Uma nova abordagem científica pode mudar a forma como a obesidade é prevenida desde a infância. Segundo um estudo publicado na revista Nature Medicine, escores de risco genético, conhecidos como scores poligênicos, são capazes de prever com considerável precisão o risco de uma criança desenvolver obesidade, mesmo antes de qualquer sinal físico evidente.
O estudo envolveu mais de cinco milhões de participantes e conseguiu identificar milhares de variantes genéticas ligadas ao ganho de peso. A partir dessa base, os pesquisadores criaram um escore capaz de estimar o Índice de Massa Corporal (IMC) futuro — principalmente em populações de ancestralidade europeia. Os resultados indicam que crianças com escores mais altos tendem a ganhar peso rapidamente a partir dos 2,5 anos de idade.
“Esse tipo de ferramenta representa um avanço revolucionário no campo da medicina preventiva, ao possibilitar intervenções precoces e personalizadas com base no risco genético individual”, afirma o médico nutrólogo e intensivista Dr. José Israel Sanchez Robles. “Ao identificar, ainda na infância, indivíduos com maior predisposição à obesidade, torna-se possível elaborar estratégias personalizadas de prevenção, com o objetivo de impedir que a doença se manifeste ao longo da vida.”
A pesquisa também alerta para um desafio: mesmo após tratamentos intensivos, como dietas e programas de exercício, crianças com predisposição genética tendem a recuperar o peso. Isso levanta a necessidade de soluções mais duradouras.
“O que mais chama a atenção é a elevada capacidade preditiva desses escores quando aplicados precocemente — mesmo antes de qualquer alteração significativa no índice de massa corporal (IMC). Nessa abordagem, a genética atua como uma verdadeira lupa sobre o futuro metabólico do indivíduo, permitindo uma leitura antecipada dos riscos à saúde”, destaca Dr. José Israel.
Apesar dos avanços, a ferramenta ainda enfrenta limitações, como a baixa representatividade de outras etnias nos bancos genéticos utilizados. Segundo os pesquisadores, os escores explicam apenas parte da variação do IMC — cerca de 17,6%.
“É fundamental compreender que a genética não determina, por si só, o destino de um indivíduo, mas sim indica uma predisposição. Fatores ambientais, hábitos alimentares e estilo de vida continuam a exercer influência decisiva na expressão dessas características genéticas”, avalia o especialista. “O risco genético não substitui as estratégias clássicas de prevenção, mas tem o potencial de torná-las significativamente mais eficazes quando integradas de forma adequada às práticas clínicas e aos programas de saúde pública.”
Por fim, o médico reforça a importância da equidade no acesso às novas tecnologias: “A medicina personalizada precisa ser também uma medicina equitativa. A tecnologia só faz sentido se puder beneficiar todas as populações, e não apenas uma parcela delas.”














