2026/2027 como o nome mais influente do Brasil na área de Inteligência Artificial. Como Goiás, por meio do senhor, conseguiu superar o Sudeste nesta área?

Eu acho que foi uma união de forças que acabou se materializando na minha pessoa. Foi a junção da força da Universidade Federal de Goiás e desse grupo de pesquisadores com uma política pública da Fapeg e do governo de Goiás para implantação em 2019. Fazer aquilo, naquele momento, fez toda a diferença. As coisas boas para acontecer precisam de uma convergência de coisas positivas. Para dar errado, basta que uma seja fraca. Houve uma convergência de fatores que fez com que a gente fizesse a coisa certa no momento certo. Quando o Brasil começou a pensar na necessidade disso, o Centro de Excelência em Inteligência Artificial da UFG (Ceia) e o estado de Goiás já estavam muito bem posicionados e já fazendo isso com uma boa intensidade. Isso fez com que a gente conseguisse equilibrar melhor essa força geográfica dentro do país, para que a gente tenha uma economia mais diversificada e em outros lugares também. Eu atribuo a isso, em 2019, a criação do Ceia, criação do bacharelado em IA, a gente conseguiu, mesmo na pandemia, fazer um crescimento muito intenso no investimento com as empresas e foi um conjunto de fatores que levou a esse sucesso e que acaba, obviamente, respingando nesse tipo de reconhecimento. Embora seja um reconhecimento individual, mas que tem por trás toda essa força coletiva de diferentes frentes.

Quais são os principais projetos que o Ceia desenvolve no momento e quais que beneficiam o estado e os goianos?

Nós temos projetos no Brasil e até fora do Brasil, eu destacaria o projeto com a Cemig chamado Energy GPT, que é uma IA generativa específica para o setor elétrico brasileiro. Os dados oficiais ainda vão ser divulgados em conjunto com a empresa, mas eu posso apontar que é um projeto de um grande sucesso e de grandes resultados na eficiência de alguns processos dentro de uma companhia de distribuição. Em Goiás, eu destacaria o projeto da Cilia Tecnologia, que hoje é uma tecnologia para inspeção veicular que é usada por quase todas as seguradoras que vendem seguro de auto no Brasil. E foi uma tecnologia que nasceu daqui, é uma empresa goiana e que dominou o mercado no Brasil e agora está entrando em outros países.

Esse mercado de inteligência artificial é muito carente de profissionais. Como evitar que esses profissionais que estão sendo formados em Goiás migrem para outros mercados?

Nós lançamos em junho uma ação para contribuir para esse problema, que é chamado Distrito de Inovação, uma parceria da Universidade Federal de Goiás com o governo de Goiás, para que a gente tenha uma presencialidade na geração de empregos dessas empresas que têm relação com o Ceia, não só com o Ceia, mas que parta desse ponto. Vai ser no Setor Universitário para que tenha uma concentração geográfica e passe a oferecer mais alternativas para esses profissionais que atuam no Ceia e que, ao sair daqui e migrar para a iniciativa privada, eles possam ter mais alternativas para o exercício da sua profissão.

No sentido inverso, Goiás tem atraído capital humano de fora?

Temos atraído investimento e atraído gente. É algo impressionante, não só para estudar aqui, por causa dessa força do ecossistema, mas de pessoas. Eu, que ando muito pelo Brasil, é impressionante como eu ouço falar assim: meu amigo foi para Goiás porque é onde a tecnologia acontece. E a gente percebe isso, embora tenha mais de 1.200 pesquisadores contratados. É a força dessa capacidade de atração que é realmente muito interessante e sem precedentes.

É o Vale do Silício do Brasil?

Estamos caminhando para. Ainda falta, ao meu ver, uma capacidade de capital de risco maior, nesse ponto São Paulo ainda é um show à parte, mas sob a ótica de execução, de conexão e uma formação de redes de talentos, eu acho que a gente já está muito bem posicionado.

Quando olhamos para a Inteligência Artificial daqui a dez anos, devemos estar mais otimistas ou preocupados e qual é o maior exagero que o senhor ouve sobre IA?

O maior exagero nesse momento é o temor da inteligência artificial generalista que foge do controle. Isso ainda não é possível. O que acontece na prática é ela ter comportamentos não previstos. Mas ainda estamos distantes daquele cenário em que ela toma consciência e começa a tomar ações para uma certa capacidade própria, cognitiva, isso ainda não é possível. Eu sou otimista, não porque sou um especialista da IA, mas porque quando eu olho todas as ondas tecnológicas das revoluções industriais, tem sempre o mesmo cenário. Impacto no mercado de trabalho, alteração dos produtos e serviços, mas no final, a sociedade sempre soma tudo aquilo que é bom, subtrai tudo aquilo que é ruim e toma um julgamento sobre isso. Porque se não melhora um produto ou serviço que a gente consome, não para de pé. A gente vive um filme, embora mais acelerado, repetido com as mesmas características, e é isso que me faz ter uma visão positiva. Lembrando que no advento dos motores elétricos, da eletricidade, as pessoas queimaram equipamentos com temor da chegada e das mudanças causadas por essas ondas tecnológicas. O misticismo faz parte da humanidade, não está errado ter isso, mas quando eu olho para lições aprendidas eu continuo sendo um otimista, porque no final a gente só vai aceitar aquilo que a gente vê um benefício claro.

Quais informações devemos evitar colocar em ferramentas de inteligência artificial? 

Isso é algo que você deve ponderar sobre o nível de sensibilidade, porque, embora as empresas tenham a opção de não compartilhar esse dado fora do seu contexto, de uma forma indireta, é muito provável que esse dado seja usado de alguma forma. Então você sempre deve pensar no nível de sensibilidade daquilo que está oferecendo para a tecnologia.

De que maneira a IA pode utilizar esse dado mais sensível de forma indireta?

Vamos citar um exemplo hipotético: uma empresária que tem uma loja e joga toda a sua planilha de custos, margens e lucros para a IA analisar. Ela não vai dizer “a fulana pratica o preço tal”. Mas vai poder usar isso para dizer: geralmente a média dos preços é tal para uma outra pessoa. Isso é usar a informação indiretamente.

Todos os profissionais vão precisar ter conhecimento sobre inteligência artificial ou algumas categorias vão utilizar sem compreender o mecanismo?

Como IA é uma tecnologia que a gente chama de generalista, assim como internet, computador, sozinha ela não serve pra nada, mas a penetração nas diferentes profissões é muito alta. A IA faz parte desse conjunto. Há artistas que fazem suas obras sem o uso de computador? Sim, fato. Há quem venda no varejo sem uso de internet? Também, mas todas essas categorias mudaram. Eu não diria que vai entrar em todos, mas vai impactar em algum nível todos. E isso faz com que a gente tenha uma necessidade de adaptação e resiliência Assim como foi com a chegada dos computadores, não quer dizer que você precise saber como construir um computador, como construir uma IA, mas que você vai ter que desenvolver habilidades no uso, isso eu acho que é algo óbvio para o futuro.

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