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A vítima do autoritarismo

Quando a justiça é destruída, o que resta é o silêncio. E é no silêncio que o autoritarismo prospera


Luciano Cardoso Por Luciano Cardoso em 29/08/2025 - 07:55

STF
Justiça é vítima do autoritarismo

Em tempos de turbulência política, crises institucionais e discursos inflamados, uma palavra ganha peso e urgência: justiça. Muito mais que um conceito jurídico, a justiça é a espinha dorsal de uma sociedade democrática. É ela que assegura direitos, equilibra poderes e impõe limites aos abusos. No entanto, justamente por ser tão fundamental, é também a primeira a ser sacrificada quando a democracia começa a ruir.

A história é didática e implacável. Em qualquer regime autoritário, seja de esquerda ou de direita, a justiça é uma das primeiras instituições a ser atacada, desfigurada ou simplesmente silenciada. Cortes são fechadas ou aparelhadas, juízes independentes são perseguidos, promotores que investigam o poder são demitidos ou calados. O autoritarismo não tolera a justiça — porque a justiça, em sua essência, é resistência.

Basta observar os exemplos que atravessam o século XX: na Alemanha nazista, na União Soviética stalinista, no Chile de Pinochet, na Venezuela de Chávez e Maduro — em todos, a justiça deixou de existir como pilar do Estado e foi rebaixada à condição de ferramenta do poder. O direito deixou de proteger os cidadãos e passou a servir ao líder. A legalidade foi moldada conforme a vontade dos autoritários, e não mais como expressão da soberania popular.

É importante destacar: justiça, no sentido pleno, só encontra abrigo verdadeiro em regimes democráticos. Apenas sob a democracia existe a liberdade necessária para que os tribunais julguem com independência, que o cidadão tenha acesso a um julgamento justo, que os abusos do Estado sejam questionados e punidos. Sem democracia, não há justiça — há apenas o simulacro dela.

A fragilidade da justiça em tempos sombrios também serve como termômetro da saúde democrática de um país. Quando o Judiciário começa a ser atacado sistematicamente, quando decisões judiciais são desrespeitadas por representantes do próprio Estado, quando juízes são difamados por cumprirem seu dever, algo está profundamente errado. São sinais claros de que forças autoritárias estão em movimento.

Defender a justiça, portanto, é defender a democracia. E defender a democracia é proteger a justiça. Não há separação possível entre esses dois pilares — um não sobrevive sem o outro. Uma sociedade que abre mão da justiça em nome da “ordem”, da “segurança” ou do “progresso” está, na verdade, abrindo caminho para a barbárie.

A preservação da justiça exige vigilância constante. Exige cidadãos atentos, imprensa livre, instituições fortalecidas. Não se trata apenas de proteger tribunais ou magistrados — trata-se de proteger cada indivíduo, cada direito, cada conquista civilizatória que custou sangue e suor ao longo da história.

A justiça é, em última instância, o que nos separa da tirania. É ela que assegura que o mais fraco possa se defender do mais forte. Que o cidadão tenha voz contra o Estado. Que a lei seja aplicada com equidade, e não conforme o capricho do governante de plantão.

Quando a justiça é destruída, o que resta é o silêncio. E é no silêncio que o autoritarismo prospera.

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Luciano Cardoso

É advogado inscrito na OAB/GO. Membro do Instituto Goiano do Direito do Trabalho. Membro e Conselheiro Fiscal da Associação Goiana da Advocacia Trabalhista - AGATRA. Membro da Comissão de Direito Empresarial da OAB/GO. Chefe do Departamento Jurídico da Companhia de Urbanização de Goiânia - COMURG.
E-mail: [email protected].

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