O avanço e a sofisticação do crime organizado no Brasil são temas centrais desta entrevista com Edemundo Dias, ex-secretário de Segurança Pública e ex-diretor-geral da Polícia Civil de Goiás. Com trajetória acadêmica e experiência prática no enfrentamento à criminalidade, ele traça um diagnóstico preocupante: as facções deixaram de atuar apenas nas periferias e passaram a operar como verdadeiras multinacionais, com influência econômica e infiltração em estruturas de poder. Ao longo da conversa, Dias analisa a evolução dessas organizações, critica estratégias de combate adotadas no país e aponta os desafios institucionais para conter o avanço do crime de alta complexidade.
Quais são os principais desafios no combate ao crime organizado no Brasil, na opinião do senhor?
Eu escrevi um livro, chamado “O Vácuo do Poder e o Crime Organizado”, no início do ano de 2000, era objeto de uma tese de doutorado, e publiquei em 2002. Ali, a gente configurava o crime organizado muito vinculado às facções criminosas, quando essas facções atuavam principalmente nessas áreas conflagradas, periféricas, favelas e ocuparam aquele espaço vazio que o Estado ia deixando. A gente chamava isso de poder paralelo. E eles tinham uma atuação muito forte nos presídios, porque foi nos presídios brasileiros, em face do caos que girava em torno das penitenciárias, dos presídios, dos locais de custódia de presos, que surgiu esse movimento que a gente denomina hoje de facções criminosas ou de crime organizado no Brasil. Acontece que, de lá pra cá, o Estado se manteve ineficiente em relação a esse enfrentamento e, por outro lado, o crime organizado se organizou mais ainda. Eu estou escrevendo um novo livro, com essa tese atualizada, ampliada, revisada, com pesquisas inéditas e dados inéditos, que devo lançar em junho, com a vinda do senador Alessandro Vieira, aqui em Goiânia, para participar de um debate público na Câmara Municipal para falar sobre a CPI de Crime Organizado. Do ano 2000 para cá, o crime evoluiu, sofisticou-se. Hoje, quando você me pergunta quais são os principais desafios, para responder à sua pergunta diretamente, eu diria que não se enfrenta o crime organizado hoje sem ter uma concepção clara de que há um colapso institucional no Brasil, uma crise dos poderes constituídos e ascensão do crime organizado, que não são mais apenas facções, são multinacionais do crime, especialmente o PCC, e que com muita competência ocupou esses espaços institucionais que o próprio Estado brasileiro foi deixando. Não dá mais para se falar hoje em crime organizado, de alta complexidade, de alta performance, de alto nível, sem falar na captura, na cooptação de agentes públicos importantes encastelados dentro dos poderes constituídos. Não há mais um poder paralelo do crime organizado hoje no Brasil. O que há é um poder transversal. Não há mais um monopólio da violência legítima pelo Estado; há um duopólio, que eles interagem, plasmados, dentro das próprias instituições de poder do país, infelizmente. Esse é o grande desafio. Não pode combater o crime organizado se não combater a corrupção, lavagem de dinheiro e essas multinacionais do crime. Só para você ter uma ideia, o PCC está instalado em 30 países. Não é brincadeira.
Quando o senhor fala em facções, está falando do PCC, Comando Vermelho e quais outras organizações?
Primeiro, quando você fala de facção, está falando de um tipo dentro de um modelo genérico que se chama crime organizado e que está entrelaçado. Quando você fala especificamente de facções, temos no Brasil quatro grandes facções: o PCC, que é o maior de todos, que é uma empresa, uma holding internacional; depois vem o Comando Vermelho, depois vem o que a gente chama de Terceiro Comando Puro, que é uma dissensão do Comando Vermelho do Rio de Janeiro. O PCC com sede em São Paulo, o Comando Vermelho com sede no Rio, o Terceiro Comando Puro, e a Família do Norte. Só que essas facções estão trabalhando hoje, não mais disputando territórios, por isso que a violência explícita, urbana, que o próprio tráfico de drogas gerou em determinado momento, diminuiu. Essas facções têm a capacidade hoje de monitorar e elas próprias controlarem o crime organizado. O Comando Vermelho e o PCC estabeleceram uma aliança de paz num documento histórico que foi aperfeiçoado em 2025, mas já vinham em tratados de paz, porque começaram a perceber que é muito mais rentável deixarem essa guerrilha exposta e atuarem, de certa forma, em conjunto ou em parceria. O PCC hoje não tem mais uma estrutura apenas piramidal. O topo do PCC hoje é invisível. Quando se vê esses rostos que aparecem para o público, esses rostos já não são mais das grandes lideranças do PCC e de outras organizações mais bem constituídas. A complexidade hoje e a importância de enfrentamento dessas organizações no Brasil darão ao país a resposta se somos realmente uma nação autônoma, democrática e que segue os princípios republicanos. Eu diria que estamos em crise terrível em relação a esses valores no Brasil.
No momento, há experiências de crime organizado semelhantes ao PPC fora do Brasil?
O PCC foi classificado como uma potência mundial da cocaína. Essa classificação foi feita pelos Estados Unidos porque o PCC já estabeleceu células lá. O crime organizado de alta complexidade já atravessou as barreiras institucionais do Estado e colonizou várias agências estatais. Ontem (dia 28), por exemplo, foi desencadeada uma operação no porto do Rio de Janeiro, onde foram bloqueados ou detectados desvios de mais de R$ 86 bilhões. Só que eles estão tão estruturados nessa cooptação da polícia, sistema prisional, o próprio Judiciário, Legislativo, que quando se ataca um porto, eles já transferem para outro, de Santos, do Paraná, de Itaqui, no Maranhão, porque estão atuando em células, como se fosse um McDonald’s do crime. E estamos falando só de tráfico de drogas. Imagina quando fala em lavagem de dinheiro, em atuação com empresas ilícitas com cara de lícitas, em falsificação de remédios, falsificação de bebidas, atuando na área dos postos de gasolina, das indústrias de combustíveis, na produção de etanol; imagina o volume de poder que essas organizações estão alcançando?
Como a economia globalizou, o mundo globalizou, o crime também globalizou. Eles estão entranhados, agem em parceria
No momento, quais organizações criminosas no mundo se assemelham à complexidade do PCC?
Quando o jornalista Roberto Cabrini entrevistou o Marcola, ele disse que estava lendo os clássicos da sociologia. Ele disse assim: eu leio Max Weber. Max Weber é aquele que traz a teoria do Estado como detentor do monopólio da violência. Esse pessoal sabe o que está fazendo e não estão atuando sozinhos. Eles estão sistematizados. Quando se faz uma comparação em relação a outras organizações criminosas internacionais, e eu falo que hoje o PCC é uma multinacional, estou querendo dizer justamente isso. Como a economia globalizou, o mundo globalizou, o crime também globalizou. Eles estão entranhados, agem em parceria. O PCC atua com todas essas principais máfias internacionais. Essas organizações criminosas têm atuação na América do Sul e o PCC tem uma atuação bastante significativa nesses outros países. As rotas internacionais estão interligadas, porque eles decidiram que ao invés de ficar disputando os cartéis do México, inclusive com interlocuções com Farcs da Colômbia, eles já se instalaram numa espécie de parceria como as grandes empresas multinacionais fazem com bastante competência. Por isso que hoje é muito difícil fazer esse enfrentamento ao crime organizado como se fazia antigamente.
Os Estados Unidos avaliam tachar CV e PCC como terroristas Qual o impacto dessa classificação no combate ao crime organizado?
Essas facções não têm as condições, os requisitos para serem classificadas como organizações terroristas, porque as organizações terroristas têm que ter um componente ideológico, de tomada de poder do ponto de vista de subversão do Estado através da violência, do modo tradicional que se entende. Mas quando a gente verifica que essas organizações já estão atuando e comprometendo – no Brasil isso começa a ficar bastante evidente – elas já estão influenciando nas eleições, estão influenciando na tomada de decisões do poder central. Inclusive essas células brasileiras do crime organizado já estão instaladas em vários estados dos Estados Unidos. Quando os Estados Unidos querem fazer essa classificação, é porque de fato, além da conotação política ideológica do governo Trump, eles estão preocupados com a ascensão e o poderio gigantesco dessas organizações e as suas influências em vários setores da sociedade.
Uma parceria com os Estados Unidos para combater principalmente o tráfico de drogas seria interessante para o Brasil?
O que o Brasil tem que fazer é intensificar (o combate ao tráfico de drogas), porque senão o Brasil corre o risco de essas organizações de matriz brasileira serem classificadas como organizações criminosas terroristas. Ele tem que buscar uma parceria. E os Estados Unidos, por seu lado, têm um grande problema, porque os Estados Unidos continuam sendo o maior consumidor de drogas do mundo, tanto de drogas lícitas quanto ilícitas. Por exemplo, o fentanil tem uma ascendência mercadológica muito grande no México, mas como produtor de fentanil original e falsificado. Mas os Estados Unidos continuam sendo o maior consumidor. É um grande problema na mão dos Estados Unidos. Eu estive na região da Califórnia, visitei o presídio de San Quentin, perto de São Francisco, em Los Angeles, pesquisando por lá, e a quantidade de pessoas presas, na época que eu estive lá, era enorme, gigantesca, milhares e milhares e milhares de presos envolvidos com o tráfico de drogas, mesmo os Estados Unidos não sendo produtor de drogas, mas é um grande consumidor. Os Estados Unidos fazem essas parcerias e alianças internacionais para mitigar um problema terrível que eu continuo afirmando que não se resolve só com repressão. Resolve com educação, com projetos proativos, preventivos, educacionais, para convencer a instruir a sociedade de que esse não seria o caminho. Porque se a droga é uma potência econômica, é porque a demanda ainda é muito grande. Eu só vou dar um dado aqui, de pesquisas que eu faço: há cerca de mais ou menos três, quatro anos, foi feita uma pesquisa sobre remédios psicotrópicos, esses ansiolíticos, remédios para depressão. Só no Brasil foram vendidas 28 milhões de caixas de Rivotril, só Rivotril. Quando considera as outras drogas, Lexotan, DePakote, drogas para depressão, para transtorno do pânico, e uma série de patologias decorrentes dessa ansiedade que ocorre no mundo todo, isso atinge em torno de quase 80% da população. A mercadoria que eles trabalham, nós estamos falando só de drogas, volto a repetir, tem uma demanda muito grande. Se você não fizer políticas de prevenção sérias, de acolhimento, de tratamento, de compreensão, no sentido multifuncional, multissetorial, não vamos conseguir combater com eficiência essa questão só no fuzil e na metralhadora. É preciso ter inteligência, é preciso ter interlocução, não só na área de segurança pública, mas na área de saúde, verificar que esse problema da droga, não é um problema só da segurança pública e da saúde pública. Agora quando você vai para lavagem de dinheiro, para a Faria Lima, vai para esses escândalos que estamos assistindo, com batalhões de advogados que essas organizações têm, batalhões de contadores que essas organizações têm, milícias, a cooptação de agentes públicos, fiscais, auditores e tal, a gente vê que esse hoje é um problema institucional seríssimo, político, institucional, muito sério no Brasil.
Na pesquisa realizada pelo Fórum Nacional de Segurança Pública, Goiás está entre o sexto e o oitavo estado com menor ocorrência de homicídios, mas cresceu muito feminicídio e violência contra a mulher
O governo federal propõe centralizar as ações de combate ao crime, proposta que foi muito contestada pelo ex-governador Ronaldo Caiado. O que o senhor acha da proposta do governo federal?
Eu acho que tem que estabelecer parcerias. Quando o ex-governador se arvora contra, é porque o discurso dele, que é um discurso de meia verdade, porque quando ele diz que Goiás, hoje, tem a melhor segurança pública do Brasil; primeiro é que não é. Na pesquisa realizada pelo Fórum Nacional de Segurança Pública, Goiás está entre o sexto e o oitavo estado com menor ocorrência de homicídios, mas cresceu muito feminicídio e violência contra a mulher aqui em Goiás. E Goiás deixou de ser o chão de fábrica por causa das alianças das facções. Para as facções, volto a repetir, não interessa mais a briga de rua, as mortes; eles estão atuando noutro nível, na cooptação de agentes públicos e no nível do poderio econômico. Em Goiânia, por exemplo, quando você vê surgir pessoas em condomínios de alto padrão, na área rural, postos de gasolina, franquias de academia, o crime organizado aqui está atuando nestes setores. É costume dizer numa linguagem chula, nós da polícia, e aí eu me coloco como delegado de polícia há muitos anos, que a guerrilha urbana ficou para os pebas, para o baixo escalão do clero do crime. O alto clero não quer saber mais disso, mas de lavagem de dinheiro. E Goiás se tornou um centro importante. Em todas as operações que a polícia consegue detectar crime organizado tem Goiás no meio, tem gente que mora em Goiás no meio, porque aqui favorece pela localização e até pela própria pacificação que foi estabelecida.
O governo está combatendo, na verdade, os pebas. O crime organizado de alta complexidade não entrou na mira do governo estadual?
Exatamente. O dinheiro dessas organizações criminosas compõe todos esses escândalos recentes no Brasil, Master, INSS, Carbono Oculto, que está na Faria Lima, envolvendo agentes públicos de alto poder no Brasil, escritórios de contabilidade, uma série de coisas, você vê que eles alcançaram um patamar que é muito mais difícil das próprias forças coercitivas do Estado alcançar. Eles hoje são uma hidra, com várias cabeças. Se você mata uma, surgem cinco, seis ali. Já não consegue mais alcançar todos os tentáculos do crime, porque as grandes estruturas do poder estão interligadas. Eles são capazes de contratar os melhores escritórios do Brasil.
Porque quando o Marcola diz “eu estou lendo o Max Weber”, ele está dizendo que está montando uma estrutura de poder que vai competir com os poderes estatais por dentro.
Podemos entender que Brasil já está sendo parcialmente governado pelo crime organizado, considerando que as organizações já estão infiltradas nos centros de poder?
Eu não diria governado, mas nós estamos num colapso institucional perigoso no qual o crime organizado alcançou uma estrutura de poder transversal no Brasil preocupante. Eu fiz um artigo discutindo o que é antissistema, porque comecei a observar que todos esses concorrentes à Presidência da República falam que são antissistema, até o próprio Lula, sendo que ele é o presidente. Romeu Zema é antissistema, Flávio Bolsonaro é antissistema, todo mundo é antissistema. Sabe quem é o verdadeiro antissistema no Brasil? O PCC é antissistema, porque ele foi fundado dentro dos porões dos presídios brasileiros com uma conotação sociológica, filosófica. Porque quando o Marcola diz “eu estou lendo o Max Weber”, ele está dizendo que está montando uma estrutura de poder que vai competir com os poderes estatais por dentro. Essas organizações são um antissistema verdadeiro dentro do sistema. Porque quando eles ocupam as periferias, quando começam a fazer as entregas que o Estado não faz na área de saúde, a ambulância que socorre, a entrega do gás, quando começam a controlar esses serviços, funcionam como uma espécie de Robin Hood ao avesso. E eles têm popularidade, por isso é que eles manietam essas comunidades. A mãe de família que tem um filho viciado em crack, por exemplo, obrigatoriamente, vira uma viciada passiva, porque ela vai ter que ir lá comprar. E ali ocorre uma Síndrome de Estocolmo, aquele que oprime, passa a ser um herói, porque está entregando aquilo que você precisa. Veja que o problema é muito sério. O que se vê no Brasil hoje? São as instituições digladiando contra elas próprias, pelo poder. E quando os candidatos se apresentam como antissistema, estão favorecendo o crime organizado, porque estão fugindo dos debates principais que a população tem que ter e apenas aparecendo numa narrativa e num rótulo que eles não têm razão para ocupar. A organização criminosa tem. Porque eles nasceram dos porões e hoje estão dando bom dia na Praça dos Três Poderes.















