Após 25 anos de pesquisa silenciosa, resiliente e conduzida quase à revelia do poder público, a ciência brasileira volta a provar que o problema do Brasil nunca foi falta de talento. A descoberta da polilaminina, desenvolvida pela equipe liderada pela Dra. Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), escancara uma verdade incômoda, que mesmo abandonada, a ciência nacional ainda é capaz de produzir avanços que mudam o destino de vidas humanas.
A polilaminina é uma proteína recriada em laboratório a partir da laminina, substância presente na placenta humana e essencial à organização dos tecidos. Sua característica mais extraordinária está na capacidade de orientar neurônios a se reconectarem, criando um ambiente propício à regeneração de áreas lesionadas da medula espinhal. Em termos simples, ela “ensina” os neurônios a reencontrarem seus caminhos perdidos.
Os resultados são mais do que promissores. Um oficial do Exército, de apenas 25 anos, que havia se tornado tetraplégico, voltou a mover os dedos dos pés, recuperou progressivamente a marcha e hoje caminha novamente. Casos semelhantes, documentados em aplicações experimentais e compassivas, mostram ganhos reais de motricidade, sensibilidade e autonomia. Em janeiro de 2026, finalmente após mais de 5 anos do pedido, a Anvisa autorizou o início dos testes clínicos de Fase 1, marco regulatório que deveria ter ocorrido anos antes, não fosse a crônica escassez de recursos.
É preciso enfatizar que essa pesquisa quase morreu. Não por falha científica, mas por falta de investimento. Durante décadas, a equipe sobreviveu com financiamentos intermitentes, editais insuficientes e bolsas congeladas. O que está em jogo aqui não é apenas um medicamento inovador, mas um retrato cruel das políticas erráticas de ciência e tecnologia no Brasil.
Os números são eloquentes e constrangedores. Embora o Brasil seja hoje a 12ª maior economia do mundo, ocupa apenas a 55ª posição no ranking global de investimentos em ciência e tecnologia, destinando cerca de 1,2% do PIB à área. O contraste é brutal: Israel investe 6,3% do PIB, a Coreia do Sul 5%, Taiwan 3,8%, Suécia 3,5%, Estados Unidos 3,4% e Japão 3,3%.
Quando se analisa o investimento por habitante, a situação beira o absurdo. Os Estados Unidos investem cerca de R$ 11.500,00 por pessoa, Israel R$ 9.700,00, Alemanha R$ 7.857,00, Japão R$ 7.560,00 e China R$ 2.807,00. O Brasil? Apenas R$ 108,50 por habitante. Não se trata de diferença marginal, mas de um abismo civilizatório.
Enquanto a ciência brasileira sobrevive com orçamentos erráticos e insuficientes, o contraste com os gastos do aparato político-institucional é não apenas constrangedor, mas revelador das prioridades nacionais, eis que cada parlamentar brasileiro custa, em média, mais de R$ 2,7 milhões por ano, colocando o Congresso Nacional entre os mais caros do mundo, sendo que apenas Câmara e Senado terão, em 2026, um orçamento estimado em R$ 28 bilhões, valor destinado majoritariamente a salários parlamentares de R$ 46.366,19 mensais, cotas parlamentares elevadas para passagens, combustíveis e veículos oficiais, vultosas verbas de gabinete para contratação de assessores e a manutenção de cerca de 14 mil servidores no Legislativo; soma-se a isso o volume ainda mais expressivo das emendas parlamentares, que devem alcançar aproximadamente R$ 61 bilhões em 2026, onerando o orçamento público sem qualquer correlação direta com planejamento estratégico de longo prazo.
No Judiciário, o cenário não é distinto, o Supremo Tribunal Federal aprovou proposta orçamentária de R$ 1,047 bilhão para 2026, com aumento de 9,78% em relação ao ano anterior. Para agravar o quadro de distorções, o fundo eleitoral consumirá cerca de R$ 5 bilhões, valor que supera em mais de 200% o montante destinado à pesquisa científica no país e que, quando comparado aos recursos previstos para a pesquisa na área da saúde — apenas R$ 234 milhões em 2026 —, evidencia uma disparidade ainda mais chocante, eis que o financiamento eleitoral será mais de vinte vezes superior ao investimento público destinado à produção de conhecimento científico voltado à preservação e recuperação da vida humana.
O recado é inequívoco sobre nossas prioridades! Qual é, afinal, a prioridade nacional, quando em um país que investe apenas 1,2% do PIB em ciência e tecnologia, a política permanece amplamente financiada, e a produção de conhecimento, a inovação e as soluções capazes de salvar vidas seguem sistematicamente relegadas a segundo plano?
E não se diga que ciência e tecnologia se resumem à saúde. O orçamento nacional de CT&I se pulveriza em áreas estratégicas como agronegócio, Amazônia, defesa civil, biocombustíveis, tecnologia da informação, mineração, transição energética, soberania tecnológica, formação de recursos humanos e inovação industrial. Ainda assim, menos de R$ 3 bilhões por ano são efetivamente destinados à pesquisa e desse valor apenas R$ 234 milhões em saúde, valor irrisório diante do impacto social e econômico que descobertas como a polilaminina podem gerar.
O erro central está na concepção. Ciência e tecnologia seguem tratadas como gasto, quando deveriam ser compreendidas como investimento estruturante de Estado, contínuo, previsível e blindado de ciclos eleitorais. Sai governo, entra governo, e os recursos minguam. Entre 2020 e 2023, as bolsas de pesquisa ficaram congeladas. Hoje, há bolsas de doutorado no Brasil inferiores ao salário mínimo de diversos países.
O resultado é previsível! Formamos cientistas com recursos públicos e os exportamos gratuitamente. Nos últimos dez anos, o Brasil perdeu cerca de 7.500 cientistas pesquisadores, que buscaram condições dignas de trabalho no exterior. O caso da goiana Queite de Paula, formada em Química pela UFG, pós-doutora e PHD pela USP e hoje pesquisadora nos Estados Unidos, é emblemático. Sua pesquisa sobre partículas atmosféricas poderia estar sendo desenvolvida aqui. Não está. Perdemos a cientista, o conhecimento e os frutos econômicos.
O paradoxo é cruel. O Brasil reúne talento humano de excelência e abriga uma das maiores biodiversidades do planeta, um laboratório natural incomparável. Ainda assim, desperdiça oportunidades históricas. Quantas pesquisas foram abandonadas? Quantas ideias morreram nos últimos 10, 20 anos? Quantas vidas poderiam ter sido salvas se tivéssemos tratado educação e ciência como prioridade nacional?
A polilaminina é, ao mesmo tempo, esperança e denúncia. Esperança para pessoas com lesão medular, que vislumbram autonomia e dignidade. Denúncia de um país que insiste em caminhar devagar enquanto o mundo corre. Enquanto o Brasil não compreender que educação, ciência e tecnologia são pilares de soberania, continuará pequeno diante das grandes inovações globais — não por incapacidade, mas por escolha política.
A ciência brasileira resiste. Mas não deveria apenas resistir. Deveria liderar!















