A resposta global ao HIV enfrenta um forte impasse: enquanto a ciência avança com tecnologias de prevenção de ação prolongada, preços abusivos e cortes de verbas internacionais limitam o acesso a esses tratamentos.
A médica Beatriz Grinsztejn, presidente da International Aids Society (IAS), alerta que a América Latina vive essa contradição de perto ao ser excluída, pela terceira vez consecutiva, de um acordo internacional para a produção de genéricos, mesmo tendo participado ativamente dos ensaios clínicos dessas novas drogas .
A exclusão da região de licenças para medicamentos como o Alimatravir, o cabotegravir e o lenacapavir reflete entraves econômicos estruturais. Embora os voluntários dos testes tenham acesso assegurado às medicações, a indústria farmacêutica mantém preços inviáveis para incorporação no Sistema Único de Saúde (SUS) . A Anvisa aprovou o uso do lenacapavir como PrEP semestral em janeiro de 2026, mas a disponibilização no SUS depende da avaliação da Conitec e da fixação de preço pela Cmed .
Além das barreiras comerciais, a resposta mundial à doença sofre com cortes de financiamento impostos por grandes programas internacionais. Dados divulgados durante a AIDS 2026 mostram que o PEPFAR perdeu ao menos uma subvenção em mais da metade das 166 organizações financiadas em 46 países, resultando no fechamento de 1.714 centros e serviços . Aproximadamente 77 mil crianças deixaram de receber tratamento em 2025 , e os programas de testagem para HIV caíram 22% entre 2024 e 2025 .
A Unaids alerta que os cortes de financiamento, combinados com a redução do espaço cívico e a criminalização de populações marginalizadas, criam a maior tempestade que a resposta ao HIV já enfrentou . A ajuda global ao desenvolvimento caiu 23% em 2025, e a adesão à PrEP caiu 38% em 62 países .
A meta de erradicar a Aids até 2030 torna-se cada vez mais distante. Apesar do cenário adverso, a presidente da IAS destaca a importância do SUS, apontando que o sistema público protege a população brasileira dos impactos mais severos do desfinanciamento internacional. O Brasil já é o primeiro país continental certificado pela OPAS pela eliminação da transmissão vertical do HIV . A Fiocruz avalia transferência de tecnologia para produzir lenacapavir no país .
O SUS oferece gratuitamente tratamento antirretroviral, PrEP oral e PEP para HIV em todos os estados. Pessoas com HIV devem manter acompanhamento regular em serviços de saúde especializados. Caso haja dificuldade de acesso a medicamentos ou tratamento, a Defensoria Pública e o Ministério Público podem ser acionados para garantir o direito à saúde.
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